
Colunas: DAGUERREÓTIPOS
A casa que matava imagens
por Tom Correia
Minha primeira máquina fotográfica foi uma Kodak Instamatic 11, presente de um dos meus dezessete irmãos. Robusta e leve, a coisa que mais gostava nela era o flash, que vinha em forma de cubos destacáveis com capacidade para quatro disparos. Até hoje lembro do seu cheiro e dos barulhinhos que ela fazia quando eu passava o filme. Só não lembro das fotos que tortamente fiz com ela, já que perdi todas as imagens de encontros familiares que terminavam em discussões etílicas que remoíam o passado. Eu era um documentarista mirim que perderia todo seu material devido a uma casa frienta e inóspita.
Durante muito tempo morei naquela casa assassina. Com uma cobertura precária, a cada época de chuvas a morada tornava-se uma criminosa serial a eliminar uma a uma, todas as fotografias de certo álbum de família. Por causa do mofo e do bolor impregnado nas paredes, perdi roupas, livros, documentos e namoradas. Mas nenhuma perda foi maior e mais sentida do que aquelas fotos de família em preto-e-branco e sépia, que passaram a figurar na parte mais nobre da minha memória afetiva.
Contudo só começaria a fazer idéia do que era arte fotográfica (a velha discussão permanece: é arte ou não é?) milênios depois, quando achei jogada no meio da rua uma Superinteressante. Era uma edição comemorativa dos 150 anos da Fotografia e nela era possível saber como tudo começou, as disputas entre Nièpce e Daguerre para registrar o invento, as pesquisas de Talbot, e fotos de Sebastião Salgado, Marc Ferrez, J.R. Duran, Pedro Martinelli, Evandro Teixeira, Erno Schneider entre outros. E foi ao me deparar com aquelas imagens tocantes feitas por caras renomados e por pioneiros espalhados aqui e ali que deixei de ser um ignorante: compreendi o que a invenção da Fotografia representou para um mundo até então restrito aos desenhos e à pintura.
Jamais me recuperaria. A cada nova descoberta, um assombro. Uma releitura da vida provocada pela revolução de imagens gravadas por mestres do ofício como Lindemann, Ferrez, Lange, Gautherot, Wee Gee, Atget, Doisneau, José Medeiros, Nadar, Bresson, (impossível citar todos) cada um com seu traço, com seu olhar a recriar o que parecia vazio e tedioso. Lembro que, certa vez, mostrei uma foto da revista para um colega de trabalho. Era "A porta aberta", de William Fox Talbot, de 1844. A imagem de uma vassoura rústica encostada a uma porta aberta de uma casa simples em contraponto com um candeeiro pendurado, me toca até hoje pela ausência sugerida: afinal quem morou ali? Que tipo de vida levava? Quais eram os seus sonhos no século XIX? Empolgado com a descoberta, busquei o colega de trabalho mais disponível e disse: "Olha aqui, que bela imagem!" ao que ele retrucou: "Não estou vendo nada demais nisso aí..."
No fundo, era meu ex-colega quem deveria ter morado na casa assassina. Com o desprezo que tinham pela memória fotográfica, tanto faria perder todas as fotos da infância ao lado de um pai grave e moralista. Se servir como consolo, Baudelaire também detestou a novidade da época, achando que era um insulto à pintura. A ironia é que a imagem mais famosa do poeta foi feita no estúdio do retratista Carjat, em 1863. Até os gênios erram.
E tudo isso para dizer que hoje, 19 de agosto, é o Dia Mundial da Fotografia.
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