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Biocombustível: desafios e possibilidades
por Cláudia Conceição Cunha

 

“(...) somente quando as coisas podem ser vistas por muitas pessoas, numa variedade de aspectos, sem mudar de identidade, de sorte que os que estão à sua volta sabem que vêem o mesmo na mais completa diversidade, pode a realidade do mundo manifestar-se de maneira real e fidedigna”
Hannah Arendt

 

A palavra “bio” tem atraído olhares e ouvidos de muitas pessoas. Biodegradáveis, biocombustíveis, biomassa, energia biolimpa, bioeletricidade, bioengenharia, biocibernética... Este prefixo tem se tornado quase um sinônimo de “eco”, que por sua vez, popularizou-se como sinônimo de “ambientalmente” sustentável, saudável e responsável. Assim nos são apresentados os biocombustíveis. Em época de aquecimento global, quando parte da população mundial preocupa-se com a emissão de carbono oriundo dos combustíveis fósseis (petróleo, carvão), o aparecimento de um “bio” que nos ajude a continuar nosso ritmo de combustão, sem ser responsabilizado como sujeito ou empresa poluidora que contribui para o aquecimento global, atrai a atenção de muitos e enche o bolso de outros tantos. Mas, há consenso? Os biocombustíveis são a solução para os problemas energéticos da humanidade? Procuro discutir este tema colocando algumas pontuações que, como de costume, não tenho visto ser abordado na mídia.

Em primeiro lugar, quero esclarecer que biocombustível é qualquer combustível de origem biológica. Produzido através de vegetais ou de sebo animal, na forma de gás, etanol e diesel, são identificados como biocombustíveis, em detrimento dos combustíveis fósseis. Este prefixo “bio” pouco diz dos aspectos sociais e ambientais em que são produzidos, significando apenas a sua origem. Podem ser advindos de agricultura intensiva ou familiar, de monoculturas ou agroecologia, tanto faz! Levará consigo o prefixo bio, por definição! Assim, já nos cabe diferenciar a associação de “bio” com “ambientalmente sustentável”. Pode ser ou não, a depender dos outros fatores aos quais está associado.
Deve-se atentar à complexidade e multiplicidade de aspectos que tem essa questão. Acho difícil afirmar que algo é benéfico ao ambiente tendo apenas um critério de avaliação: “emissão de carbono no momento da combustão”. Aspectos como a área que será utilizada para esse plantio não tem sido suficientemente considerado, o que nos leva a um assunto recorrente: monocultura ou diversidade? Grandes extensões ou pequenas propriedades? Afinal, sabe-se que as queimadas também consistem em uma grande fonte de emissão de carbono para a atmosfera, e se áreas florestadas forem desmatadas e queimadas para dar lugar a plantios de culturas para a produção de biocombustíveis, seu efeito benéfico em relação à emissão de carbono será rapidamente anulado. Isso sem mencionar os conhecidos efeitos da queima da cana de açúcar. Por outro lado, se áreas anteriormente destinadas à agricultura familiar forem destinadas à produção de espécies que produzem óleos para a produção de biodiesel, também os aspectos social e referente à segurança alimentar ficam ameaçados.

Recentemente o presidente Lula argumentou serem descabidas as afirmações de que poderia haver prejuízo na produção de alimentos, pois, segundo ele, seria preciso "imaginar que o ser humano seria irracional. A primeira energia que o ser humano precisa é a sua própria. Ou seja, é se alimentar para poder ter força, para poder produzir a outra energia. Acho uma coisa totalmente descabida”. Vale lembrar ao presidente que a decisão de plantar cultura A ou B normalmente não está nas mãos das mesmas pessoas que sentirão a falta do alimento, portanto temos aí uma quebra no círculo de tomada decisão/prejuízo com a decisão, o que anula o argumento do presidente e nos coloca, sim, com um desafio, pois o que comandará essa relação será o lucro que poderá ser obtido com plantação de alimentos e qual o lucro obtido na produção de biocombustível.
Com isso podemos verificar que o problema ou solução relacionados aos biocombustíveis não é um problema ou solução “em si”, ou seja, não se esgota em si mesmo e não se analisa de forma desconectada. Depende da forma de produção, do uso, da atenção e importância que se dá a esses fatos. Não basta modificar nossa matriz energética, precisamos modificar nosso ritmo de utilização de combustíveis o que tem a ver com matriz de desenvolvimento, com produção e consumo de bens, o que parece não ser questionado/considerado. Não se ainda desconsiderar outras fontes renováveis de produção de energia (eólica, solar) nem querer “alimentar” o mundo com biocombustíveis, sob pena de reconhecidamente se fortalecer como um celeiro do mundo, produzindo aqui o que se vai consumir lá fora. É preciso, inicialmente, que se pense no mercado/necessidade internos, em todas as suas dimensões. O que é preciso se produzir, onde e por quem, respeitando-se as culturas e formas de produção locais.

 

 

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Chico Lopes é escritor, pintor e crítico de cinema. Publicou os livros de contos Nó de Sombras e Dobras da Noite.




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