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Tribuna
Lau Siqueira

Lau Siqueira nasceu em Jaguarão,RS. Publicou três livros: O Comício das Veias (Paraíba: Editora Idéia, 1993), O Guardador de Sorrisos (Paraíba: Editora Trema, 1998) e Sem Meias Palavras (Paraíba: Editora Idéia, 2002). Tem poemas publicados nas últimas edições do Livro da Tribo (São Paulo: Editora Tribo) e na antologia Na Virada do Século — Poesia de Invenção no Brasil (São Paulo: Editora Landy, 2002), organizada pelos poetas Frederico Barbosa e Cláudio Daniel.

 

Escala

Às vezes, quando estou de um jeito
           que nem mais a tristeza incomoda,
       penso que minh’alma é uma escada.

Então vou subindo, palavra por
 palavra... Separando as sílabas
 conforme a capacidade de
 armazenagem dos meus bolsos. Até
 que a poesia acena para mim de
 alguma janela

 

E depois some como o vôo que
     fica na memória tamanha a beleza
     do pássaro.

 

Tinto Seco

 

Querido diário. Vírgula.
Novalinha. Sou um cidadão do meu tempo. Ponto. Olho ao redor e vejo que a esperança habita somente os olhos de quem luta. Ponto. Vejo lampejos de medusa. Ponto. Vejo tudo pelo olhar que assusta. Ponto. Vejo a louca entre a viagem e a musa. Ponto. Ponto. Ponto. Vejo a vida difusa. Ponto. Inconclusa. Ponto.
E ponto. Ponto.

 

pequenas chuvas

ainda que não chova nesta noite de passaredos
imensos e misteriosos seres cavalgando nas sombras
pegarei em tuas mãos para construirmos juntos na
eternidade de um relâmpago uma canção de aparência
estática que perfure as algazarras cotidianas onde

somos todos estranhos como são estranhas as reses
no pasto com seus olhares mortificados em sonoros
silêncios e placidez imersa n’algum corpo  etéreo
montado sobre pedregulhos de cor alaranjada
e fractais impressos em literatura neolítica

ainda que as águas não caiam sobre os telhados
desta noite qualquer espalhada pela carcaça inicial
do terceiro milênio vamos mastigando nossos passos
ingerindo caminhos percorridos a um palmo das
cumeeiras de nudez e tradução futurista

o poeta sorverá seu próprio iodo em razão de uma
existência que acumula enzimas e pilões de feitura 
híbrida derramada na extensão do incêndio que se
alastra quando bêbados de insônia bebemos o amargo
das mesmas manhãs de invernia

 

refrão

 

os ventos são algazarras
do infinito
em nossos cabelos gris...

(bis)

 

boca boca

 

sem mira
atiro em mim mesmo
às vezes

saio lanhado e disforme

y novamente me transformo
: assumo a interina forma

no mais
sou o verso que voa
no espetáculo sem bis
do instante



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