
Ensaio
VIRGILIO PIÑERA – O escritor enquanto bicha louca
Por João Carlos Rodrigues
Não vou apresentar nenhum ensaio sobre a obra desse escritor cubano. Isso já foi muito melhor realizado por Cabrera Infante em Tema do herói e da heroína (abril de 1980) e por Héctor Santiago em Virgilio Piñera: um personagem de si mesmo (agosto de 2002). Esses textos me parecem definitivos sobre o assunto. Com alguma paciência podem ser encontrados na Internet e baixados gratuitamente. Também Reinaldo Arenas, no célebre Antes que anoiteça, faz muitas referências a ele.
O que pretendo aqui é simplesmente apresentar dois microtextos que traduzi. Mas creio ser imprescindível para o leitor uma pequena introdução a uma biografia tão movimentada, e, ao mesmo tempo exemplar no relacionamento entre a liberdade artística individual e os poderes e interesses do estado totalitário.
Virgílio Piñera nasceu em 1912 numa família pobre e numerosa na província de Matanzas. Posteriormente, mudou-se para Havana. Destacou-se primeiro como poeta, e tanto Las furias (1941) como La isla en peso (1943) são consideradas obras de fôlego. É também considerado o fundador do moderno teatro cubano, com peças que anteciparam a escola do absurdo. Foi colaborador da famosa revista Orígenes, organizada por Lezama Lima. O relacionamento entre esses dois grandes foi sempre problemático, por motivos estéticos e pessoais. O artigo de Cabrera Infante citado acima é exatamente sobre suas semelhanças e diferenças. Lezama escrevia em estilo barroco e culto; Virgilio preferia o tom coloquial e a ironia. Lezama era um homossexual discreto; Virgilio uma bicha louca. Uma vez, na ante sala de um teatro, o gordo e pesadão Lezama teria segurado o magricelo Virgilio pelo colarinho, ofendido com suas piadinhas malévolas. Embora tenham mantido certa distância desde essa data (1943), no final da vida os dois tiveram uma reaproximação, provocada, sem dúvida, pelas perseguições que sofreram.
Em 1946 Virgilio, personagem escandaloso, cada vez mais mal visto em Cuba, se muda para Buenos Aires, onde exerceu várias atividades, entre elas a de tradutor na embaixada cubana. Lá escreveu as peças Jesus (1948) e La falsa alarma (1949), o romance La carne de René (1952) e Cuentos frios (1956). Nesse intervalo, sua peça Electra Garrigó estreou em Havana, e, com José Rodriguez Féo, organizou da Argentina a revista literária Ciclón. Crendo estar reabilitado em sua terra natal, e entusiasmado com a evidente deterioração da ditadura Batista, retorna a Cuba 12 anos depois, nas vésperas da revolução.
No início do novo regime, tudo para ele ia às mil maravilhas. Sua peça El flaco y el gordo, paródia de sua rivalidade com Lezama, foi encenada em 1959, e El filantropo escolhida para inaugurar o Teatro Nacional um ano depois. Virgílio foi, ao lado de Cabrera Infante, uma das grandes forças no suplemento Lunes de revólucion, que publicava o que melhor havia na literatura cubana e internacional. Uma grande efervescência cultural sacudia o país, que, infelizmente entrava gradativamente na órbita de influência da União Soviética e seu regime obsoleto e opressivo. Em junho de 1961 foi realizada a tristemente célebre reunião da Biblioteca Nacional, quando o Partido Comunista decidiu enquadrar os produtores culturais. Em seu discurso, Fidel pediu que os intelectuais expusessem seus temores, e o que temesse mais, fosse o primeiro. Para surpresa de todos, levantou-se Virgilio Piñera, a louca.
- “Parece que aqui quem mais tem medo sou eu. O senhor perguntou por que um escritor deve ter medo da revolução. E, tendo tanto medo, permita que eu pergunte por que a revolução deve ter medo dos escritores?”
A resposta de Fidel pode ser resumida na frase: “Com a revolução, tudo. Sem a revolução, nada”. Naquela tarde foi traçado o destino da liberdade de expressão em Cuba.
Em outubro desse mesmo ano foi desencadeada a primeira Operação P, destinada a extirpar do país as prostitutas, proxenetas e os pederastas (mais tarde isso se tornaria uma prática, e até campos de concentração foram construídos para os acusados de “conduta imprópria”). Centenas de pessoas foram presas, entre elas, Virgilio Piñera. Solto por interferência de Haydée Santamaría (revolucionária de primeira hora, diretora da Casa de las Américas e que anos depois se suicidou por razões não esclarecidas), teve a casa lacrada e confiscada pelo governo. Nada seria mais como antes. Lunes de révolucion foi fechada por divulgar “literatura contra-revolucionária” como Faulkner, Hemingway, Camus e outros. Foi nessa época que Che Guevara, ao perceber na estante da embaixada cubana em Argel um livro de Virgilio, o rasgou e pisoteou homofobicamente, gritando: “O que faz aqui um livro dessa bicha louca?”
Mesmo assim ele não quis se exilar. “Em Cuba de hoje já estou no exílio” afirmou, dizendo que não poderia jamais viver sem os negros de Havana, que fazia questão de pagar pelos favores do sexo. Em 1966 seu “Pressiones y diamantes” teve problemas com a censura, e suas peças La caja de sapatos e Dos viejos pânicos (1969) tiveram a encenação proibida, ainda que essa última tivesse sido premiada pela oficialíssima Casa de las Américas. Nessa mesma época uma jornalista francesa foi detida no aeroporto de Havana levando clandestinamente originais de sua autoria. Em 71 houve o escândalo Heberto Padilla, poeta que foi obrigado a denunciar companheiros (inclusive a própria esposa) debaixo de torturas e condenado à prisão. Isso provocou o primeiro rompimento importante de intelectuais de esquerda (Sartre, Simone de Beauvoir, Vargas Llosa, Carlos Fuentes, Octavio Paz, Susan Sontag) com o governo castrista. Agora, mesmo que quisesse, Virgilio Piñera não poderia mais viajar ao exterior.
Seus últimos foram melancólicos. Impedido de trabalhar, vivia de caridade de amigos e familiares. Um não-cidadão. O estado o ignorava, e mesmo antigos companheiros (Rodriguez Féo, por exemplo, também homossexual) para defender-se, passaram a atacar seu modo de vida. Sua morte (1979) não foi divulgada pela imprensa, seu velório vigiado pela polícia secreta, o caixão retirado antes da meia noite e enterrado em local secreto. Está tudo lá, no livro do Arenas. No entanto, sua literatura é de tal qualidade que hoje foi reabilitado (com reservas) pelo governo que o perseguiu e alguns de seus livros têm merecido reedição, expurgados do que é mais ambíguo. Resta saber se o manuscrito La vida tal qual, as memórias que escrevia quando veio a falecer ao 67 anos e, dizem, confiscado pela polícia, está intacto em alguma gaveta empoeirada, esperando dias melhores, ou se foi destruído pelos burocratas da cultura, ou pelas traças. Parece que, tanto ou mais que a obra, incomodava ao regime comunista a bicha louca. Como se uma coisa tivesse existido sem a outra.
VIRGILIO PIÑERA
O INFERNO
Quando somos crianças, o inferno nada mais é do que o nome do diabo na boca de nossos pais. Depois, essa noção se complica, e então nos revolvemos na cama, nas noites intermináveis da adolescência, cuidando de apagar as chamas que nos queimam – as chamas da imaginação! Mais tarde, quando já nos olhamos nos espelhos porque nossas caras começam a se parecer com a do diabo, a noção do inferno se resume num temor intelectual, de modo que para escapar de tanta angústia nos pomos a descrevê-lo. Já na velhice o inferno se acha tão próximo que o aceitamos como um mal necessário e até deixamos de notar nossa ansiedade em sofrê-lo. Ainda mais tarde (e agora já estamos nas suas chamas), enquanto nos queimamos, começamos a perceber que talvez possamos acostumar-nos. Passados mil anos, um diabo nos pergunta com cara de sonso se ainda sofremos. Respondemos que a parte de rotina é muito maior do que a parte de sofrimento. Afinal chega o dia em que podemos abandonar o inferno, mas recusamos energicamente tal possibilidade, pois quem renuncia a um velho costume?
(in “Revolucion” janeiro 1965)
NATAÇÃO
Aprendi a nadar no seco. É mais vantajoso do que fazê-lo n’água. Não existe o medo de afundar, pois já se está no fundo, e pelo mesmo motivo, afogado de antemão. Também se evita que tenham de nos pescar à luz de uma lanterna ou na claridade deslumbrante de um belo dia. Por último, a ausência d’água evitará que inchemos.
Não vou negar que nadar no seco tem algo de agônico. À primeira vista pensaríamos nos estertores da morte. Entretanto, tem essa diferença: enquanto se agoniza se está bem vivo, bem alerta, escutando a música que entra pela janela e olhando o verme que se arrasta pelo chão.
No início meus amigos censuraram essa decisão. Fugiam de meus olhares e soluçavam pelos cantos. Felizmente, a crise já passou. Agora sabem que me sinto bem nadando no seco. De vez em quando afundo minhas mãos no piso de mármore e lhes entrego um peixinho que pego nas profundezas submarinas.
(in “Ciclón” janeiro 1957)
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| Georges-Pierre Seurat nasceu numa abastada família burguesa em Paris, e estudou na Escola de Belas Artes, para onde entrou em 1878. Contribuiu para a pintura francesa ao introduzir uma técnica mais sistemática e científica, chamada divisionismo ou pontilhismo a que ele chamou Pintura Óptica. |
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