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Ensaio
ARENAS: o intelectual exilado
Por Lima Trindade

                                                                                                      
"Na profusão de estudos sobre intelectuais tem havido demasiadas definições de intelectual, e pouca atenção tem-se dado à imagem, às características pessoais, à intervenção efetiva e ao desempenho, que, juntos, constituem a própria força vital de todo verdadeiro intelectual."
- Edward Said


Como exercer a atividade intelectual com independência e continuar sobrevivendo dentro de uma realidade que busca aniquilar justamente a liberdade de expressão? Como viver sob uma ditadura, de esquerda ou de direita, que suprime os direitos individuais e cerceia o gozo do sexo, controlando as atividades, coibindo o livre pensar, torturando e calando, ocultando e revelando a morte simbólica, a morte política, a morte como moeda, reprodução banal, realismo fanático, religião, ópio, promessa-não-cumprida, adiamento, apoderamento, pavor e criminalização da diferença, da crítica, da não-aderência, do questionamento à “Verdade”?

Reinado Arenas não só sobreviveu, como, mesmo diante de todas as dificuldades materiais, fez da escrita e do corpo objetos de transgressão:
Três paixões regeram a vida e a morte de Reinaldo Arenas: a literatura – não como jogo, mas como fogo que consome –, o sexo passivo e a política ativa. Das três, a paixão dominante era, evidentemente, o sexo. Não só em sua vida, mas também em sua obra.

Descontando o gosto de Infante pelo trocadilho, às vezes aprisionador e revelador da lógica dicotômica de seu pensamento, dispenso a hierarquização das três paixões e reputo um disfarçado preconceito no uso dos adjetivos para o sexo e política. Não que, aos modos das revistas de fofocas, seja importante se Arenas era sexualmente ativo ou passivo. Convém apenas esclarecer aos desconhecedores da sua obra, que em Antes que Anoiteça há descrições das duas práticas sexuais por parte do narrador: ativa e passiva. E também que uma aparente passividade na política é registro de um outro tipo de atuação e identificação, não necessariamente menos eloqüente. O princípio de passividade está inserido também em seu oposto. E o do agente de atuação, aquele que toma a iniciativa, igualmente. No caso do sexo, para que haja dominador e dominado, é preciso que haja um acordo entre eles. Esse tipo de formulação absoluta esconde em seus subterrâneos a idéia machista de que os gueis copiam um modelo heterossexual – já ultrapassado, penso – em sua maneira de enxergar o sexo, onde a mulher e o homem têm papéis fixos no jogo sensual do amor.

A descoberta de um traço homoerótico na sexualidade de Arenas se deu muito cedo. Logo quando principiou os estudos formais, ainda com seis anos, ele se apaixonou por alguns coleguinhas de sala. Cabrera Infante menciona, não sem alguma ambigüidade, o aspecto exterior da personalidade de Reinaldo Arenas:
Mas Arenas tinha, como costumam dizer em Cuba, seu defeito, algo que soa quase como um desafeto: era homossexual e de uma forma muito chamativa, quase como uma louca de Havana Velha. Além disso, não fazia nada para ocultar ou reprimir seus hábitos: pertencia a essa jovem geração de homossexuais que criou o movimento gay.

Essa feminilidade de modos diferenciava Arenas de outros dissidentes políticos e homossexuais? Não permitia, vamos dizer assim, a ele se “disfarçar”? Outro aspecto desse não-ocultamento aparece na literatura. Infante, na citação, demarca o horizonte. Arenas pertencia à geração da luta pelo movimento guei. Destaque-se, contudo, que Arenas escreveu a maior parte dos seus contos antes do levante de Stonewall.

Por ocasião do lançamento do filme Antes que Anoiteça, dirigido por Julian Shnabel e livremente inspirado no livro de Arenas, surgiram muitos artigos em jornais e revistas, onde seus autores defendiam ou atacavam o filme por sua carga de anticastrismo. Em meio a esses havia um muito interessante, assinado pelo norte-americano Jon Hillson, sindicalista, defensor da Revolução Cubana, no qual a promiscuidade de Reinaldo Arenas é posta em cena e suas qualidades enquanto escritor e intelectual são questionadas, afirmando Hillson que o talento do escritor só surgiu por causa da Revolução e que, após ter seu segundo romance censurado, Arenas partiu para um enfrentamento radical não só das políticas errôneas, adotadas em nome da Revolução, como também da luta do povo cubano por sua liberação. E ainda julga toda a produção posterior do escritor, após sua perseguição em Cuba, “inoculada do debilitante veneno de uma amargura obsessiva”, acrescentando que, em sua vida real, não fora capaz de se dar conta da diferença entre a Revolução e os campos de concentração para dissidentes.

Para Hillson, a imagem que Arenas propagava para os jovens era a de quem privilegiava a “revolução sexual” e sua conseqüente promiscuidade, indo de encontro ao credo “de que a revolução desejava inculcar auto-estima nos homens e mulheres livres, aos quais haviam descoberto seus talentos e capacidades como resposta a complicados desafios.”
Há uma verdadeira obsessão por conta das patrulhas moralistas em se condenar quem fala de sexo. Foi assim com Freud, Nelson Rodrigues e Kinsey. E com Reinaldo Arenas. Que fórmula é essa que relaciona uma grande atividade sexual a uma baixa auto-estima? Que autoridade é essa que faz querer pensar que Reinaldo Arenas não gostava de si por praticar sexo “demais”? Primeiro, ele jamais deixou de trabalhar. Segundo, a causa da sua morte não foi a falta de amor próprio, mas o exílio e a doença contraída num tempo e lugar onde a desinformação a respeito da AIDS era grande. O amor-próprio de Arenas, seu orgulho, entrega à vida e paixão eram tão grandes que, uma vez preso, passou meses sem ter relações sexuais, enquanto muitos outros homossexuais “aproveitavam” a oportunidade da reclusão, a falta de mulheres, os favorecimentos de uma situação que limitava o direito à escolha, o exercício pleno da liberdade do desejo:

Não tive relações sexuais na cadeia; não apenas por precaução, como também porque não fazia sentido; o amor é algo livre e a cadeia é algo monstruoso, onde o amor se transforma em bestialidade.

Não foi só uma única vez que Arenas foi preso. Ele esteve em El Morro, na Villa Mariana e mais uma vez em El Morro, prisões e espaços reservados para punir os dissentes políticos, sendo que, para os homossexuais, havia ainda os campos de concentração chamados Unidades Militares de Ayuda a la Produccíon (UMAP). E, mesmo preso, mesmo em fuga – quando se escondeu no Parque Lênin –, Arenas continuou a escrever e a traficar seus textos para fora da Ilha. Continuou resistindo, dando publicidade aos horrores que o regime socialista de Cuba não permitia enxergar, cumprindo com o papel de intelectual o que Michel Foucault preconizava:

Ora, o que os intelectuais descobriram recentemente é que as massas não precisam deles para saber; elas sabem perfeitamente, claramente, muito melhor do que eles; e elas o dizem muito bem. Mas existe um sistema de poder que barra, proíbe, invalida esse discurso e esse saber. Poder que não se encontra somente nas instâncias superiores da censura, mas que penetra muito profundamente, muito sutilmente em toda a trama da sociedade. (...) O papel do intelectual não é mais o de se colocar “um pouco na frente ou um pouco de lado” para dizer a muda verdade de todos; é antes o de lutar contra as formas de poder exatamente onde ele é, ao mesmo tempo, o objeto e o instrumento: na ordem do saber, da “verdade”, da “consciência”, do discurso.

Afora o papel de autonomia do discurso evocado por Foucault, Arenas reúne várias características anunciadas por Edward Said, em seu Representações do Intelectual, que o configuram como um intelectual num sentido mais contemporâneo. Tanto era um exilado e marginal, quanto um amador, sem vínculos com órgãos oficiais. Fato reconhecido mais uma vez por Cabrera Infante:

Era o exilado total: de seu país, de uma causa, de seu sexo, e morreu lutando contra o demônio. Não houve um anticastrista tão pertinaz e tão eficaz. Quando a AIDS não o deixava mais viver, morreu como vivera: em guerra contra Castro.

E o exílio de Cuba veio em 1980, quando, junto a milhares de “marielitos”, Arenas deixou o porto de Mariel para os EUA. Aconteceu então o êxodo dos indesejáveis. O governo castrista mais tarde explicaria o endosso da expatriação como uma “tentativa de depurar a sociedade e purificar a pátria.” Os “marielitos” eram dissidentes políticos, criminosos, doentes mentais e... gueis!

No período em que esteve exilado, primeiro, em Miami e, depois, em Nova Iorque, Arenas lutou incessantemente para publicar seus livros, acusou o ditador Fidel Castro pela severidade do regime, organizou abaixo-assinados e manteve a mesma postura incômoda frente aos excessos do poder. Postura que adotou até o dia de sua morte.



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