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Colunas: CINEMA RISCADO
Meninos
por Renato Cunha

 

Ultimamente, tenho escolhido filmes com algum critério. Já que não posso escolhê-los como escolho livros: folheando-os. Por isso, cada vez menos tenho ido ao cinema, mas cada vez mais me refestelado. São filmes que me têm dado um nó no peito. E um deles é o novo documentário de Vladimir Carvalho, O engenho de Zé Lins, ainda no circuito dos festivais.

Não é só um filme sobre a vida de um escritor nordestino, sobre a literatura brasileira. É, antes de tudo, um filme sobre as relações humanas. Daí o nó no peito. A sensibilidade poética do cineasta que relata a sensibilidade visceral do escritor emociona. Reconstituir no cinema o universo de um personagem sem a imagem dele em movimento é tarefa intrincada, que só mesmo a poesia pode desembaraçar. E lá está José Lins do Rego, sem estar. Talvez mais do que se realmente estivesse. Do começo ao fim, Vladimir se vale de recursos para suprir a falta do protagonista e tecer a narrativa.

À guisa de repórter, de microfone na mão, a pergunta do documentarista a alunos da Escola Municipal José Lins do Rego, na Paraíba, sobre quem teria sido o tal cabra. Desconhecimento geral. Um nome na fachada; no uniforme escolar. Há o jovem que aparece de bicicleta e diz ser primo do escritor, revelando um Lins no sobrenome. E, ao ser indagado sobre quais livros do parente já havia lido, diz, tímido, que apenas um; um que começara e não fora adiante. A bicicleta põe-se a caminho.

O avião que, durante a entrevista de Ariano Suassuna, passa, atrapalha e é mostrado. Da atrapalhação é que Ariano, contador de causos, emenda a história do cachorro que invade o palco da tragédia grega onde Creonte dialoga com Antígona. E, entre os dois, rouba a cena ao virar a cabeça ritmadamente, conforme o eco das falas. “Rapaz, que idéia genial essa sua de colocar o cachorro em cena”, disse alguém, ao final do espetáculo, a Ariano. Risos. Dele, de Vladimir, da platéia. Sófocles também riria. O cineasta transforma o que nada tem a ver com a história de Zé Lins na história de Zé Lins. Poesia.

O Flamengo, paixão avassaladora, incondicional. Até o mais fervoroso anti-rubro-negro não se importará com o hino do clube, que, por vezes, sonoriza o documentário. “Zé Lins era o Flamengo”, anunciaram. O Maracanã, beijos na bandeira, discursos de desabafo, choros incontidos humanizam o escritor, comprovando que, de fato, não há racionalidade naquilo que não é racional. Zé Lins era o Flamengo, sim. Era o povo. Era o homem em seu estado bruto. Vou além: era menino. Menino de pés no chão; menino de bodoque em punho; menino sem medo de ser menino; menino de histórias de menino; menino com mãos de cabaú; menino de engenho.

Vladimir Carvalho é menino.

Menino também é Thiago de Mello, poeta de depoimentos intensos, arrebatadores. Em fase terminal, o autor de Fogo morto ainda iria esboçar um sorriso. É que, ao decifrar trejeitos e balbucios do amigo, que sofria com o prurido provocado pelos medicamentos, De Mello — como Zé Lins o chamava — não titubeou, meteu-lhe a mão entre as pernas e coçou-lhe os bagos.

Um homem que faz isso a outro, por compaixão, só poderia mesmo vir a escrever “Os estatutos do homem”, poema-lei que, no parágrafo único do artigo IV, estabelece: “O homem confiará no homem como um menino confia em outro menino”.


 

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Georges-Pierre Seurat nasceu numa abastada família burguesa em Paris, e estudou na Escola de Belas Artes, para onde entrou em 1878. Contribuiu para a pintura francesa ao introduzir uma técnica mais sistemática e científica, chamada divisionismo ou pontilhismo a que ele chamou Pintura Óptica.

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