
Colunas: VÉRTEBRA
Café da manhã em Plutão
por Rã Cinza
Direção: Neil Jordan
Roteiro: Neil Jordan e Patrícia McCabe
Ator principal: Cillian Murphy, que interpreta Patrick “Kitten” Braden
Baseado no livro de Patrícia McCabe
Indicação: Assistam, é lindo !
Por quê? Porque é uma história tocante, contada em retrospectiva pelo personagem, um travesti irlandês. A música, para quem viveu a época, anos 70, será absolutamente reconhecível, e as cores expostas no filme explodem na tela: muito vermelho, muita cor viva, com direito a infinitas cintilações. Stephan Rea faz um mágico, seus olhos caídos, oblíquos, tão Beatles, tão ingleses, causam um enternecimento. Assim ocorre com Patrick, ou melhor, Patrícia, que foi deixada na porta da casa de um padre da cidade, e foi criada por uma mulher e filha que nutrem por ele/ela sentimentos hostis. Em Patrick “Kitten” Braden não há meio termo. Hostilidade ou gentileza são os sentimentos moventes. Até chegar ao ponto da hostilidade transformar-se em gentileza, como acontece na tocante relação que Patrícia desenvolve com os policiais que a consideram integrante do grupo IRA, pois o desamparo e a magreza fazem par com uma fragilidade física que chama por cuidado. É um filme tragicômico, e as cores também fazem acontecer esse gênero híbrido. Devido à organização outsider, vemos a vida perseverar, e as diferenças com as regências morais são evidências de que a vida é muito mais do que pretende a vã normalidade. Por isso o riso é o fio por onde Kitten caminhará. Ela realiza seu outing quando está na escola e, a partir de então, quer o nome feminino assegurado. Kitten faz ecoar a palavra inglesa kitchen (cozinha), onde supõe ter sido concebida. Kitten é filho da moça mais bela da cidade, parecida com uma atriz glamorosa, segundo o comentário de um personagem, o pai de seu amigo down. Ele, Kitten, o menino, e uma menina negra chamada Charlie, são amigos inseparáveis. Amigos igualmente ocupantes de um espaço fronteiriço, evidenciado no momento em que, após crescerem, ao quererem entrar num bar, são barrados com a explicação de serem, o rapaz down e a negra, portadores de signos absolutamente recusáveis. Patrícia quer sair de sua cidade para ir à Londres, quer procurar sua mãe, e refaz o périplo de qualquer personagem de epopéia. Aí o filme pode evocar a poderosa inventividade irlandesa produzida em Joyce, que nos devolve um Ulisses que percorre outras ondas. Patrícia Kitten é um trans-Ulisses que percorre as vagas. A inventividade traz um toque de conto de fadas porque alguns passarinhos testemunharão e comentarão sobre os conflitos e maledicências da cidadezinha em que nasceu Kitten. Esta, por sua vez, desdiz, por necessidade e força, da demanda recorrente sobre a seriedade, e bascula, numa espécie de loucura que lhe confere saúde. A loucura, portanto, propicia uma representação alternativa e estratégica. Quando a realidade faz-se insuportável, a dor, devido às inúmeras intolerâncias, será superada.
A repressão sexual, denunciada desde Freud e Reich, ainda faz estragos, e, no filme, será lembrada e estimulada, para ser ultrapassada, quando a narrativa nos dá uma personagem principal tão múltipla, doce e frágil, com uma competência incrível para existir, solidária e doida. Talvez a resistência seja a qualidade necessária ao assumido que não pode explicitar seu afeto. É terrível saber que pessoas não podem tocar-se amorosamente em lugares públicos porque seus amores ferem uma construção que inventa o certo, a normalidade, o natural e a verdade, ou seja, uma infinidade de hábitos naturalizados que condenam a uma vida infeliz. E mais uma vez o filme convida a refletir sobre o universalmente aceito; lembra Nietzsche quando diz: desconfio de todos os sistematizadores e os evito. A vontade de sistema é uma falta de retidão. O desejo de organizar a vida, dentro de padrões de comportamento, é uma atividade que demonstra essa carência de retidão, por aqueles que professam suas suspeitas verdades.
Kitten nunca ataca seus agressores, e, num momento delirante, decorrente das torturas físicas que sofre, a agressão é mixada com o glamour da mulher fatal, que utiliza como arma um perfume tecnológico, refazendo uma cena em que ela tem de se livrar de um estrangulador, ao borrifar perfume nos seus olhos. Dessa forma, a personagem nunca deliberadamente ataca, e mal se defende, não entra no fight binário, tão comum àqueles que carecem de retidão, geralmente verborrágicos e usualmente violentos, quando querem defender suas pretensas razões absolutas. O que emana de uma terapêutica da personagem, mais tem a ver com as pequenas coisas, pequenos gestos e pequenos luxos, caprichos que conferem saúde. O que sobrevive demonstra a sabedoria das mínimas doações, localizadas nos pequenos gestos.
Uma cena: quando sua amiga de infância, grávida, cai em depressão, Kitten compra para ela roupas vistosas, pois sabe que a alegria é imanente e possui materialidade. As cores que povoam o filme vitalizam e dão pistas para esta constatação alegre: o múltiplo é arco-íris, se há uma aglutinação que adensa uma determinada cor, esta, em suas bordas, é passível de encontros entrecruzados.
Um Mário de Sá Carneiro de presente
MANUCURE
Na sensação de estar polindo as minhas unhas,
Súbita sensação inexplicável de ternura,
Tudo me incluo em Mim – piedosamente.
Entanto eis-me sozinho no Café:
De manhã, como sempre, em bocejos amarelos.
De volta, as mesas apenas – ingratas
E duras, esquinadas na sua desgraciosidade
Bocal, quadrangular e livre-pensadora...
Fora: dia de Maio em luz
E sol – dia brutal, provinciano e democrático
Que os meus olhos delicados, refinados, esguios e citadinos
Nem podem tolerar – e apenas forcados
Suportam em náuseas. Toda a minha sensibilidade
Se ofende com este dia que há-de ter cantores
Entre os amigos com quem ando às vezes –
Trigueiros, naturais, de bigodes fartos –
Que escrevem, mas têm partido político
E assistem a congressos republicanos,
Vão às mulheres, gostam de vinho tinto,
De peros ou de sardinhas fritas...
E eu sempre na sensação de polir as minhas unhas
E de as pintar com um verniz parisiense,
Vou-me mais e mais enternecendo
Até chorar por Mim...
Mil cores no Ar, mil vibrações latejantes,
Brumosos planos desviados
Abatendo flechas, listas volúveis, discos flexíveis,
Chegam tenuamente a perfilar-me
Toda a ternura que eu pudera ter vivido,
Toda a grandeza que eu pudera ter sentido,
Todos os cenários que entretanto Fui...
Eis como, pouco a pouco, se me foca
A obsessão débil dum sorriso
Que espelhos vagos reflectiram...
Leve inflexão a sinusar...
Fino arrepio cristalizado...
Inatingível deslocamento...
Veloz faúlha atmosférica...
E tudo, tudo assim me é conduzido no espaço
Por inúmeras intersecções de planos
Múltiplos, livres, resvalantes.
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| Georges-Pierre Seurat nasceu numa abastada família burguesa em Paris, e estudou na Escola de Belas Artes, para onde entrou em 1878. Contribuiu para a pintura francesa ao introduzir uma técnica mais sistemática e científica, chamada divisionismo ou pontilhismo a que ele chamou Pintura Óptica. |
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