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Ensaio
Literatura e Vida: traços deleuzianos
por Miguel Ângelo O. do Carmo

“A expressividade [literária] é o conteúdo de um ser” - Deleuze

A relação entre literatura e vida em Deleuze é singular. Mais do que estabelecer limites entre as duas, ele toma, pode-se dizer, uma posição outra, nem contrária, nem a favor dos limites: é preciso firmar o campo que limita tanto a literatura como a vida, mas, também, o campo no qual elas se embaralham, dialogam e tornam algo uma para a outra. Se escrever não é trazer à tona os sentimentos do escritor, sua “matéria vivida”, é porque a relação entre esses campos é muito mais do que uma simples chamada direta — é um encontro paradoxal, de expressões “informes” e “inacabamentos” processuais. No seio da vida, a literatura é a gota que derrama, o extravasamento da vida na vida, o seu refazer diário, a sua incompreensão alucinada, o seu processo incontrolável e o seu corte transversal. A vida como forma a se impor, a literatura como um informe nômade — é o devir. Essa forma, essa formalização insistente, tem a figura do homem (“a vergonha de ser um homem: haverá razão melhor para escrever?”, perguntará Deleuze), mas é a mulher, seja devir-mulher, que se furta às linhas formais.

No devir, não há reivindicação possível a um estado de coisas, não há formalização do informe. O devir da escrita se furta a materializar o vivível e o vivido. A literatura como devir, aqui, se joga para o outro lado, cortando a relação com aquilo que quer lhe fazer sua presa. Este corte gera outro, o transversal, não para separar, mas para garantir uma fenda, um espaço “entre”; e então compreendemos melhor o devir, a sua insistência silenciosa em seu nomadismo: “Devir não é atingir uma forma (identificação, imitação, Mimese), mas encontra a zona de vizinhança, de indiscernibilidade ou de indiferenciação tal que não seja possível distinguir-se de uma mulher, de um animal ou de uma molécula: não imprecisos nem gerais, mas imprevistos, não-preexistentes, tanto menos determinados numa forma quanto se singularizam numa população”. Repito com Deleuze: o devir é a fuga a qualquer formalização. No pensamento, um desvio da representação, da imagem que se pretende fundadora do real, pois ela é o real; na literatura, uma esquiva das regras preconcebidas da escrita, o colocar-se ao lado perante os discursos que valem por querer valer. “Zona de vizinhança”, “entre-dois”, “ser indiscernível”. Aqui não temos determinação de pensamentos, temos uma língua gaguejante. Se o estado de coisas tem vida, será aquela pelas mutações fabricadas nas zonas de vizinhança. O gaguejar é criativo e o devir é um desvio.

Esse desvio e gaguejar, na enunciação literária, apresentam-se no indefinido; não há possessividade da linguagem, a neutralidade do seu ser é a todo momento requisitada, o “Eu” da linguagem é uma ilusão inexistente, primeira e segunda pessoa são riscados do mapa e “nós” aparece como neutralidade aberta. A condição da enunciação literária é a sua neutralidade, ou seja, a sua singularidade, realização sine qua non da zona de vizinhança, na qual a individuação dos personagens os destitui da imprecisão e generalidade. A individuação, singularização, trabalha a “potência do indefinido”: um entre outros. Singularizar é descaracterizar a necessidade da língua em firmar identidades; individuar um personagem em uma obra literária para Deleuze é elevar a potência do mesmo como uma dentre outras. A fabulação da escrita “não consiste em imaginar nem em projetar um eu”, mas em criar a diferença a partir da repetição — é sempre o mesmo desvio para outro desvio.

Como definir uma literatura do indefinido? Comecemos pela medicina (“Um dia talvez saberão que não havia arte, mas apenas medicina”, diz Le Clézio, autor admirado por Deleuze), pois aqui, neste indefinido, ela é saúde, uma “frágil saúde irresistível”, contra uma “gorda saúde dominante”. A saúde dada pela literatura é um processo que faz o escritor ver e ouvir demais, abertura para a vida que esgota a própria vida. A saúde frágil do escritor é a prova de uma visão grande demais, e quando a doença lhe ataca é porque encontrou no mundo “o conjunto dos sintomas cuja doença se confunde com o homem”. Para além, escritores, para além!

Trazer uma saúde como literatura tem suas conseqüências. Aqui, a escrita, antes de tudo, deve ter uma tarefa: a “invenção de um povo”; segundo, se colocará como “agenciamento coletivo de enunciação”; e, por fim, firmar, pela saúde, uma “possibilidade de vida”. Retomemos cada um desses itens. Inventar um povo na literatura em devir é o reconhecimento de toda uma universalidade em uma singularidade, a representação de um povo expressa em uma única personagem; o escritor, em seus traços, deve trazer à luz todo um modo universal de ser, presente na cultura e ânsias de um povo. As histórias de um povo serão as histórias de um dado personagem. Mas tais histórias devem ser contadas e ser a expressão literária uníssona de um povo; é preciso agenciar coletivamente a enunciação de um povo, nem que seja por um agente singular. Então nos encontramos na forma máxima da criação literária: o delírio de possibilitar vidas, a retomada de uma saúde que provoca vida, a escrita que desenha, “por um povo que falta”, a intenção e não o lugar da sua existência.

Pois bem, a regra é esta: burilar a língua, sua sintaxe, relançá-la aos confins de um ato criador — a invenção da escrita passa pela própria escrita, pela estrutura na qual ela é formulada e tingida por sentidos. “Não há criação de palavras, não há neologismos que valham fora dos efeitos de sintaxe nos quais se desenvolvem”, tomemos essa “regra” da criação. Mas a criação traz não só uma “língua estrangeira” como audições e visões — o caminho trafegado no terreno da criação literária, no desvio da linguagem enquanto ser nômade, remete o escritor às Idéias, ou seja, a todo um movimento da vida na linguagem, a tudo aquilo que nos diz, nos “interstícios da linguagem”, que “há algo a mais”. Temos então a tripla tarefa do escritor, uma sendo conseqüência da outra: destruição da língua materna, criação da língua estrangeira e a posição do escritor como “vidente e ouvidor”. Feito isso, pela escrita e na escrita, “torna-se outra coisa que não escritor” — torna-se uma possibilidade de vida.

Literatura e vida se figuram em um abraço intenso, caloroso e sem intenção de não relações. O traço já não é mais a representação estruturada e lógica dos meus sentimentos colocados passo a passo, nem a expressão dos mesmos nessa logicidade da língua; ao contrário, a construção de um acontecimento sem morada, sem assentamentos identitários e nenhuma forma de rosto. A escrita sem traços definíveis, mas com traços que percorrem a folha, que se fazem no fazer das suas vidas. Tudo está por vir.

Ilustração: Carol Custodio

 

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