
Colunas: CINEMA RISCADO
Filme é filme!
por Renato Cunha
É filme ou documentário? Acho que muita gente já ouviu essa pergunta. Como se documentário não fosse filme também.
Isso acontece pelo simples fato de as pessoas associarem filme a ficção. E aí vem outra confusão. Quando se fala que o filme é ficção, logo emendam: ah! ficção científica!
Filme é filme! Não depende da forma de discurso: ficção, animação, experimental, documentário e — não se espantem — docudrama. Além disso, há as formas narrativas: curta, média, longa. E quase ninguém fala disso, talvez por as relacionarem somente às metragens. Seria algo próximo a conto, novela, romance, na prosa literária.
Penso que alguém deve estar se perguntando: e aquele negócio de aventura, drama, comédia, suspense, faroeste, etc., etc.? Então, me adianto e respondo: essa é mesmo uma lista extensa e diz respeito aos conteúdos narrativos, que nada mais são do que os gêneros, onde a própria ficção científica se encaixa. Mas vou tratar aqui é das formas de discurso.
Só para ilustrar: ficção deriva do verbo latino fingere. Isso mesmo! Aquilo que veio dar no nosso verbo “fingir”. Queria dizer inicialmente “modelar na argila”. Lembro agora de Tarkovski, cineasta russo, e o seu “esculpir o tempo”. Depois, por extensão, a palavra passou a significar “imaginar”, “inventar”. Quando Fellini falou “sono un gran bugiardo” (sou um grande mentiroso), parafraseava Fernando Pessoa: “o poeta é um fingidor”. Isso é ficção! E, nesse sentido, não interessa se é prosa ou poesia, se é literatura ou cinema.
Animação é uma ficção gráfica ou plástica. Ultimamente não me canso de ver As bicicletas de Belleville. Toda a linguagem do cinema está ali. Engana-se quem crê que animação é sinônimo de infantil. Infantil é gênero!
Permitindo-me ser tautológico, experimental é um cinema que experimenta. Aqui me arriscaria comparando-o à arte abstrata. Mas não é só isso. O experimental é transgressão. O curta-metragem Brasiliapé, de R. C. Ballerini, mostra como é penoso se locomover pelas “ruas” da capital do país desprovido de motor. A abstração também narra! Vejo ali elementos de ficção (um ser que vaga pela amplidão da cidade), documentário (vozes de pessoas opinando sobre o tema), animação (o uso de negativo vencido, que por vezes rabisca a tela).
Espalha-se por aí que docudrama é uma mistura de documentário com ficção. Mais uma confusão. É, sim, um documentário onde há dramatização, ou o que prefiro chamar de encenação urdida. Ficção não equivale a drama. O drama pode ser ficcional ou documental. Mas é bom falar que, ao se fazer documentário nos moldes clássicos, há “encenação” também, só que resultante da relação entre o entrevistado e a câmera. É impossível ficar incólume à investida do aparato audiovisual. Ou se expande, ou se retrai.
De certa forma, pode-se dizer que o cinema nasceu do documentário. Filme é filme! Antes de ficcionalizar — com todas as especificidades com que se narra uma história “fingida”, como já acontecia há séculos na literatura —, coube aos que se aventuraram nos primeiros registros fílmicos a façanha de projetar fatos corriqueiros. Se esses filmes não chegam a ser documentários em sentido estrito, podem ser vistos como registros documentais. Quem já viu A saída dos operários da fábrica e A chegada do trem na estação? Era 1895. Era o cinematógrafo, invenção dos irmãos Lumière. Era o cinema.
Com o tempo, caiu a ficha: o cinema nascera para contar histórias, imaginadas para ele ou consagradas pela literatura. Esse é o cinema de ficção. O documentário — como se apresenta atualmente — surgiu da “oposição” ao modo ficcional de representar a condição humana. Foi através da impressão de momentos “reais” que os realizadores começaram a estetizar o discurso documental. E, ainda hoje, quando se quer caracterizar o documentário, não se consegue fugir do contraste com a ficção.
Mas, cá pra nós, há ou não há uma linha tênue entre ficção e documentário? As técnicas cinematográficas, como o enquadramento e a montagem, serão sempre interferências na “realidade”. Já na segunda década do século passado, sabendo disso, Flaherty não vacilou — Nanook of the North é exemplo vivo. E toda encenação concorre para a historicidade. Sempre assisto a Méliès como se assistisse a um documentário sobre a história do cinema.
Se o documentário busca seres e objetos, que são a própria história, a ficção se vale deles para montar seus personagens e cenários, suas histórias. Aí pouco importa quem fala de quem e de que maneira fala. Filme é filme!
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