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Chico Lopes

Chico Lopes é jornalista, nasceu em Novo Horizonte-SP, publicou os livros de contos Nó de Sombras (2000) e Dobras da Noite (2004), além de colaborar para inúmeros jornais e revistas impressos e eletrônicos.

 

SENHORES DA NOITE

Das montanhas vulcânicas eles saem, lépidos, inúmeros. Vêm de cavernas fantasmagóricas, nas quais se ocultam da luz do dia. No entanto, nada têm de sinistro. Apenas são filhos exclusivos da lua e só a seu apelo branco podem atender.

O vôo é desordenado, mas sua assimetria obedece a uma geometria de bailado que só os de rara harmonia compreendem. Há algo de inquietante no número copioso e interminável, ruflar surdo de um milhão de asas, que sai das cavernas. O imprevisível é a vingança da Natureza.

Eu os invoquei, e agora não sei o que fazer de sua beleza. Limito-me a contemplá-los como um prestidigitador que perdeu o controle de seus truques, mas é humilde o suficiente para admirar o que o supera. Deponho a varinha mágica e sigo suas evoluções no ar.

O curiango é branca magia em dança circular contra um fundo de cetim negro cravejado de brilhantes. Em estradas noturnas eu via seus olhinhos luminosos devassados pelos faróis dos carros e achava preciosas as luzinhas das aves paradas.

O sem-fim é um canto de duas notas que consegue sugerir infinito e desolação em repetição eterna e humilde. Ele tem a força de uma oração primitiva em sua música limitada. Seu segredo é a persistência da solidão, que consegue sempre ser nova. A monotonia é a chave da grandeza.

Alma de gato, cruz credo, é ave de mau agouro e raras aparições.  Vi-a uma só vez em toda a minha vida, e não me esqueço de sua realeza arisca. Dessa rainha proscrita eu queria algumas penas para fazer um talismã que mantivesse minha integridade, minha solidão de bruxo.

Urutago gargalha de dor, olhos insones, macambúzio, à espera de insetos. Urutago eu
nunca vi; só sei de sua fama, como se sabe de uma lenda ou de uma péssima reputação, o que enche a imaginação de ansiedade e medo. Maldição é encanto.
Quando a coruja canta, compreendo toda a noite. Os pios fúnebres não anunciam morte, apenas resumem a densidade da tristeza. Fazem pano de fundo para a tragédia anônima e insone de milhares de Prometeus acorrentados à cama. O lúgubre é a confirmação de nosso maior segredo: a miséria de sermos nós.

Há tico-ticos que cantam no meio da noite, irregulares. Ouvi o assoviozinho tímido e penetrante noite dessas, quando passeava minha abulia numa praça. E me pareceu que o passarinho cantava porque sonhava que era dia. Foi como se uma pontinha de sol alumiasse algum esconderijo cuidadosamente privado no amplo da noite. E o que eu ouvi tinha a infinita solidão das coisas que se manifestam fora de hora e lugar, revelando a fragilidade da criatura e a inabilidade do coração para ajustar-se a normas. Poesia é sempre desobediência, imprevisto.

Há tantas aves e pássaros cujos nomes desconheço! Não deixam de existir por causa de minha ignorância e por não constarem de enciclopédias, ao menos das que percorri à sua procura. Se não os conheço, ao menos intuo que existem imateriais e concretos em céus que nunca vi e bosques que nem sei. Estão por aí, dentro do escuro, bicando insetos, trinando, nidificando em árvores altas, e eu os sonho de olhos abertos, formando-os lentamente do caos que há em mim. Faço-os arbitrários, ferindo noções exatas de ornitologia, porque os quero líricos e inclassificáveis, como eu.

Nos olhos dos noctívagos há um ardor de pássaros contidos. No ombro esquerdo de um pária pousa, levíssima, uma ave do paraíso. Beija-flores de negro-esmeralda vêm sugar o néctar do escuro. Sobre a face estremunhada do bêbado desce, imaterial de tão leve, uma pena de ouro claro. Andorinhas noturnas, vestidas em azul profundo e branco perfeito, tecem ninhos em meus cabelos. A aldeia é invadida por infindáveis periquitos de uma espécie ainda desconhecida. Tenho medo dos pássaros vermelhos que confabulavam, estridentes e furtivos, num sonho que tive. Há pássaros conspiradores nesta alma que não descansa.

Sou um sono que não dorme. Enquanto penso dormir, mundos se engalfinham em mim. A inquietação numerosa faz de um mim um histérico constantemente adiado. Fertilidade é desespero.

Há aves noturnas que voam muito alto e não têm pernas, apenas asas largas e exuberantes. São esplêndidas e irisadas como invenções de deuses, mas estão condenadas a não poder pousar e sua maldição é voar por toda a eternidade. Rarefeitas e incapturáveis, têm saudade obscura da terra e o chão é o paraíso a que aspiram. Mas os deuses não lhe concedem pouso.

Sou agourento e doce, andorinha de rapina. Arrulhos, chilreios e pios surdos no fundo de mim.

Mas tapo os ouvidos à passagem da rasga-mortalha sobre o telhado da casa. Só volto a dormir quando penso nos pássaros mais frágeis e pequeninos que estão protegidos, em sono leve, em topos de árvores as mais altas do mundo. E não me esqueço que é o irmão vento o condutor amável dos beija-flores nas correntes migratórias.

Um dia minha carne cansada se cobrirá de penas e serei levado de volta à pátria invisível dos passarinhos. Serei redimido de tão longo exílio em forma humana e dormirei no leito real de um deus-pássaro estranho, que governa as criaturas aéreas de um trono resplandecente, revestido das jóias furta-cores dos peitos dos colibris. E a minha ressurreição se dará em hora noturna.

 

(De um livro inédito de prosa poética, entre 1983-1988)



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