
Colunas: DAGUERREÓTIPOS
Corpo estranho
por Tom Correia
Evito andar pelas ruas oleosas da cidade movediça que me prende. Já não encontro meios de encontrar nela um lugar adequado. Fico quatro semanas sem sair de casa. Coloco a cabeça na rua. Acho uma carteira recheada de cédulas. A grana que há dentro dá para fazer uma grande farra de despedida. O dono devia estar louco refazendo seus roteiros. Guardo a carteira. Em meio a um alvoroço no centro comercial, vejo um homem dar uma bicuda numa enorme ratazana saída de um bueiro que não aparece na mídia. A bicuda é certeira, de trivela. O animal sai rodopiando pelo asfalto seco. Pára no meio da pista, sem se mover. Decúbito ventral. Logo a sinaleira daria passagem aos carros que o esmagariam. Já levei muita bicuda na vida. Já rodopiei por vários tipos de terreno. Mudo o meu trajeto. O sinal marca digitalmente: 22 segundos para abrir. Me aproximo da desfalecida. Um filete de sangue grosso escorre pelo seu ouvido; os olhos plácidos, a boca entreaberta, lhe conferem simpatia. Um carregador de papelão passa próximo. Puxo um pedaço melhor que escapa pela lateral. 13 segundos. O cachorro do badameiro rosna. Me abaixo e coloco com cuidado o corpo no papelão. Pesa bastante. Os outros param para me observar. Vejo do outro lado uma lixeira de decente aparência. 6 segundos. Alguns carros ameaçam avançar pela faixa. 3 segundos. Ao tentar carregar a vítima, ela escorrega. Percebo que talvez não dê tempo. 1 segundo. Arrebato a desanimada com a mão e corro para atravessar a larga pista. Chego a tempo de sepultá-la na linda lixeira. Limpo minha mão na calça.
É madrugada quando chego ao aeroporto. Penso nas remotas: as pistas e as probabilidades. A decoração de uma das lojas de óculos caros é um fundo de mar de azul mortiço, cheio de golfinhos paralisados. Uma pintura monótona que dá ao lugar um aspecto de atraso. Lembro do Ministro italiano e da sua jovem assistente/amante/babá/secretária. Um kit completo numa só mulher. Nunca quis uma assim, mas isso é prático, muito prático. Tropas inteiras de comissárias de bordo passam por mim com suas bundas retas como tábuas de madeirit. Vejo sem interesse as lojas: futilidades; ostentações. Olho os visores dos terminais informando sobre partidas e chegadas dos vôos. Meu passaporte está vencendo. Ando com ele aonde quer que eu vá. Vou fazer o check-in. Os guichês estão vazios, fechados. Lembro do sujeito que passou trinta e dois dias dentro de um poço, esquecido no meio de um matagal. Muita sorte a dele. Estou num buraco desde que nasci. Recordo ainda do dia distante em que meu padrinho nos levava à Estação Rodoviária dirigindo pessimamente um fusca bordô. Quase bateu duas vezes. Era esquálido. Bebia muito. Consertava sapatos ordinários que como ele já não tinham mais como consertar. Soube que morreu atropelado. Isso não importa mais. Vou tomar um milk-shake. Aproveito e releio, num pedaço de papel reciclado, um trecho do meu para sempre inacabado "Tragédia à Lautrec". Penso em Alessandra, Nadilma, Manuela. Em Dulce, Jacqueline e Flávia. E ainda em Noêmia, Aline e Mirthes. Estou destroçado, guernicamente falando. Entro numa loja de cds. Escuto um pouco de música angolana. Quintal do Semba. Confiro no passaporte a validade: até aquele dia. Meu vôo sai às três: Alemanha é melhor do que nada. Um jovem médico tromba comigo. Me olha atento, mas é incapaz de me pedir desculpas. A arrogância hipocrática. O check-in abre. A funcionária usa uma maquiagem sonolenta. Apenas eu estou no balcão. Muito animado, pergunto a ela, ao estender meu RG, "minha senhora, supunhetamos que derrepentelhos o mundo inteiro se descabaçasse. Me diga, o que siririca de todos nós?". Decepção. Ao invés do risonho "nádegas, nádegas" ouço um fechado "o senhor me respeite, sou uma mulher casada". Logo vi. Não tinha mesmo a cara de quem teve infância. Peço desculpas. Sem que ela saiba, desisto da viagem. Lembro de repente da carteira de cédulas. No banheiro hi-tech, procuro a identificação do azarado. Descubro o número do telefone. Ligo a cobrar. Uma, duas, várias vezes. Não querem atender.
É de manhã quando saio andando do aeroporto. Jogo o passaporte na lixeira. Outra. Arranco a foto antes. Já de volta ao centro da cidade, insisto. Enfim atendem. O homem soa gélido e nervoso. Marcamos em frente a um cinema. Chego bem antes. Abro a carteira e reconto o dinheiro. Fico em dúvida. Penso em me recompensar pela boa ação. Ele chega atrasado, esbaforido. Se identifica. Mais três homens o acompanham: ele é o único covarde do grupo. Sentamos numa lanchonete, negociamos. Digo que mereço mais. Há recusa. Os homens são silenciosos e vis. Um deles, o mais casca-grossa, pergunta pela carteira. Finjo que não escuto. Digo que preciso de mais. Pelo olhar do covarde, ele quase concorda. Eles cochicham entre si, estão divididos. Arrisco, mantenho posição. Digo que quero mais. Perguntam outra vez pela carteira. Dois estão de pé, estão armados. Preciso sair logo e chamo o medroso, de lado, para um acordo. Conversamos pouco. Tento correr. Um deles, o mais franzino, me alcança com um chute. Não é de trivela mas saio rodopiando. Me revistam em busca do dinheiro. Quase me deixam nu. Outros mais param para me observar. Uma viatura aparece. Me acusam de roubo. Os policiais me revistam. Não encontram nada. Os homens são dispersos. Peço caronas, dou voltas pela cidade. Espero anoitecer. Recupero a carteira escondida num bueiro. Outro. Penso no corpo arrepiado da ratazana. Também estou com frio.
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| Georges-Pierre Seurat nasceu numa abastada família burguesa em Paris, e estudou na Escola de Belas Artes, para onde entrou em 1878. Contribuiu para a pintura francesa ao introduzir uma técnica mais sistemática e científica, chamada divisionismo ou pontilhismo a que ele chamou Pintura Óptica. |
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