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Colunas: DAGUERREÓTIPOS
por Tom Correia

Um dos mapas mais antigos e famosos do mundo foi desenhado em 1513 pelo almirante Piri Reis, que, apesar do nome, nasceu na Turquia. Encontraram fragmentos de suas cartas no Palácio de Toptaki, Istambul, no início do século XVIII. Neles vemos representadas pela primeira vez as Américas, além do oeste da África e da Região Antártica. Uns afirmam que a cartografia de Reis é de precisão desconcertante; outros apontam uma série de erros e acusam o turco de apenas fazer uma reprodução de outros mapas ainda mais remotos, inclusive copiando suas gafes. Erich von Däniken, no seu “Eram Deuses Astronautas?”, cita o achado como um dos grandes mistérios da humanidade e levanta a hipótese de uma tecnologia alienígena ter orientado o cartógrafo na confecção do mesmo.

Polêmicas à parte, minha mania de ficar olhando mapas também é proporcionalmente antiga. Desde criança costumo vagar com olhos fortuitos pelos dados cartográficos, acidentes geográficos, latitudes e longitudes várias. Lembro de um atlas antigo que tive e ainda posso sentir o cheiro de suas páginas. Andava com ele debaixo do braço franzino, decorando os nomes das capitais do mundo, sem perceber, na época, que havia cidades mais importantes do que aquelas que eram demarcadas com grandes estrelas rodeadas por círculos negros. Quando me viciei em jogar War, eu perdia todas, porque, aéreo, planejava alcançar o ponto que eu achava o mais longínquo e fascinante da Terra: Vladivostok. Somente outro dia soube o que significa: “Senhor do Leste”. Claro, jamais botei os pés lá e nem em lugar nenhum, mas o nome da cidade sempre me traz boas recordações. Hoje o metido do Google nos faz viajar sem sair do lugar, mas a sua versão gratuita ainda não esquadrinha com minúcias os distritos e vilarejos de incríveis nomezinhos que nos fazem especular sobre os gentílicos dos seus habitantes e sobre o gênese da criação. Afinal, baseado em quê, alguém poderia batizar um lugar de Jacaré dos Homens [AL]? E quem nasce por lá é chamado de quê? Homem-jacareense?

Quem lida de algum modo com a palavra, termina ficando mais atento a elas. Vai ver por isso sempre quis pesquisar a fundo a procedência desses lugares. Uma pesquisa in loco, além de inviável, me faria correr o risco de sofrer um desapontamento ao desvendar a real origem de cada nome. Usar a imaginação talvez seja melhor. Foi como forma de compartilhar arbitrariamente uma das minhas manias, que resolvi voltar a algumas das cidadezinhas e vilarejos cunhados com nomes impensáveis, de tão criativos.
Para abrir a lista, as campeãs em antagonismo:
Breu Branco [PA], Carrasco Bonito [TO]

As que quase contam uma história com começo, meio e fim:
Lagoa da Confusão [TO], Cartucho [TO], Chumbo [MG], Tiros [MG], Sangue [MA], Tombos [MG] e Caveira [MG].

As que lembram nomes de barcos ou de passarinhos, de tão singelos e poéticos:
Não-me-toque [RS], Bate-pé [BA], Venha-ver [RN], Quem-quem [MG], Varre-sai [RJ] e Bem-bom [BA].

As indecifráveis, pelo menos à distância:
Liquilândia [MT], Fala Verdade [MS], Capitão Poço [PA], Trizidela do Vale [MA], Selvíria [MS], Nhecolândia [MS] Sério [RS], Cachorro Sentado [GO] e Cacique Doble [RS] que me lembra nome de cachaça ou de conhaque: “Garçom, uma dose tripla de cacique doble. Hoje estou inspirado.”

As trilogias, com direito a aliterações:
Sorriso [MT], Sossego [PB] e Sucesso [CE]
Felizardo [CE], Feliz Natal [MT], e Feliz Deserto [AL]
Solidão [PE], Sombrio [SC] e Saudades [SC]

As que não se completam:
Óleo [SP] e Mel [CE]
Farinhas [RS] e Sem Peixe [MG]

As nem tão católicas assim:
São Miguel do Gostoso [RN] e São Miguel dos Macacos [PA].

As literárias, que sugerem títulos de poemas, contos e até romances:
Sumidouro [RJ], Vertentes [PE], Segredo [RS], Salto do Céu [MT], Mormaço [RS], Mar de Espanha [MG], Esquina do Céu Azul [PR], Faxinal do Soturno [RS], Baía da Traição [PB], Sombrio [SC], Solidão [PE], Chã de Alegria [PE], Duplo Céu [SP] e Arroio dos Ratos [RS].
As internacionais:
Canadá [GO], Equador [RN], Atalanta [SC], Barcelona [RN], Flórida [PR/RS], Veneza [PE], Nova Iorque [MA], Buenos Aires [PE], Normandia [RR] e Montividéu [PB].

As que passam:
Passa Tempo [MG], Passa e Fica [RN], Passa Três [RJ], Passa Quatro [MG] , Passa Sete [RS], Passa Vinte [MG].

As que ficam:
Pendências [RN], Pindaíbas [MG] e Ressaquinha [MG]

E a ideal para almas perdidas:
Regeneração [PI].

A lista parece interminável e a cada vez que volto aos mapas, surge um nome que me surpreende. Outros desaparecem, como Ponto de Pergunta [RJ]. Devem ter achado uma resposta. O tempo passa e a cabeça da gente às vezes vira. Depois de tanto “viajar” por lugares tão pitorescos, não pretendo ir mais a Vladivostok, perdeu um pouco a graça. Muito menos quero ir a Istambul, checar a originalidade da carta de Piri Reis. Prefiro ir para um lugar que descobri recentemente. Tem mais a ver comigo: distrito de Atlas, Pará. Sim, existe mesmo. É só conferir.

Fonte: Guia 4 Rodas Estradas (2006)

 

Ilustração: Carol Custodio

 

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