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Ensaio
Um conto de Carino Gama
                                                                                                      

Carino Gama nasceu em maio de 68,  é paulistano e reside em Salvador há onze anos. Escreve periodicamente desde que foi alfabetizado (antes desenhava histórias). Durante uma separação judicial, queimou dois pequenos romances. Pensa em reescrever um deles. Tem um blog, o www.tuonelaecitera@blogspot.com

 

Último encontro

 

Apanhou o jornal na porta do apartamento e o desdobrou sobre a mesa, vendo as manchetes – nada de novo, era domingo, enquanto dispunha o café e o leite no centro, as frutas à esquerda, pães, queijos, cereais à direita. O rótulo da geléia suíça parecia mais interessante que as taxas de juros, que já lhe tomavam as horas durante a semana.

O tempo parecia indefinido, nuvens acumulavam-se além dos edifícios.

A sombra de sua mulher apareceu cambaleando na penumbra do fundo do corredor, cambaleando para a suíte. Ele se levantou e a chamou duas vezes, através da porta.

- Meu bem, vou ter que dar uma passada no Fernando; tem um troço aí pra resolver.
-Agora?
- É uma zorra aí que ele se meteu. Eu resolvo lá e já volto.
- Vai ficar no uisquinho, viu...esse Fernando eu conheço.
- Ahahah! São oito da manhã, pô!

Já eram nove. Ele dirigia pela avenida da orla marítima e agora as nuvens pareciam mais densas, azulando-se sombrias sobre o sombrio azulado do mar.
A maré estava alta e subindo mais, e às se podia vê-las mesmo da rua, estourando contra as pedras. O espírito de Deus pairava sobre as águas. Ou sobre o abismo, não se lembrava bem.

Estacionou e confirmou as horas. Dentro da agência bancária, a silhueta imóvel de um vigia de quepe olhava para ele.

Alguns minutos depois, ela chegou, como fazem as mulheres. Sorriram. Às vezes, ele conferia pelo retrovisor se ela o acompanhava, apesar de passarem por ruas quase vazias e, agora, úmidas.

Num sinal fechado, um mendigo chegou seu rosto à janela e Claudio encontrou seus olhos, protegido pelo vidro escuro. Mas o outro parecia enxergá-lo, como num espelho.

Estacionaram no motel. Ela:
-Tudo bem com você? Que saudade, viu?
-Foi tudo muito demorado. Sabe como são essas coisas...
-E o vôo, foi bom?
-Avião é sempre o mesmo. Pelo menos, na volta vim com um cara de Recife; ele é todo piadista...
-Sei; demorou, é? Você é que arranjou namoradinha por lá, né? – enquanto soltava os botões da camisa dele.
Ele riu, divertido.
- Me diz: ela era gostosa que nem eu?
-Não, você é bem melhor..- piscando um olho.
-Ah, seu sacana! Então foi mesmo, né?! Eu sabia... – e o que é que eu sei fazer melhor do que ela, hem? Me diz...

Foram para a cama pela primeira vez, naquela manhã. Ela o achou mais lento e disse que ele estava mais carinhoso; também viu que ele parecia cansado, como se convalescesse e comentou que ele mais magrinho, mais elegante. Seu perfil quase etrusco, parecia o de um senador romano nas termas.

- Você nunca me explicou que tatuagem é essa, Claudio. Eu queria tanto saber o que significa.
- Mas por que você acha que significa alguma coisa?
-Não tem sempre um significado?
-Não, às vezes não tem sentido nenhum.
-Mas esta deve ter.
-Às vezes, acho que tem, mas sou eu que não entendo.

O celular dele tocou. O dela nunca tocava.
-Oi, Clau; já deu conta do recado por aí?
-Não bem; ainda estamos aqui. Mas daqui a pouco eu estou indo. Já está quase acabando.
-Olha, a gente vai almoçar na Nina. Ela me chamou, e já é a terceira vez. A primeira vez foi no aniversário daquele menino, lembra? Acho que era o sobrinho. A gente não foi, porque o senhor estava ocupado. Depois, foi no São João. Então, agora é melhor ir, né?
-Não tenho nada contra, não. Eu gosto deles.
- Você passa aqui pra me pegar, então. E avisa quando estiver vindo. E deixe o celular ligado, viu mocinho?
- Eu sempre deixo...
-Olha, lembra aquela chácara do tio Zazinho? Ele me disse que reformou toda, por que a gente não compra agora? Ele vai estar lá, também.
-Com umas na cabeça, é capaz de me passar de graça...
-Que nada; ele é que nem você: quanto mais bebe, mais esperto fica.
- Um beijo...
-Não fique se matando aí, tá? Hoje é domingo. Beijo!

Ela tinha entrado na ducha, e voltava agora.
-Ela fala, fala...- ele se desculpando.
- A banheira está quentinha; embora pra lá?

Relaxaram um pouco, ela elogiou seus próprios cabelos e ele concordou.
-Mas, e se eu cortasse bem justinho, pra deixar assim o pescoço de fora?
Já disseram que meu pescoço é lindo, sabia?
- É mesmo – beijando-a no pescoço por trás e depois nas costas.
- Você não quer saber quem foi que disse?
- Não – se nem ela devia se lembrar quem tinha sido.- Quero, vai: quem foi?
- Ah, deixa pra lá... – sorrindo.

Dessa vez, ela é quem parecia diferente, como se mal disfarçasse alguma hostilidade contra ele. Depois ficaram se entreolhando abraçados, mas o celular tocou de novo.

-Diga, Guimarães.
- ............................................................................

- Não, eu não culpo ninguém; não se trata disso.
- ...........................................................................................
.................................................................................................
...........................................................................................
-Não faria diferença. Não quero recurso nem qualquer tipo de intervenção externa.
-.............................................
- Porque o destino já está selado, eis aí.
- ...............
- Sei lá, vai ver que estava no meu mapa astral. Eu subi demais, assumi coisas demais, e aí, você sabe... ...é, já está tudo montado, cada um na sua marcação no palco. E o foco da luz está na minha cara... ...não, não tenho medo...
- .............................................................................................
- Já te falei: a engrenagem roda; tem que rodar em cima de alguém...
-..............................
- Já falei que não...

Ela tinha voltado pra cama e bebia alguma coisa, enquanto assistia a um vídeo.
- Então, a tatuagem não tem historia?
- Não, meu amor, não tem historia...
- Tatuagem é igual a cicatriz. Sempre tem a historia da queda; que nem essa no meu tornozelo: caí da bicicleta quando menina.
- Esta não tem. Tem só o corte e o sangue. Um dia a dor passa. Fica só o desenho.
- ...se voce estiver precisando ir agora, tudo bem; voce ficou tristinho...ih, ele ficou tristinho tambem.
- Daqui a pouco ele se alegra de novo. Bote um uisquinho pra mim, vai.
- Sem gelo, que eu já sei. Voce fez a tatuagem por que queria ser marinheiro? – sabia que o estava provocando, era uma de suas brincadeiras. Como se procurasse lhe tomar a paciencia até que ele reagisse contendo seus braços e tapando sua boca com um beijo.
-Um marujo daqueles durões...que nem aquele da baleia gigante...
- Baleia o quê...
- ...lá no Mediterrâneo, claro, não esses marinheiros daqui. Sabe as ilhas gregas? Entao...E aí a tatuagem ia ser um símbolo místico daquelas coisas antigas, com sacrifícios e tal... não tem isso?
- Ah, sacrifício não pode faltar! ...sem dúvida... ...me passe a garrafa, por favor.

Tinha um amigo na adolescência que entrou na Marinha. Outro, abriu um escritorio de contabilidade medíocre. E o Luis, trabalhando com o pai até hoje...Outros submergiram em repartições publicas.

- Quer que eu deixe o garoto alegre de novo? Ele é um menino tão bonzinho...

Agora se agarram com força; ela geme alto, ele a aperta e ao final grita e lhe dá um tapa forte, às cegas, em algum lugar de sua carne. Ela se recolhe contra os travesseiros, assustada, mas fingindo naturalidade.

O celular toca.
-Alô; é, estou indo: não precisa ficar ligando não!

Ambos tomam banho. Ela começa a esboçar uma espécie de insinuação ou pergunta, mas se cala, enfiando a cabeça sob o chuveiro. Ele está mudo.

Quando se despedem, ele procura lhe dizer alguma coisa, mas não consegue se lembrar de nenhuma palavra amável. Acaricia seu rosto e a beija de leve. Depois saem, cada qual de volta a seu caminho.

Chove. Ele desvia por uma rua qualquer, e depois por uma ruela deserta, estreita, de paralelepípedos e árvores pesadas de garoa. Não quer testemunhas. Não há ninguém. Estaciona sobre o passeio e tira a arma do porta-luvas, sente seu peso, o frio do metal. Encosta-a no ouvido, na fronte, mas não consegue, ainda não consegue, e começa a chorar sem perceber.

 

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Georges-Pierre Seurat nasceu numa abastada família burguesa em Paris, e estudou na Escola de Belas Artes, para onde entrou em 1878. Contribuiu para a pintura francesa ao introduzir uma técnica mais sistemática e científica, chamada divisionismo ou pontilhismo a que ele chamou Pintura Óptica.

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