verbo21
créditoscontato
seções
selva studio webdesign

Colunas: CINEMA RISCADO
Filme é filme!
por Renato Cunha

 

É filme ou documentário? Acho que muita gente já ouviu essa pergunta. Como se documentário não fosse filme também.

Isso acontece pelo simples fato de as pessoas associarem filme a ficção. E aí vem outra confusão. Quando se fala que o filme é ficção, logo emendam: ah! ficção científica!
Filme é filme! Não depende da forma de discurso: ficção, animação, experimental, documentário e — não se espantem — docudrama. Além disso, há as formas narrativas: curta, média, longa. E quase ninguém fala disso, talvez por as relacionarem somente às metragens. Seria algo próximo a conto, novela, romance, na prosa literária.

Penso que alguém deve estar se perguntando: e aquele negócio de aventura, drama, comédia, suspense, faroeste, etc., etc.? Então, me adianto e respondo: essa é mesmo uma lista extensa e diz respeito aos conteúdos narrativos, que nada mais são do que os gêneros, onde a própria ficção científica se encaixa. Mas vou tratar aqui é das formas de discurso.

Só para ilustrar: ficção deriva do verbo latino fingere. Isso mesmo! Aquilo que veio dar no nosso verbo “fingir”. Queria dizer inicialmente “modelar na argila”. Lembro agora de Tarkovski, cineasta russo, e o seu “esculpir o tempo”. Depois, por extensão, a palavra passou a significar “imaginar”, “inventar”. Quando Fellini falou “sono un gran bugiardo” (sou um grande mentiroso), parafraseava Fernando Pessoa: “o poeta é um fingidor”. Isso é ficção! E, nesse sentido, não interessa se é prosa ou poesia, se é literatura ou cinema.
Animação é uma ficção gráfica ou plástica. Ultimamente não me canso de ver As bicicletas de Belleville. Toda a linguagem do cinema está ali. Engana-se quem crê que animação é sinônimo de infantil. Infantil é gênero!

Permitindo-me ser tautológico, experimental é um cinema que experimenta. Aqui me arriscaria comparando-o à arte abstrata. Mas não é só isso. O experimental é transgressão. O curta-metragem Brasiliapé, de R. C. Ballerini, mostra como é penoso se locomover pelas “ruas” da capital do país desprovido de motor. A abstração também narra! Vejo ali elementos de ficção (um ser que vaga pela amplidão da cidade), documentário (vozes de pessoas opinando sobre o tema), animação (o uso de negativo vencido, que por vezes rabisca a tela).

Espalha-se por aí que docudrama é uma mistura de documentário com ficção. Mais uma confusão. É, sim, um documentário onde há dramatização, ou o que prefiro chamar de encenação urdida. Ficção não equivale a drama. O drama pode ser ficcional ou documental. Mas é bom falar que, ao se fazer documentário nos moldes clássicos, há “encenação” também, só que resultante da relação entre o entrevistado e a câmera. É impossível ficar incólume à investida do aparato audiovisual. Ou se expande, ou se retrai.
De certa forma, pode-se dizer que o cinema nasceu do documentário. Filme é filme! Antes de ficcionalizar — com todas as especificidades com que se narra uma história “fingida”, como já acontecia há séculos na literatura —, coube aos que se aventuraram nos primeiros registros fílmicos a façanha de projetar fatos corriqueiros. Se esses filmes não chegam a ser documentários em sentido estrito, podem ser vistos como registros documentais. Quem já viu A saída dos operários da fábrica e A chegada do trem na estação? Era 1895. Era o cinematógrafo, invenção dos irmãos Lumière. Era o cinema.

Com o tempo, caiu a ficha: o cinema nascera para contar histórias, imaginadas para ele ou consagradas pela literatura. Esse é o cinema de ficção. O documentário — como se apresenta atualmente — surgiu da “oposição” ao modo ficcional de representar a condição humana. Foi através da impressão de momentos “reais” que os realizadores começaram a estetizar o discurso documental. E, ainda hoje, quando se quer caracterizar o documentário, não se consegue fugir do contraste com a ficção.

Mas, cá pra nós, há ou não há uma linha tênue entre ficção e documentário? As técnicas cinematográficas, como o enquadramento e a montagem, serão sempre interferências na “realidade”. Já na segunda década do século passado, sabendo disso, Flaherty não vacilou — Nanook of the North é exemplo vivo. E toda encenação concorre para a historicidade. Sempre assisto a Méliès como se assistisse a um documentário sobre a história do cinema.
Se o documentário busca seres e objetos, que são a própria história, a ficção se vale deles para montar seus personagens e cenários, suas histórias. Aí pouco importa quem fala de quem e de que maneira fala. Filme é filme!


 

topo | página inicial

 


tribuna
entrevista
ensaios
opinião

colunas

crônicas havaianas
dagerreótipos
eros+errante
kaos kapital

verde
vértebra

 

artista do mês

Charles Turner nasceu em Old Woodstock,Oxfordshire, Inglaterra,  em 31 de Augusto de 1774; morreu em Londres em 1 de Agosoto de 1857.


O QUE ROLOU ANTES

verbo21 vintage

 

LINKS

A Garganta da Serpente
Alexandre Marino
Állex Leilla
Antonio Cicero
Ateliê Editorial
Bagatelas
Bestiário
Bigorna.net
Cadernos da Bélgica
Carlos Barbosa
Carlos Ribeiro
Ciberarte
Cidade Devolvida
Correio das Artes
Cronópios
Desconcertos
Editora Círculo de Brasília
Entre Aspas
eraOdito
Fernando Pigeard
Glauco Mattoso
João Filho
Jornal Vaia
Madame K
Mayrant Gallo
Nacocó
Página da Cultura
Régis Bonvicino
Sandro Ornelas
Santiago Nazarian
Sebo Diadorim
Simulador de Vôo
Snowbros
UBE
Verdes Trigos

 

PARCEIROS

selva