verbo21
créditoscontato
seções
selva studio webdesign

Colunas: VERDE
Canaviais
por Cláudia Conceição Cunha

 

“Fome e guerra não obedecem a qualquer lei natural
– são criações humanas”
Josué de Castro


Já discutimos algumas vezes sobre as conseqüências de “diversidade x monocultura”, sobre a questão “social x ambiental” e sobre a contradição envolvida entre a “concentração de renda x pobreza”. Em viagem recente pela BR 101, no trecho entre Alagoas e Pernambuco, passando pela chamada “Zona da Mata”, encontrei um ambiente que me levou a uma reflexão sobre todas essas questões tendo um caso concreto para explorar, ou melhor, vendo um ambiente concreto sendo explorado. Aliás, exploração é uma palavra que não pode faltar ao tratar esse assunto. Exploração da terra pelo homem, exploração do ser humano pelo ser humano. A primeira nos faz inicialmente pensar: onde está a mata que estava aqui? E ao mesmo tempo: como estão os homens e mulheres que estão aqui?

Refiro-me à situação dos canaviais, e logicamente dos trabalhadores da cana dessa região que melhor me fez compreender “Baixio das Bestas” (filme brasileiro de Cláudio de Assis ambientado na zona da mata pernambucana). Diante da situação encontrada na região, é fácil perceber que trata-se de um ambiente próprio para a barbárie mostrada no filme, local onde palavras como respeito, igualdade e justiça são apenas palavras quando nos referimos a condições e divisão de trabalho e aos princípios constitucionais de proteção da vida, nessa nossa sociedade de direito. Quando um personagem do filme diz: "Tá sentindo um cheiro estranho? É a podridão do mundo" facilmente podemos remeter à podridão que impera nas relações sociais presentes nos canaviais, refletida na condição feminina exposta no filme.

Qual o quadro visto? Imensas plantações de cana margeando a estrada, entrecortadas por usinas e inundadas pelo cheiro saído das mesmas. Se não olharmos pelas janelas do carro, também é fácil perceber os canaviais através dos caminhões (ou dos treminhões) que percorrem as estradas levando o fruto do trabalho de pessoas que encontramos andando pela estrada, com facão na mão, olhar cansado e roupas gastas. Além dessa paisagem que é vista pelos olhos, podemos perceber outra que é sentida pelos braços, mãos, e bolso de uma imensa população que é, ou alijada do desenvolvimento da região, aumentando sua pobreza e fome ao redor dessas plantações, ou inserida nesse “des-envolvimento” em uma forma desumana. Situação que não é diferente de outros canaviais como os encontrados em São Paulo ou Minas Gerais, e tão pouco de outras regiões dominadas por monoculturas como eucalipto, café e soja.

Concentração de terra? Não! MUITA concentração de terra. O fato torna-se ainda mais visível quando vemos ao lado de longos canaviais aparecer em acampamentos do Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra (MST), onde trabalhadores se espremem em pedaços de terra em condições precárias de habitação para pressionar por uma distribuição mais justa de terra e, portanto, de trabalho e de renda.  No entanto, este quadro também nos remete ao papel ativo dos movimentos sociais na cobrança e construção de alternativas para um novo modelo de desenvolvimento que busque maior equidade social.

Abro parênteses para comentar sobre o caráter ambiental do MST. Ora, ao ter uma bandeira eminentemente voltada para aspectos sociais (trabalho, renda, produção, terra) o MST contribui para uma discussão ligada ao uso da terra, e ao valor do trabalho na produção do valor sobre uma matéria prima, que nesse caso é a natureza. Ao reivindicar uma reforma agrária baseada na redistribuição, vincula-a ao modo de produção, ao crédito rural, e questiona as bases sobre as quais a economia brasileira se fundou com sucessivos ciclos de monocultura com sobre-exploração do ambiente. Longe de um movimento vazio de significado ecológico, é um movimento que se significa ecologicamente no social, ao não desvincular as necessidades concretas de existência, de vida, das condições encontradas e da relação homem-natureza, para eles tão intrínseca. Portanto, devemos estar atentos para essas manifestações, que situando-se na materialidade da existência (necessidade de trabalho, comida, habitação, reprodução) nos mostra um caminho possível para sustentabilidade socioambiental. Fecho parênteses e volto aos canaviais.
Impulsionada por incentivos governamentais em uma política equivocada que se pretende socioambientalmente responsável e sustentável, a plantação de cana, da forma como é praticada, apresenta danos diretos e imediatos ao meio ambiente. Esgotamento do solo, plantações em topo de morro e na margem de rios, e expulsão da fauna local pela falta da biodiversidade necessária para sua sobrevivência ou pelo fogo utilizado na queima dessas áreas, são alguns problemas observados que exigem uma ação mais eficaz dos órgãos ambientais. Aqui ressalto a importância de ações integradas que vêm sendo feitas entre órgão ambiental e de fiscalização das leis trabalhistas, demonstrando a ligação irremediável entre essas duas questões.

Quanto ao outro “homem” dessa história, o dono dos canaviais, o usineiro, esse eu não vi. Provavelmente está em Brasília, e/ou outras grandes cidades longe da natureza inóspita e perto dos bancos onde se situa a sua relação com aquela terra. Relação financeira, alienada da terra, alienada do mundo que é o mundo dos que lá trabalham. Em um momento em que usineiros são chamados de heróis e que o álcool é tido como um combustível ambientalmente sustentável, é importante olhar não apenas para a frente ou para o lado, e sim para dentro dos canaviais para enxergar essa gente que lá está, e que neles sobrevive (ou morre).

 

 

topo | página inicial

 


tribuna
entrevista
ensaios
opinião

colunas

crônicas havaianas
dagerreótipos
eros+errante
kaos kapital

verde
vértebra

 

artista do mês

Charles Turner nasceu em Old Woodstock,Oxfordshire, Inglaterra,  em 31 de Augusto de 1774; morreu em Londres em 1 de Agosoto de 1857.




O QUE ROLOU ANTES

verbo21 vintage

 

PARCEIROS

bestiário

selva

União Brasileira de Escritores