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Colunas: VÉRTEBRA
Sobre lutas – um documentário
por Rã Cinza


aos amantes das feras

Fera

Às vezes o tigre em mim se demonstra cruel
como é próprio da espécie.
Outras, cochila
ou se enrosca em afago emoliente
Mas sempre tigre; disfarçado

CDA

 

Na madrugada de primeiro de julho, no canal Bandeirantes, vi um documentário, Além do Ringue. O filme contava as histórias sobre atletas profissionais de luta livre. O realizador, diretor e entrevistador, Barry W. Blaustein, auto referiu-se como um aficionado por essa modalidade desde criança. Para trazer seu produto final ao público, ele pesquisou durante anos sobre seus personagens, empreendeu entrevistas e viagens, nas quais acompanhava os lutadores.

Ir além do ringue significou apresentar seus lutadores enquanto singularidades eivadas por histórias de vida em que a luta livre os aproxima, assim como, para alguns, a apresentação e as performances dos lutadores em cena causam excitação. Alguns lutadores foram mostrados numa iridescência que habita todo e qualquer ser humano. O um é vário. E um lutador stricttu sensu está para além da violência demonstrada por sua escolha profissional. Juntamente com o sangue, as cadeiradas, o suor, as suas histórias, quando contadas, encantam, como encanta vê-los se moerem.

Gosto de luta. Gosto mais de boxe, categoria peso-pesado. Sinto muito pelos acontecimentos nefastos que afastaram Mike Tyson dos ringues, mas essa é uma outra conversa.

Um dos lutadores apresentados no filme de Blaustein tem o apelido de Mankind: um homem que aparenta estar na casa dos 30 ou 30 e poucos anos, casado e pai de dois filhos, um casal. Mankind (Mick Foley) é especialista em grandes quebras, o que confere ao filme um entrelaçamento entre o biográfico privado, posto à vista por meio das entrevistas com os lutadores em seu ambiente doméstico, através de uma câmera que dá impressão de ser o olho e o amigo dos entrevistados, e o biográfico profissional. A câmera vai até os momentos em que algumas lutas são transmitidas. Nesse instante, o olho amigo se perde entre os muitos outros, e a proximidade abre-se no espetáculo da luta livre.
Mankind surge, tanto na própria casa como depois da luta, como pai amoroso. O homem grande, que recebe e desfere violentos golpes, possui um rosto delicado, angelical, é filmado brincando de luta na cama com o filho, e deixa a filha penteá-lo e fazer nele um rabo-de-cavalo. Sua mulher refere-se a ele como um marido caseiro e solidário.

Numa luta em que sua esposa e os filhos vão ao estádio, o documentarista mostra a aflição da família de Mankind ao assistir ao combate. O olho amigo acompanha e repassa, no ambiente doméstico, o sofrimento de seus familiares. Quando Mankind vê a filha, o filho e a mulher angustiados por terem visto o espetáculo, chora e diz repensar a escolha profissional, pois percebe que submete os seus a uma enorme aflição.
Um outro profissional da luta livre foi mostrado de maneira impressionante, como um portentoso atleta afastado dos ringues, devido a uma grande desorganização pessoal e vícios. Vê-lo e ouvir seus depoimentos, transmitidos de forma intensa e dolorosa, aproxima e apaga as diferenças, nós somos um outro e qualquer outro faz parte de nós, a vida do outro, principalmente na tragicidade, toca.

Jake Roberts (Jake the Snake) é um homem com mais de 50 anos e declara ser o produto de um estupro. Diz que seu pai também fora um lutador, e manifesta uma desesperada necessidade de se sentir amado por esse pai que havia, certa vez, chamado-o de fracassado. O lutador diz, corroborado por um comentário de Blaustein, ter superado o pai como profissional, assumindo sua competência superior, por ser mais capaz e habilidoso. O agora ex-lutador evidencia seus tormentos, pois sente pesar sobre si mesmo uma sina maligna, ao concluir que todos, que dele se aproximam, morrem. Comenta, ainda, a catastrófica morte da própria mãe, assassinada pelo padrasto. Com amargura, declara não ter querido errar, como o próprio pai, com seus filhos. Durante as filmagens, é promovido um encontro com a filha que ele não via há alguns anos. Esta, visivelmente demonstra desconfiança diante do pai, e a conversa é marcada por mágoa e ressentimento. Depois desse encontro, Jake não volta ao hotel onde estava hospedado com a equipe da filmagem. Dois dias depois é encontrado sob efeito do crack, o que não o impede de conceder uma comovente entrevista, assumindo-se como fracassado.

Além do ringue traz seus personagens em algumas das tantas possibilidades de realidade, e fratura a compreensão média que se tem a respeito desses homens. Os lutadores ganham uma luz que os revela enquanto matéria plástica e frágil, ao mesmo tempo em que a violência ganha nuances e aspectos, resultantes das contingências passíveis de serem vividas por qualquer um de nós. O filme traz a ultrapassagem do preconceito que nos mantém afastados de pensar nas complexidades experimentadas na existência de cada lutador, e tira de cena a ferocidade da luta, ao trazer a vida enquanto acontecimento maior, no qual a ternura, a agressividade e a contingência digladiam-se. O documentário permite constatar as regências ordenadoras de qualquer ser vivo. O lutador pode ser um bom pai, um atormentado, um professor de Shakespeare, um homem que não sabe sair de cena, etc.

Outro lutador retratado, Terry Funk, com mais de 50 anos, declara de maneira solene que o documentário irá registrar a sua última luta. Sua mulher e filhos dizem-se aliviados com afirmação do patriarca, pois o atleta já apresentava vários problemas de saúde: um joelho que deveria ter sido operado, juntamente com inúmeras outras ocorrências, inclusive sérias dores nas costas. O corpo de Terry abandona o ringue sem o seu consentimento, e outro tipo de contenda manifesta-se nos depoimentos desse profissional: saber qual o instante de parar, de deixar hábitos, de deixar alguns amores. Após ter sido escolhida a data da luta final, o documentário mostra Terry incapaz de vencer a própria determinação. Afastar-se do ringue vem como um desafio além de suas forças, da sua condição física.

Um problema tão próximo a qualquer um que pense no futuro, a impossibilidade de demarcar o ponto de finalização, vem à tona fazendo a vez de um outro vício, que imanta aquele homem aos ringues e aos holofotes. Num ponto da entrevista, Terry diz que a luta fora seu veículo de vida, e que tudo que ele amava, a luta livre lhe trouxera. Terry demonstra, assim, a parte terrível do amor, do apego e do hábito. Independente da ocupação do expectador é inevitável não se condoer, não se solidarizar, e não se identificar com sua condição. Eis um filme que vale a pena ser visto.

           
           


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Ernesto Diniz é estudante de Letras na UFBA, webdesigner, diretor de arte, fotógrafo amador, escritor amador, humano amador e amante.




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