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Ensaio
JEAN BAUDRILLARD, a simulação desencantada – Parte III
Por José Aloise Bahia

                                                                                                      

Implosão do Sentido nos Media

É de conhecimento de todos a importância da comunicação como um elemento imprescindível na realização e força fundamental na constituição e coalizão da sociedade, onde homem, sociedade e a própria comunicação estão indissociavelmente ligados enquanto partes ativas do conjunto de acontecimentos, conhecimentos e relações de um processo maior o qual chamamos de História.

O legado do homem das cavernas, a comunicação, possibilita todo um processo de conhecimento grupal e coletivo: uma comunhão e compartilhamento. Todavia, fica a pergunta: o que o homem sempre comunicou? Informação. Nesse panorama, pela etimologia define-se o termo ”informação”, o qual origina-se do latim “formatio”, como os elementos que dão forma, informam e organizam as coisas no mundo. Também neste panorama, a comunicação caminha junto com a informação. Estabelece-se uma sintonia de igualdades, de tornar comum e compartilhar algo organizado. A partir da transmissão deste algo organizado e apreendido pelas civilizações primitivas institui aquilo que os sociólogos chamam de ”cultura humana”.

Esta emancipação cultural do homem, num primeiro momento, é a apropriação do aprendizado e, em seguida, a legitimação que serve para integrar os significados e entendimentos já interligados ao processo. Torna-se algo objetivo a partir da comunicação, pois informa a outrem os conhecimentos adquiridos. A cultura humana torna-se um processo cheio de sentidos. Um processo de comunicação.

Este deveria ser o objetivo da comunicação: a partir do conhecimento da realidade e da idéia de processo, comunicar, informar, ser transmitida e acionada para logo em seguida ser recuperada, entendida. A comunicação como um processo indistinto, onde emissor e receptor, faces da mesma moeda, plenos em capacidade, intervenção e interação, respondendo um ao outro, num contínuo feed-back, realizando os caminhos que a mensagem deve seguir para alcançar a sua meta: a própria comunicação.

Infelizmente, no mundo atual acontece o contrário. Nos dizeres de Baudrillard: “Sejamos claros quanto a isso: se o Real está desaparecendo, não é por causa de sua ausência – ao contrário, é porque existe realidade demais. Este excesso de realidade provoca o fim da realidade, da mesma forma que o excesso de informação põe um fim na comunicação”. 

Três Hipóteses - O desdobramento é que vivemos num cativeiro em que existe cada vez mais informação e cada vez menos sentido, o qual acarreta uma deflação do sentido, uma implosão de conteúdo. Baudrillard apresenta três hipóteses:

  1. Ou a informação produz sentido, mas não tem a potência para compensar a perda brutal de significado em todos os domínios. Mesmo que se injete mais mensagens e conteúdos, a dissipação acontece numa velocidade bem maior. Aqui o problema está nos meios. Deve-se adequar os meios para alcançar os sentidos do entendimento e reflexão;

 

  1. Ou a informação não tem nada a ver com o significado. Ela é operada por um modelo operacional, instrumental, onde uma espécie de código prevaleceria, deixando de lado qualquer traço de relação significativa entre a inflação de informação e a deflação do sentido. 
  1. Ou, pelo contrário, a correlação é tão grande e necessária que o sentido e conteúdo são anulados pela própria informação. Aqui a perda de sentido é a própria dissolvência da informação e da mídia em geral. Em outras palavras: a informação e a mídia destroem os sentidos.

 

Baudrillard escolhe esta terceira hipótese, e observa,

“Esta é a hipótese mais interessante, mas vai contra as acepções recebidas. Em toda a parte a socialização mede-se pela exposição às mensagens mediáticas. Está dessocializado, ou é virtualmente associal, aquele que está subexposto aos media. Em toda a parte é suposto que a informação produz uma circulação acelerada do sentido, uma mais-valia de sentido homólogo à mais-valia econômica que provém da rotação acelerada do capital. A informação é dada como criadora de comunicação, e apesar do desperdício ser enorme, um consenso geral pretende que existe, contudo, no total, um excesso de sentido, que se redistribui em todos os interstícios do social – assim como um consenso pretende que a produção material, apesar dos seus disfuncionamentos e das suas irracionalidades, resulta ainda assim num aumento de riqueza e de finalidade social. Somos todos cúmplices deste mito. É o alfa e o ómega da nossa modernidade, sem o qual a credibilidade da nossa organização social se afundaria. Ora o facto é que ela se afunda, e por este mesmo motivo. Pois onde pensamos que a informação produz sentido, é o oposto que se verifica”. 

A explicação, de acordo com as idéias de Baudrillard do porquê a informação engole avidamente a comunicação, o social e os próprios sentidos, são de duas ordens:

  1. A comunicação, atualmente, ao invés de se fazer comunicar, pelo contrário, enfraquece-se na sua própria encenação da comunicação. Neste sentido a comunicação é como um sonho em vigília, é a própria simulação. Tudo é reciclado e chantageado pela palavra, a qual é encenada por um tipo de energia que tem no princípio o modelo, o qual põe fim ao real. Sendo inútil, portanto, saber quem vem em primeiro lugar, a comunicação ou o simulacro, pois aqui o processo é circular, a simulação, o hiper-real, mais real que o próprio real, portanto anulando o próprio real.
  2. O pano de fundo desta encenação dita anteriormente é a implosão e a própria desestruturação do real. Aqui Baudrillard, observa que a questão central não é mais a extensão macro da implosão do sentido ao nível micro do signo. E esta análise deve ser feita utilizando uma perspectiva culturológica, onde as transformações acontecidas ligam-se cada vez mais as inovações comunicativas, as quais produzem novas modalidades de percepções interligadas à tecnologia de mídia. Traduzindo, este é o postulado máximo do teórico das comunicações de massa Herbert Marshall MacLuhan: o meio é a mensagem (para MacLuhan, em qualquer tipo de comunicação a mensagem transmitida sempre é influenciada pelos meios empregados para transmiti-lo). Operando desta maneira a neutralização dos conteúdos pela forma e pelo meio.

 

Como destaca Baudrillard:

 “O acto de pôr em causa o estatuto tradicional não se fica pelos próprios media, característica da modernidade. A fórmula de MacLuhan Médium is message, que é a fórmula-chave da era da simulação (o médium é a mensagem – o emissor é o receptor – circularidade de todos os pólos – fim do espaço panóptico e perspectivo – esse é o alfa e o ómega da nossa modernidade) esta mesma fórmula deve ser considerada no limite em que, depois de todos os conteúdos e as mensagens se terem volatilizados no médium, ser o próprio médium que se volatiliza enquanto tal. No fundo é ainda a mensagem que dá ao médium as suas cartas de apresentação, é ela que dá ao médium o seu estatuto diferente, determinado, de intermediário da comunicação. Sem comunicação, também o médium cai na indiferença característica de todos os nossos grandes sistemas de juízo e de valor. Um único modelo, cuja eficácia é imediata, gera, simultaneamente a mensagem, o médium e o ‘real’. Numa palavra, Médium is message não significa apenas o fim da mensagem mas também o fim do médium. Já não há media no sentido literal do termo (refiro-me sobretudo aos media electrônicos de massas) – isto é, instância mediadora de uma realidade para uma outra, de um estado do real para outro. Nem nos conteúdos nem na forma. É esse o significado rigoroso da implosão. Absorção dos pólos um no outro, curto-circuito entre os pólos de todo o sistema diferencial de sentido, esmagamento dos termos e das oposições distintas, entre as quais a do médium e do real – impossibilidade, portanto, de toda a mediação, de toda a intervenção dialéctica entre os dois ou de um para o outro. (.). É inútil sonhar com uma revolução pela forma, já que médium e real são a partir de agora uma única nebulosa indecifrável na sua verdade”.

Vale destacar uma observação importante e que gera muita confusão. Prefiro essa forma e interpretação, de acordo com o Manual da Redação: Folha de S. Paulo – Media/Mídia. “Media” é plural de “médium” e significa meios. Deu origem ao jargão mídia, para designar os meios de comunicação. “Media” não tem o plural formado pelo acréscimo de “s” e não leva acento. Os “Media” no Brasil são. Como a forma original foi suplantada pelo jargão, admite-se o uso das formas singular (mídia) e plural (mídias). Mídia eletrônica designa os meios de comunicação eletrônicos, como a TV e internet. Mídia impressa indica os meios de comunicação impressos, como jornais e revistas. O termo também designa o profissional da área de publicidade que escolhe os veículos em que um anúncio será divulgado.
  
Implosão de Falta de Sentido - O fascínio da mídia, o seu espetáculo, é o resultado desta implosão de falta de sentido. Nesta linha de raciocínio, Baudrillard questiona se a mídia está ao lado do poder na manipulação das massas ou estão ao lado das massas na liquidação do sentido, na violência exercida contra o sentido e o fascínio?  São os media que induzem as massas ao fascínio, ou são as massas que desviam os media para o espetacular? Baudrillard traça uma estratégia de resistência:

“Mogadiscio-Stammhein: os media assumem-se como veículos da condenação moral do terrorismo e da exploração do medo com fins políticos, mas simultaneamente, na mais completa ambigüidade, difundem o fascínio bruto do acto terrorista, são eles próprios terroristas, na medida em que caminham para o fascínio (eterno dilema moral, ver Umberto Eco: como não falar do terrorismo, como encontrar um bom uso dos media – ele não existe). Os media carregam consigo o sentido e o contra-sentido, manipulam em todos os sentidos ao mesmo tempo, nada pode controlar este processo, veiculam a simulação interna ao sistema e a simulação destruidora do sistema, segundo uma lógica absolutamente moebiana e circular – e está bem assim. Não há alternativas, não há resolução lógica. Apenas uma exacerbação lógica e uma resolução catastrófica. (...). A resistência estratégica, pois, é de recusa de sentido e de recusa da palavra – ou de simulação hiper-conformista aos próprios mecanismos do sistema, que é uma forma de recusa e de não aceitação. É o que fazem as massas; remetem para o sistema a sua própria lógica reduplicando-a, devolvem, como um espelho, o sentido sem o absorver. Esta estratégia (se é que ainda se pode falar em estratégia) leva a melhor hoje em dia, por que é essa fase do sistema que levou a melhor”.

Não podemos negar que o mundo contemporâneo vive uma ordem diferente das demais. Antigamente, a experiência do real vivido e aprendido, como afirma Benjamim, era comunicada pelos velhos aos jovens de maneira simples e oral, através de provérbios, de forma prolixa e em histórias. Na contemporaneidade, a nova ordem é caracterizada pela invasão da técnica, a revolução da comunicação e a informática que sobrepõe a tudo e a todos, fazendo com que, e cada vez mais, o patrimônio da informação e objetos estejam desvinculada da experiência direta do homem. A transmissão agora é de outra ordem. É da ordem da técnica e mediação dos suportes da comunicação. Esta nova ordem é a negação, em última instância, do real. Conseqüentemente é a ordem do simulacro. Muniz Sodré no livro “A Máquina de Narciso: televisão, indivíduo e poder no Brasil” deixa isso claro em sua análise sobre o destino do simulacro:

“Como a imagem de Narciso no espelho, o simulacro é inicialmente um duplo ou uma duplicação do real. A imagem no espelho pode ser o reflexo de um certo grau de identidade do real, pode encobrir ou deformar essa realidade, mas também pode abolir qualquer idéia de identidade, na medida em que não se refira mais a nenhuma realidade externa, mas a si mesmo, a seu próprio jogo simulador. Neste caso, o espelho deixa de ser algo que transcendentemente reflita, duplicando, o real, para tornar-se espaço/tempo operacional, com uma lógica própria, imanente. Sem a necessidade de uma realidade externa para validar a si mesmo enquanto imagem, o simulacro é ao mesmo tempo imaginário e real, ou melhor, é o apagamento da diferença entre real e imaginário (entre o ‘verdadeiro’ e o ‘falso’). De fato, um certo imaginário, tecnologicamente produzido, impõe o seu próprio real (o da sociedade industrial), que implica um projeto de escamoteação de outras formas de experiência do real”.

Perplexidade Contemporânea - Como podemos observar, os trabalhos de Baudrillard nos apontam que deixamos para trás a era da duplicação representativa (do real) pela imagem, e entramos num novo tempo: o da duplicação e reprodução simuladora, local onde a imagem assume o papel de validade das coisas, relegando e abolindo o aval da verdade “verdadeira” referenciada no real. “O real não desaparece em proveito do imaginário, ele desaparece em proveito do mais real que o real: o hiper-real. Mais verdadeiro que o verdadeiro: assim é a simulação”. 

Baudrillard também argumenta que:

“A simulação é o êxtase do real: basta assistir à televisão: todos os fatos reais se sucedem numa relação perfeitamente extática, isto é, em atrações vertiginosas e estereotipadas, irreais e repetidas, que permitem sua sucessão absurda e ininterrupta. Extasiado: assim é o objeto na publicidade, e o consumidor na contemplação publicitária – reviravolta do valor de uso e do valor de troca, até a anulação na forma pura e vazia da marca”. 

Em síntese, o hiper-real é muito mais que um método usado para exagerar as conseqüências do real. No entender de Jacque Aumont no livro “A Imagem”: “O simulacro não provoca, em princípio, a ilusão total, mas a ilusão parcial forte o suficiente para ser funcional; o simulacro é um objeto artificial que visa ser tomado por outro objeto para determinado uso – sem que, por isso, lhe seja semelhante”. É um fórum criador e destruidor de signos, fazendo crer que o real focalizado e mostrado como se fosse a única expressão de verdade do real. Na nova ordem do mundo, o real é algo bruto e difícil de ser domado. Já o simulacro é de uma ordem mais calma, organizada, transitória e maleável, permitindo, portanto, a criação de uma hiper-realidade, uma realidade mais real que ela mesma. Um real intensificado, criado e desejável como aparência.

O hiper-real é manso, não reflexivo, um grande fórum conciliador. Ao mesmo tempo apresenta o mal, e serve-se do bem regiamente escolhido e apresentado. Opera, portanto, de maneira plural, integradora e sem qualquer força de exclusão (apesar de que ele por si só é o próprio valor de exclusão) a política, religião, esportes, arte, jornalismo e a ficção. O hiper-real quer é impressionar, seduzir, não para informar ou relatar como bem observa Baudrillard, mas para influenciar e conduzir o público às convicções e conjunto de idéias (ideologia) desejadas pelo emissor, a partir dos anseios e pedidos de segurança social e exigências de felicidade e alegria por parte dos espectadores. Vivemos num mundo de signos, onde se prefere a imagem ao objeto, o simulacro ao real; o hiper-real, que expressa a perplexidade contemporânea.

 

Principais livros de Jean Baudrillard publicados no Brasil e Portugal:

Simulacros e Simulações (Relógio D´Água, Portugal)
O Sistema dos Objetos (Perspectiva, Brasil)
Para Uma Crítica da Economia Política do Signo (Martins Fontes, Brasil)
Esquecer Foucault (Rocco, Brasil)
A Troca Simbólica e a Morte (Loyola, Brasil)
À Sombra das Maiorias Silenciosas: o fim do social e o
surgimento das massas (Brasiliense, Brasil)
América (Rocco, Brasil)
Tela Total: mito e ironias da era do virtual e das imagens (Sulina, Brasil)
A Ilusão Vital (Civilização Brasileira, Brasil)
O Anjo do Estuque (Sulina, Brasil)
Da Sedução (Papirus, Brasil)
Telemorfose (Mauad, Brasil)
As Estratégias Fatais (Rocco, Brasil)
A Arte da Desaparição (UFRJ)
Senhas (Difel, Brasil)
Power Inferno (Sulina, Brasil)
Partidos Comunistas (Rocco, Brasil)
A Transparência do Mal: ensaio sobre os fenômenos extremos (Papirus, Brasil)
A Troca Impossível (Nova Fronteira, Brasil)
De um Fragmento ao Outro (Zouk, Brasil)
Cool Memories 1 – 1980-1985 (Espaço e Tempo, Brasil)
Cool Memories 2 – Crônicas, 1987-1990 (Estação Liberdade, Brasil)
Cool Memories 3 – Fragmentos, 1991-1995 (Estação Liberdade, Brasil)
Cool Memories 4 – Crônicas, 1996-2000 (Estação Liberdade, Brasil)

 

* José Aloise Bahia (Belo Horizonte/MG). Jornalista, pesquisador e escritor. Autor de Pavios Curtos (anomelivros, 2004). Participa da antologia O Achamento de Portugal (anomelivros, 2005). Tem dois livros no prelo. josealoise@terra.com.br

 

 

 

 

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Georges-Pierre Seurat nasceu numa abastada família burguesa em Paris, e estudou na Escola de Belas Artes, para onde entrou em 1878. Contribuiu para a pintura francesa ao introduzir uma técnica mais sistemática e científica, chamada divisionismo ou pontilhismo a que ele chamou Pintura Óptica.

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