
Ensaio
Maquiavelismo Pós-Moderno
Por Waldir Araújo
Monte seu cardápio: Mitologia gregoriana e a Guerra de Tróia; Cruzadas; bombas atômicas de Hiroshima e Nagasaki; Auschwitz e Gulag stanilista; milhares de civis mortos em Laos, Camboja e Vietnã; massacre étnico na Bósnia Herzegovina, articulado por Slobodan Milosevic; conflito israelo-libanês; guerra no esporte entre El Salvador e Honduras em plena Copa do Mundo de Futebol; guerras civis na África, Nicarágua e no Haiti; Al Qaeda e Hizbollah... A lista não tem fim, mesmo na época pós-moderna em que os “cientistas” políticos dizem que as guerras são “Made in Vídeo Game”, ou “guerra cirúrgica”.
As explicações para a violência social são muitas: demônios que possuem a ânima agostiniana pela mística religiosa, Complexo de Édipo freudiano, filosofia marxista de critica ao sistema de acumulo de mais-valia, e até mesmo, uma espécie de “darwinismo social”, de que o animal mais forte tem biologicamente necessidades de vencer e prosseguir no processo natural de seleção.
Da mesma forma os investimentos militares são maiores do que os investimentos em ajuda humanitária, os dados são assustadores, segundo o jornal on-line IG Economia, um relatório da PNUD (Programa das Nações Unidas para Desenvolvimento) mostra que: “De cada dólar investido no mundo todo em ajuda humanitária, os paises destinam dez para seus orçamentos militares (...) todos os paises do Grupo dos Sete (G-7) destinam pelo menos quatro vezes mais dinheiro para despesas militares do que para ajuda humanitária (...) O dinheiro que os países desenvolvidos dedicam por ano na luta contra a AIDS – que mata três milhões de pessoas anualmente – representa o investimento de apenas três dias em armamento. No entanto, se o aumento de US$ 118 bilhões na despesa militar entre 2000 e 2003 tivesse sido destinado a ajuda humanitária, esta representaria hoje cerca de 0,7% da Renda Nacional Bruta (RNB) dos países ricos. Com apenas 3% dessa quantia (cerca de US$ 4 bilhões) seria possível evitar a morte de três milhões de crianças por ano.”
O sorriso cínico meio fleumático de Maquiavel tem lá seu sentido, em sua obra O Príncipe, quando faz um analise filosófico-política da Guerra, e na sua literatura historiográfica lhe dar status de arte, como Sun Tzu em sua obra A Arte da Guerra. A apologia à arte da guerra é percebida, em um trecho de O Príncipe do caderno XIV: “Os príncipes, por conseguinte, não deveriam ter outro objetivo ou pensamento além da guerra, suas leis e suas disciplinas, nem estudar qualquer outro assunto; pois esta é a única arte que se espera de quem comanda (...) Observemos que, quando os príncipes se interessam mais pelas coisas amenas [aqui podendo ser entendidas como: educação, saúde, cultura, esporte, liberdade e humanitarismo] do que pelas armas, perdem seus domínios. A causa principal da perda dos Estados e o negligenciar a arte da guerra; e a maneira de conquistá-los é ser nela bem versado.”
Isso explica, por exemplo, após o fim da União Soviética, a Rússia, com seu arsenal de armamento nuclear, ser membro do G-8, o bloqueio econômico de Cuba, após a Crise dos Mísseis Cubanos, na Guerra Fria, e é claro, as Ditaduras Militares.
Na televisão assistimos a preocupação da ONU (Organização das Nações Unidas) com o programa de enriquecimento de urânio do Irã. Por outro lado, a passividade em relação à recusa de assinar o Protocolo de Kyoto - proposto pela própria ONU - realizada pelos Estados Unidos e pela China. Existe um maior medo com os recursos bélicos do Oriente Médio, do que com o Aquecimento Global, assim, o discurso ecológico se torna “marketing social”.
Qual a morfologia da Guerra? Em alguns momentos penso que toda a produção cultural e cientifica do globo, é movida pelo fluxo de interesses militares: internet, nanotecnologia, preservação ambiental, estudos físicos e bioquímicos... Picasso ao pintar “Guernica” transgrediu sentimentos em forma semiótica. Quantas “Guernicas” milhares de pessoas já não devem ter visto? Nas palavras do próprio Picasso: “No, la pintura no está hecha para decorar las habitaciones. Es un instrumento de guerra ofensivo y defensivo contra el enemigo”.
Nesse sentido, a identidade maquiavélica é ontológica do homem, todavia sofre uma apartheid no sentido social. Não sou niilista, ou adepto a filosofia cética, todavia também não irei discursar uma retórica messiânica que presa à ética e a moral, alicerçada nos ensinamentos bíblicos de um mundo utópico.
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