
Ensaio
O SER E O NÃO-SER BRASILEIRO
Por Siomara Santos Dias Coelho
O ser e o não-ser brasileiro: O que define a identidade cultural e a nacionalidade desse povo? Como o imaginário nacional se expressa e quais são suas conseqüências? Como o estrangeiro vê o brasileiro e vice-versa? E como o próprio brasileiro se conceitua? Nesse ensaio, tentarei fazer uma análise dos lugares-comuns utilizados por André Sant´Anna, no romance “O paraíso é bem bacana” e como eles configuram o cenário da identidade cultural e da nacionalidade do Brasil.
Você concebe a imagem de um brasileiro no papel de homem-bomba? Ou melhor, você consegue imaginar um brasileiro que, negro, aos dezessete anos de idade, jogador de futebol pelo Hertha da Alemanha, virgem, recém-convertido ao Islamismo, se explodiu no meio de uma partida no Olympiastadion?
Não. Brasileiros não fariam isso. Brasileiros são pacíficos, alegres, cordiais, hospitaleiros, sensuais, eles só querem beber, dançar, rir e trepar. É o que supostamente seria sua resposta. Mas não. Manoel dos Anjos, agora denominado Muhammad Mané, não bebe, não dança, não ri e não trepa. Ele até gostaria de fazer tudo isso, entretanto, tem medo, e vive se recalcando devido aos traumas da infância vivida na periferia de Ubatuba, no interior de São Paulo. Contudo, ele é brasileiro.
Agora, internado em estado grave em um centro de tratamento intensivo da Alemanha, delirando com um paraíso islâmico híbrido bastante peculiar – onde 72 modelos de revistas masculinas são esposas virgens, cheirando a “eucalips”, ora vestidas como mulheres de Marrocos, ora usando biquínis com pompom cor-de-rosa, servindo-lhe guaraná, americano no prato, vinho e uvas - Mané não é reconhecido como brasileiro. Além de ter perdido sua fisionomia, ele foi “destituído” da sua identidade nacional. Nos fragmentos que seguem abaixo, têm-se nítidos os pontos de vista dos estrangeiros e dos próprios brasileiros acerca do “ser e não-ser brasileiro”.
“Aquele todo arrebentado, o que faz cocô toda hora, é brasileiro também. Eu não sabia que no Brasil também havia muçulmanos. O pessoal de lá é tão sensual, com aquelas lindas mulheres de Copacabana, todo mundo bebendo caipirrrrrinha. Os muçulmanos não são proibidos de beber?” [Enfermeira, feminista, alemã]
“Não é brasileiro, não. Eu sei que no Brasil há muitos negros, mas existem turcos negros também, esses que vêm da África, da Argélia, do Egito... O nome dele não é Muhammad? Nome de turco.” [Enfermeiro, alemão]
“Eu ouvi dizer que ele é de um grupo de palestinos. Mas jogava futebol, nos juniores do Hertha. Nunca vi palestino jogando futebol. É muçulmano brasileiro.” [Enfermeira, feminista, alemã]
“Se ele ainda tivesse rosto, dava até para descobrir. Se fosse bonito, seria brasileiro. Se fosse feio, seria turco. Não, no Brasil não tem turco, não. Tem índio, mas turco, não.” [Enfermeiro, alemão]
[...]
“Herr Enfermeiro, o cara aí é brasileiro. Ele disse ‘buceta’, que é vagina em português.” [músico, ex-drogado, brasileiro]
[...]
“Ô colega... você é preto? É brasileiro?” [músico, ex-drogado, brasileiro]
[...]
“É homem-bomba? Terrorista muçulmano? Se for, não deve ser brasileiro. Os nossos árabes não são disso. Eu devia estar ouvindo coisas. Ele não disse ‘buceta’, não. Muçulmano nem gosta disso. [...]” [músico, ex-drogado, brasileiro]
O Mané, Muhammad Mané como ele prefere, é bem diferente dos brasileiros que eu conheço. É difícil ver ele rindo de algo. E não tem nada desse comportamento sensual dos brasileiros. O Mané vinha com a gente para a noite e ficava no canto dele, tomando refrigerante, falando que estava com saudade de beber guaraná. Todo mundo lá na boate, comemorando a vitória do Hertha, cheio de mulher, e ele lá, triste, coitado. [...] Na África, nós não somos tão sorridentes e felizes como os brasileiros. Tem muito conterrâneo meu, lá de Camarões, que não se aproxima de brasileiros, que acha que eles ficam rindo para os brancos, que são subservientes, que não têm palavra. Mas eu sou diferente. Acho bonito como eles tratam bem todo mundo e nem pensam muito nesse negócio de raça. A gente vê que eles se misturam fácil, que não são negros puros. Tem até louro no Brasil. E, outra coisa, como é que um jogador de futebol pode não gostar de brasileiros? O Pelé fez mais pela raça negra do que qualquer outro negro no mundo. Sem brigar com ninguém, ele fez o mundo inteiro respeitar um negro. [...] Com os muçulmanos, com aquele colega dele dos juniores, ele ia para aquelas casas de chá, onde não tem álcool, nem mulher, e ficava mais à vontade. Só não sei como eles conversavam. O Mané está aqui há um ano e não fala uma palavra de alemão, nem um “Guten Morgen”. [Mnango, jogador de futebol do Hertha, príncipe de Camarões, africano.]
[...]
“Ninguém pode deixar de ser o que é.” [Enfermeiro, alemão.]
“Eu posso. E quer saber? Já estou cansada desses brasileiros. Eles acham que são os donos da alegria, da felicidade, olham para nós, alemães, como se fôssemos umas pedras de gelo sem sentimentos.” [Enfermeira, feminista, alemã.]
[...]
“[...]Ultimamente não tenho conseguido permanecer muito tempo ao lado de Uéverson, ao lado de brasileiros em geral. Não podemos encarar a vida levianamente o tempo todo. Há momentos em que é necessário se retirar, refletir, encontrar o rumo certo.[...]Estou decidido a honrar um pouco mais a minha existência, parar de me entregar à bebida, ao sexo fácil. Não vou vender a minha alma, não vou me deixar corromper pela cultura decadente do colonizador.[...]A nossa cultura não é feita apenas de cortes de cabelo e roupas coloridas. Nós trazemos conosco a dor mais profunda da espécie humana. É na superação dessa dor que alcançamos nossas conquistas mais valorosas.”
[Mnango, jogador de futebol do Hertha, príncipe de Camarões, africano.]
[...]
“É porque você é burro, não conhece os filmes. Na África, nos Camarões, ainda nem inventaram a televisão. Eu, quando era criança, lá no Rio, eu era pobre, mas minha mãe tinha televisão. E geladeira e fogão e rádio. Sem televisão, sem rádio e sem ir na escola, ninguém aprende nada. Por isso é que a África é mais atrasada que o Brasil.” [Uéverson, jogador do Hertha, brasileiro.]
“Está certo, Uéverson. Na África ainda não inventaram a televisão. E eu sou burro porque não vi televisão quando eu era criança. E eu era canibal também. Continuo achando que você deveria falar menos.[...]”
[Mnango, jogador de futebol do Hertha, príncipe de Camarões, africano.]
“[...]Se não gosta de coisa moderna, de gente esperta assim como eu, volte para Camarões. Vá lá morrer de fome, vá lá pegar AIDS dos macacos. Pode deixar a Meti comigo e com o Mané, que nós, do Brasil, gostamos é de mulher.
[Uéverson, jogador do Hertha, brasileiro.]
(SANT´ANNA, André. O paraíso é bem bacana. 2006.)
Esses fragmentos evidenciam a segregação que os estereótipos e as fronteiras nacionais provocam nas relações sociais. O pertencimento a uma nação implica uma série de características “inerentes” ao nacionalizado. Por mais que se tenha conhecimento da existência de diversidades e individualidades, o quesito decisivo, quando se questiona a identidade do sujeito, é qual a nacionalidade que ele possui. Segundo Stuart Hall, “não importa quão diferentes seus membros possam ser em termos de classe, gênero ou raça, uma cultura nacional busca unificá-los numa identidade cultural, para representá-los todos como pertencendo à mesma e grande família nacional.”. (HALL, 2005. p.59) Ao se estabelecerem fronteiras nacionais, elimina-se a alteridade do povo e inventa-se um outro traço que construirá aquela nacionalidade. Essa nacionalidade vai sendo reforçada pelos próprios compatriotas e acaba se tornando uma “verdade” e uma tradição.
Quando alguém foge às regras do “ser brasileiro”, configurando um papel “primitivo”, “inferior” ou de “índio”, decerto haverá um conterrâneo pronto para fazer alguma ressalva, para justificar aquele desvio, para se excluir daquela característica clandestina. Porém, na condição de pós-modernos, os sujeitos estão em constante deslocamento de identificações e isso pode ser verificado no fenômeno da antropofagia cultural onde os indivíduos, em processo de diáspora, passam a assumir identidades diversas e contraditórias em diferentes momentos. No trecho abaixo, pode-se verificar essa ocorrência, onde um brasileiro assume um comportamento de lord inglês para mostrar a “civilidade” de seu povo, sem, entretanto, livrar-se de seus modos individuais:
Não sei se todo brasileiro é assim, ou turco, sei lá. Eu nem sei mais o que o Mané era. Mas nós achávamos estranho o modo como ele comia. O Mané misturava arroz, batata, pão, macarrão, tudo no mesmo prato. E segurava os talheres assim, ao contrário. Nem o Hassan, que era amigo dele, que era turco também, conseguia ficar perto dele na hora de comer. É que o Mané sempre sujava de comida quem estivesse perto dele. E maionese. Ele punha maionese em tudo, muita maionese. Ficava todo sujo. O Uéverson, do time principal, ficava com vergonha do Mané e vinha dizer que, no Brasil, não era todo mundo que comia daquele modo. Então, o Uéverson pegava os talheres, com dedinho levantado, e mostrava como ele era bem-educado para comer. Bem... O Uéverson comia de boca aberta, falava com a boca cheia, mas levantava o dedinho parecendo um lord inglês. Grande pessoa o Uéverson. E, comparado com o Mané, o Uéverson era mesmo um lorde inglês. [depoimento de um jogador do Hertha] (SANT´ANNA, André. O paraíso é bem bacana. 2006.)
Segundo Ernest Gellner, “o nacionalismo não é o despertar das nações para a autoconsciência: ele inventa nações onde elas não existem”. Para Benedict Anderson (1983), a identidade nacional é uma “comunidade imaginada”. Anderson argumenta que diferenças entre nações residem nas formas diferentes pelas quais elas são imaginadas. Ou seja, ao definirem-se os limites de uma nação, esquece-se das diferenças internas que a compõem, ou tenta-se acobertá-las, atenuá-las, para se fazer predominar uma unidade, uma unidade diferente das outras já conhecidas.
Segundo Homi Bhabha, 1990, “As nações, tais como narrativas, perdem suas origens nos mitos do tempo e efetivam plenamente seus horizontes apenas nos olhos da mente”. A narrativa da cultura nacional é contada nas histórias e nas literaturas nacionais, na mídia e na cultura popular. Esses elementos fornecem uma série de rituais e símbolos nacionais que representam as vivências que dão sentido à nação. Há também o destaque nas origens, na continuidade, na tradição – e na invenção da tradição - e na intemporalidade, como formas de narrativa da cultura nacional. Ou seja, os elementos nacionais apresentam o caráter permanente e imutável apesar de todas as transformações da história. Uma outra estratégia discursiva para as narrativas nacionais é o mito de fundação:
Uma estória que localiza a origem da nação, do povo e de seu caráter nacional num passado tão distante que eles se perdem nas brumas do tempo, não do tempo “real”, mas de um tempo “mítico”. Tradições inventadas tornam as confusões e os desastres da historia inteligíveis, transformando a desordem em “comunidade” e os desastres em triunfos. Mitos de origem também ajudam povos desprivilegiados a “conceberem e expressarem seu ressentimento e sua satisfação em termos inteligíveis” (HOBSBAWM & RANGER, 1983). Eles fornecem uma narrativa através da qual uma história alternativa ou uma contranarrativa, que precede às rupturas da colonização, pode ser construída. Novas nações são, então, fundadas sobre esses mitos. (HALL, 2005. p. 55)
Assim fez-se o mito de fundação do Brasil, porquanto se estabeleceu o início da sua história a partir da carta de Pero Vaz de Caminha. Esse documento, que diz-se visar à comunicação do “achamento desta Vossa terra nova” ao rei de Portugal, Dom Manuel, é também texto literário o qual principia a difusão de uma série de mitos que, através das impressões pessoais do escritor – variando de descrições realistas a idealizações –, passaram a constituir a identidade nacional forjada.
O discurso de Pero Vaz de Caminha declara a descoberta do paraíso terrestre: terra fértil com uma beleza e riqueza natural incomum, povo pacífico e necessitado de salvação. Ele deixa clara a intenção de colonizar a terra para aproveitar esses recursos e de violentar a cultura autóctone: “querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo”. De 1500 a 1530, a Coroa portuguesa limitou suas atividades no Brasil ao levantamento de informações sobre a exploração potencial das terras descobertas.
Depois da Carta, outras narrativas sobre o paraíso chamado Brasil foram sendo escritas pelos cronistas quinhentistas. O cenário colonial era descrito por Pero de Magalhães Gândavo, Frei Vicente de Salvador, Gabriel Soares de Sousa e tantos outros cronistas, que continuavam a difundir a imagem de um Brasil cordial, terra da fartura e da beleza, a terra desfrutável de cultura desprezível.
E por todos esses séculos, essas demarcações foram sendo enraizadas, tornaram-se a tradição brasileira, tornaram-se a representação do “ser brasileiro”. No Romantismo, o imaginário brasileiro foi definitivamente estabelecido pelos escritores românticos. José de Alencar, com suas narrativas de fundação Iracema e O Guarani mostra o indígena como o “Outro europeu: ao mesmo tempo imagem especular deste e a própria alteridade indígena recalcada. Quanto mais diferente o índio, menos civilizado; quanto menos civilizado, mais nega o narciso europeu; quanto mais nega o narciso europeu, mais exigente e premente a força para torná-lo imagem semelhante; quanto mais semelhante ao europeu, menor a força da sua própria alteridade.” (SANTIAGO, Silviano. Apesar de dependente, universal. 1982.)
Ao entrar em contato com as diferenças culturais da Alemanha, Mané encontra outras possibilidades de identidade, identificando-se com os preceitos do Islamismo por conveniência e acaba assumindo essa identidade, aparentemente sem fundamento. Tal ausência de fundamento é aparente, porque Mané tinha vários motivos para querer se converter. Ele era tímido, então nunca se relacionara sexualmente com mulheres; não ingeria álcool, porque não queria se colocar no papel de “bebo”, como os que havia na sua cidade natal. Acreditar numa religião que promete um paraíso com 72 virgens para os que seguirem os preceitos de Alah foi, na verdade, a junção dos interesses de Mané. Como antropófago cultural,Mané se vê como mártir de Alah, superior a todas as outras formas de crença que conhecera e merecedor do único paraíso possível.
De acordo com suas características individuais e seu conhecimento de mundo, Mané se identificou mais com a cultura islâmica do que com a cultura que lhe fora imposta ao nascer na condição de brasileiro. A cor da sua tez, a qualidade de jogador de futebol e a língua que ele fala – “idioma brasileiro” – são os únicos elementos que ajudam a identificá-lo como natural do Brasil. Eis o ser brasileiro. Aliás, essas características somadas à lascívia, à constante carnavalização, à ausência de escrúpulos e civilidade, resulta no “ser tipicamente brasileiro” desde 1500.
[...] a nacionalidade bem como o nacionalismo são artefatos culturais. [...] a criação desses artefatos, por volta dos fins do século XVIII, foi a destilação espontânea de um “cruzamento” complexo de forças históricas; mas que, uma vez criados, tornaram-se “modulares”, passíveis de serem transplantados, com graus diversos de consciência e a grande variedade de terrenos sociais, para se incorporarem à variedade igualmente grande de constelações políticas e ideológicas. (ANDERSON, Benedict. Nação e consciência nacional.)
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| Georges-Pierre Seurat nasceu numa abastada família burguesa em Paris, e estudou na Escola de Belas Artes, para onde entrou em 1878. Contribuiu para a pintura francesa ao introduzir uma técnica mais sistemática e científica, chamada divisionismo ou pontilhismo a que ele chamou Pintura Óptica. |
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