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Entrevista
ENTREVISTA COM MANU MALTEZ
Por Chico Lopes

Manu Maltez é músico, artista gráfico e desenhista. Nascido em São Paulo no ano de 1977, toca piano, violão e contra-baixo. É ainda líder e compositor do grupo Cardume, com o qual lançou o CD “Neves do Kilimanjaro” em 2001. Como desenhista, empresta a grandiosidade de seu talento à revista Ácaro. Fez também algumas capas de livros, entre eles, os dois primeiros livros de Chico Lopes (“Nó de Sombras” e “Dobras da Noite”) e “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, de Machado de Assis, rendendo-lhe a admiração de inúmeros e diferenciados leitores, pela precisão de seu traço e flagrante criatividade. Surpreendentemente, Manu e Chico só foram se conhecer este ano. Para selar de vez a parceria, Manu respondeu a esta entrevista exclusiva para o amigo contista e para Verbo21.

Chico Lopes – Fale um pouco de sua história pessoal, do seu envolvimento com o desenho. Começou a desenhar quando? Quais foram as coisas que o motivaram e instigaram no início?
  
 Manu Maltez – Comecei a desenhar desde muito cedo, minha mãe é artista plástica/ilustradora de livros infantis, e meu pai artista gráfico, e sendo assim, as paredes de minha casa eram liberadas pra que eu e meus irmãos desenhássemos aquilo que quiséssemos, na hora em que bem entendêssemos (começamos com o desenho assim como fizeram os primeiros homens, nas paredes de suas cavernas). Desenhava de tudo, mas os animais foram de início a maior inspiração, tive uma infância bastante interiorana, entre fazendas e sítios e gostava muito de desenhar as espécies de animais que encontrava(estava sempre muito próximo deles), bois, bezerros, cavalos, gambás, coatis, cobras, traíras, cascudos, tamboatás...

CL – A marca do seu trabalho parece ser a hibridificação de seres humanos e animais, sempre com uma proximidade perturbadora e surrealista entre os dois reinos, animal e humano. Pensa-se na emoção e na volúpia das metamorfoses, que envolveriam um drama de ordem ontológica. Pensa-se também em nomes do surrealismo como Ernst, em expressionistas como Ensor e Munch e até em cineastas particularmente inquietantes como David Lynch. Quais artistas podem ter pesado nas suas escolhas?
 

MM – Na verdade, olhando agora pra trás, não sinto que houve uma escolha consciente (em relação a um tema, e ao formato do trabalho), a coisa foi indo de uma forma intuitiva, instintiva eu diria até, resultado sempre de um olhar pra dentro e outro pra fora. `A medida em que fui mostrando meus desenhos, as pessoas me falavam deste ou daquele artista, e então eu ia atrás destes artistas e fazia lá minhas reflexões, e tudo ia/vai se somando. Gosto de pensar também que não preciso de muita coisa para criar algo, de ser, digamos - ante diluviano, "apenas" um bico de pena, um buril, uma ponta seca...
Tive também proximidade com alguns que considero grandes mestres, e que depois tornaram-se amigos, com quem converso até hoje, como a desenhista Ely Bueno, que me levou ao Marcelo Grassmann(ao qual me considero "parente"), e mais recentemente o Evandro Carlos Jardim, com quem aprendi/aprendo gravura em metal.
sem dúvida, admiro esses nomes que você citou, mas não me sinto pertencente a nenhuma escola. Posso apenas citar alguns nomes que estão dentro do meu campo afetivo,  como Goya, Rembrandt, Goeldi, Iberê Camargo...



CL – Há também um forte conteúdo erótico - no vórtice da proximidade e da profundeza dos genitais - em alguns desenhos. Até que ponto esse erotismo lhe interessa?

Não sei, mas penso que o erotismo está presente em toda obra de arte...

CL – Você fez capas para meus dois livros de contos. No primeiro caso, "Nó de sombras", a partir daquela capa, desenvolveu toda uma série de pássaros a nanquim. Conte como foi isso e conte qual a sua relação é interesse com o mundo literário.

Pois é, essa primeira capa do Nó de sombras, foi minha primeira capa de livro publicada e não poderia ter sido melhor. pois acabei fazendo a imagem que você considerava das mais fortes do livro, e tudo isso sem nunca termos trocado uma palavra, sem termos sido sequer apresentados. E essa imagem de seu universo, que de certa forma tem parentesco com o meu, de tão forte acabou virando uma série grande de desenhos e gravuras sobre pássaros, gaiolas e lâmpadas. Outra coisa saudável neste diálogo, é a preservação da autonomia e liberdade de ambas as linguagens, e fazer as coisas de modo que não se proíba o imaginar do leitor. A literatura sempre esteve presente(sou também compositor, e escrevo letras de música), li muito Machado de Assis (também fiz capa e desenhos para uma edição de Memórias póstumas de Brás Cubas), Dostoievisky, Kafka, Guimarães Rosa(tb tenho uma série de nanquins sobre o Grande Sertão) a poesia de Manuel Bandeira, Drummond, João Cabral, os portugueses, Pessoa, Miguel Torga e Herberto Helder. E a grande felicidade tem sido agora poder trabalhar ao lado de escritores contemporâneos responsáveis pelo que considero um momento muito vivo da literatura brasileira; faço parte uma revista literária comandada por novos escritores/editores chamada Ácaro, já fiz desenhos para textos seus e de escritores como Cristovão Tezza, Wilson Bueno, Pedro Biondi, e agora faço uma série de gravuras em metal que estarão no próximo livro do escritor e amigo Marcelino Freire.

CL – A particularidade da sua carreira de artista plástico é que ela vem acompanhada de uma outra dedicação - a de compositor, músico e líder do grupo Cardume. Isso não é comum no Brasil - um artista plástico também músico e à frente de uma banda, que, aliás, já tem um CD gravado, "Neves do Kilimanjaro". Fale mais dessa aproximação insólita entre desenhista e músico.

Há  uma década eu venho nessa luta, tentando conciliar as duas vidas, as duas musas, a "mulher e amante", que vivem trocando de papel entre elas, e é sabido que o dinheiro rareia em ambos os lados, e tecnicamente os dois são extremamente exigentes. Sou formado em contrabaixo acústico, e criei em 2001 o Grupo Cardume, para tocar ao lado de outros jovens músicos minhas composições. Criamos ano passado aqui em São Paulo o Mó! - movimentação musical, uma mostra itinerante de nova música autoral independente, um coletivo de vários grupos musicais, que se apresenta pelos teatros e auditórios da cidade(já está na sexta edição). Apresentei também em 2006, uma espécie de "conto-concerto", chamado O diabo era mais em baixo , peça para trio de contrabaixos, narrador e cinco instrumentos, na qual é contada a história do homem que vendeu a alma do contrabaixo para o diabo, juntando música, literatura e imagem.
Aos poucos as linguagens tem se roçado mais, como nos desenhos que fiz para o encarte do meu cd, como nos cartazes feitos para o Mó!, os desenhos para o cenário do "conto-concerto", e na última apresentação que fiz aqui em São Paulo, sonorizando textos declamados pelo escritor Marcelino Freire enquanto gravuras eram projetadas.
 
Chico Lopes – Que presente vê para as artes plásticas no Brasil, ao menos o tipo de desenho e gravura que você faz? Em música, que espécie de trabalho de composição te interessa, quais são seus favoritos?

O presente não é animador, em geral. O mundo não vai bem. Mas não foi sempre assim, para um tipo de arte que se faz sem concessões? um tipo de arte em que você tenta seu próprio caminho, fora dos modismos?  como diria o Goeldi, "caminhada dura, mas a única que vale todos os sacrifícios". Por outro lado, mais otimista, e fruto destes encontros que tenho tido por estar metido em áreas diferentes nas artes, tenho lido, visto e ouvido, coisas novas de gente muito boa que está por aí produzindo apesar de tudo. Na parte musical, voltando para as preferências, digo aqui algumas, fruto do meu interesse diverso: Mozart, Stravinsky, Villa Lobos, Bartok, Messiaen, Berio, Paulinho da Viola, Cartola, Tom Jobim, Miles Davis, Monk, Jimi Hendrix, Itamar Assumpção, Chico Science, Bjork, e gente menos conhecida e nova:  Puerto Candelária, Projeto B, André Rocha, Silvio Ferraz, Adolfo de ALmeida, Lisbon Underground Jazz essemble...


Chico Lopes – Você é jovem. Dê um recado para os que, como você, são jovens e estão pisando no difícil mundo das artes no Brasil.


Rapaz... o problema é que não me sinto tão jovem, e nem tão velho pra poder dizer alguma coisa aos mais jovens, mas o que posso dizer é que, sim, é uma luta solitária(a do artista com seu trabalho), mas é fundamental a troca, a conversa, o diálogo entre os artistas, de uma mesma área e de áreas diferentes, tanto para o fortalecimento de um cenário, uma vida cultural mais saudável nesse país, como para o espírito.


* Mais informações sobre o cardume e o mó! acesse: www.myspace.com/grupocardume e www.myspace.com/movimentacaomusical.

 

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