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Entrevista
ENTREVISTA COM SANDRO ORNELLAS
Por Lima Trindade


Sandro Ornellas é poeta, professor de literatura na Universidade Federal da Bahia e autor dos livros Simulações (1998), vencedor do Prêmio Fundação Casa de Jorge Amado/Braskem, e Trabalhos do corpo (2007), ilustrado por Wilson “Foca” Neves e publicado pela Letra Capital Editora (www.letracapital.com.br).

 

Lima Trindade – Seu primeiro livro, Simulações, é de 1998. Por que a demora na publicação do segundo? Você deixou de escrever em algum momento?

Sandro Ornellas – Não deixei de escrever, mas diminuí o ritmo de forma gradual, após a publicação, pois entrei numa fase que profissionalmente demandou muito de mim. Isso me afastou um pouco do circuito editorial – do qual, aliás, nem participei no primeiro livro, pois foi editado pela Fundação Casa de Jorge Amado, às custas da patrocinadora do Prêmio. Após esse período, decidi pôr o que havia escrito, e ficava em casa reescrevendo incessantemente, para fora da gaveta e partir para o próximo.

LT – Trabalhos do corpo pretende uma experiência mais vital de linguagem, uma ruptura com as noções de tradição e vanguarda? Ou um mergulho nessas correntes contrárias?

SO – Talvez tudo isso junto. Um mergulho nessas correntes contrárias, em luta com e contra tradições e vanguardas, a partir de uma experiência, sem dúvida, mais vital da linguagem.

LT – Pensar o corpo como espaço único (ou último?) da linguagem, no sentido que imagino você empregar ao livro, seria o mesmo que romper com as fronteiras que separam poesia e vida, experiência e memória, retomando um pouco Artaud?

SO – Quando o corpo quer, ele come, dorme, se excita, agride, vive, morre e executa suas funções fisiológicas sem pedir nossa permissão. É ele quem manda. Gosto de sentir a escrita como uma necessidade do próprio corpo, o que me parece ser o que algumas vanguardas pensavam por acabar com os limites entre vida e arte. Mas Artaud é um grande latifundiário nessa história, eu apenas pago (com dificuldade) o aluguel de uma barraca de praia em Amaralina.

LT – Ao se utilizar de um “eu” lírico múltiplo e contraditório você foge de um tema único para o livro. Sua poesia tem sede de absoluto ou é espelho desses tempos em que há informação demais, imagens demais, violências demais e sentimentos de menos?

SO – Tenho a sede de absoluto em um tempo de excessos (de informação, imagens, violências e, também, excesso de sentimentos), em que não quero ter medo da contradição, da multiplicidade, do movimento, da diversidade própria à vida.

LT – É essa diversidade que o leva a assumir várias identidades. Você considera a questão identitária, assim como a dos gêneros – literários e sexuais -, ultrapassada?

SO – A questão identitária é sempre atual e acho difícil ser ultrapassada, política, social e culturalmente. Mas ela tem um limite claro, que é a própria vida e seu movimento. Querer prender (ou definir) a vida em discursos identitários é uma postura que, julgo, beira o fascismo, mas é inerente (e necessária) a qualquer esfera que seja institucional ou queira se institucionalizar. A multiplicidade, por outro lado, é um exercício para estar sempre em movimento subjetivo, tentando escapar a essas institucionalizações.

LT – Qual o espaço o corpo físico deve ocupar no corpo social? Como se posicionar diante do Poder na contemporaneidade? Há uma domesticação do corpo?

SO – Acho muito prazeroso ter poder. Depois que me tornei pai e professor, duas posições instituídas de autoridade, também tive que começar a lidar com o meu poder, com o fascista que se manifesta nessas posições. Mas, por não me levar demasiadamente a sério em nenhuma delas, acabo sempre por me desautorizar. Como me posiciono diante do poder? Escrevendo. Acho que ele necessariamente aparece nessas horas – contra ou a favor da minha escrita.

LT – Considera a poesia de Trabalhos do corpo pessimista? Se sim, a que se deve isso?

SO – Um pessimismo alegre, ou uma alegria pessimista. Alegria de viver, com seus males, seus medos, suas violências, suas ignorâncias e seus prazeres, suas criações, suas alegrias. Pessimista, sim, mas que quer afirmar a vida em todas a sua força, e sem a felicidade adocicada que tentam nos fazer crer possível e só constrói projetos falhados ou perigosos.

LT – Você tem um processo criativo definido? Acredita ainda na separação entre forma e conteúdo?

SO – Acho que é um pouco semelhante ao de todo mundo. Não tem muito mistério nisso, por mais que alguns gostem de (se) mistificar. Cada texto se impõe inicialmente de uma maneira muito particular, depois trato de desenvolvê-lo, reelaborá-lo ou abandoná-lo. E hoje eu acredito sobretudo no ato de escrever, sem divisões de qualquer tipo. Só quando estou mal humorado acho difícil conseguir comunicar o que quer que seja, principalmente pela escrita. E às vezes eu escrevo mal humorado... rs.

LT – Teria como definir a sua poética?

A mais livre possível, livre de referências, de modelos, preconceitos, verdades, dúvidas e dívidas. A cada movimento para escrever, no entanto, constato a falência disso tudo.

LT – Sei que você tem um profundo interesse pela literaturas lusófonas, tendo, inclusive, estudado a obra de Al Berto. Portugal ainda é uma referência importante para o Brasil de hoje?

SO – Fora de certos espaços muito especializados, Portugal há muitíssimo tempo mesmo deixou de ser referência. Se por um lado julgo isso positivo, por outro, julgo este país é grande em demasia, ressentido em demasia e tem problemas reais, dores e feridas simbólicas grandes e permanentes em demasia para se afirmar como poderoso e realmente reelaborar o passado colonial. O mal-estar de ter sido inventado por um outro (que hoje nós colonizamos com nossa música
e nossas novelas), à base de violência (real e simbólica), não se
resolve deixando de falar em Portugal e em portugueses. Desse passado
não nos livraremos nunca, queiramos ou não. É o nosso passado. Ou o
esquecemos (como?), ou o carregamos como um fardo (ou como piadas de
português, que, para mim, são sintomas desse fardo), ou o reinventamos. Vamos ficar (nos) alimentando (d)essa memória dolorosa e escondendo Portugal debaixo do tapete da nossa violência cotidiana (ou rangendo os dentes para um hoje gato inofensivo) talvez enquanto formos o Brasil.

LT - E quais são os seus planos para o futuro? Tem algum novo livro em mente?

SO – A idéia deste último livro (Trabalhos do corpo) se desenhou aos poucos, à medida que os poemas foram escritos. Depois de um tempo, passei a reescrevê-los e a escrever novos poemas em função da idéia que se formou. Agora tenho
por volta de quinze poemas prontos. Estou na fase de pensar em torno
do que eles giram para começar a reescrevê-los e produzir novos
textos. Além disso, tenho uma idéia para um romance que estou
alimentando e que pretendo lá pelo ano que vem colocar em prática, sem
a certeza de chegar em algum lugar.

 

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Georges-Pierre Seurat nasceu numa abastada família burguesa em Paris, e estudou na Escola de Belas Artes, para onde entrou em 1878. Contribuiu para a pintura francesa ao introduzir uma técnica mais sistemática e científica, chamada divisionismo ou pontilhismo a que ele chamou Pintura Óptica.



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