
Ensaio
O bibliófilo aprendiz
Por Alex Cojorian
Prosa de um velho colecionador para ser lida por quem gosta de livros, mas pode também servir de pequeno guia aos que desejam formar uma coleção de obras raras, antigas ou modernas. Rubens Borba de Moraes. 4ª ed. 2007. Brasília: Briquet de Lemos / RJ: Casa da Palavra. A 1ª edição é de 1965.
Ocioso é falar de livros. Quanto mais colecioná-los. Até porque, passado a sete palmos o fetichista, todo o esforço se desmancha, e a coleção, raríssima, incrível, maviosa, torna a espalhar-se, vê-se desmantelar, aos poucos ou brutalmente, os volumes desgarrando-se, vendendo-se a preço de banana, solapando-se, roubando-se, extraviando-se. Por fim sobrevem o mais temido de todos os males: é roído pela bicharia, com costura, cola, capa dura e o que mais o componha.
Ainda assim, coleciona-se. Tempo houve em que falar de livros no Brasil não era falar em J. Mindlin, mas sim em Rubens Borba de Moraes. Reeditado na última década por outro aficionado, Briquet de Lemos, O bibliófilo aprendiz ensina ao incauto grande parte do percurso do impresso.
Casos interessantes e curiosos avultam no bibliófilo. Borba de Moraes, amigo e coetâneo de Mário de Andrade, e igualmente partícipe da Semana de 22, comprava os folhetos da Imprensa Nacional, e comprava Brasiliana, num tempo em que esses impressos não pareciam assim tão interessantes. E o que é Brasiliana?
“Muita gente, cada vez mais gente, coleciona livros sobre o Brasil. É por isso que poucos assuntos têm subido tanto de preço nestes últimos trinta anos. Muito entendido acha, e com razão, que essa alta não tem fim.”
E “[...] proponho que se classifiquem como Brasiliana todos os livros sobre o Brasil, impressos desde o séc. XVI até fins do séc. XIX, e os livros de autores brasileiros, impressos no estrangeiro até 1808”.
Já “os livros impressos no Brasil no Brasil e procurados pelos bibliófilos não pertencem à Brasiliana propriamente dita: formam uma categoria à parte”. São a Brasiliense.
Pois “é incontestável que a primeira edição das Singularitéz de la France Antartique, de Thevet, é um livro procurado no mundo todo, enquanto que a primeira edição de A moreninha, de Macedo, é um livro ambicionado quase somente pelos bibliófilos brasileiros”.
Passemos a coisas mais recentes, e logo vamos perceber que não é nem fácil sem simples de se obter uma primeira edição de Mário de Andrade, saído em 1928...
Quanto à “famosa arte de imprimissão”, sempre houves livros mal ajambrados e livros bem compostos, seja qual seja a época de que provenha. Basta um passeio pela livraria, e se pode bem ver a experiência estética, de materiais e processos industriais, em ebulição. Um pouco da história do prelo no Brasil vai também recompilada nas páginas saborosas do volumezinho.
Histórias de livreiros e de caçadores de volumes raros, de achados mais raros ainda, de enganos e de... livros! É o que apresenta Borba de Moraes na sua prosa com o leitor: “nunca me arrependi de ter comprado um livro por um preço alto. Só me arrependo das obras que não comprei”.
Em tempo: depois de seu desaparecimento, a coleção de Borba foi absorvida pela biblioteca de José Mindlin.
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