
Ensaio
Mrs. Dolloway e Meu Amigo Marcel Proust
por Fernanda Mota Pereira
O PAPEL DA MEMÓRIA NAS (RE)CONFIGURAÇÕES DO SUJEITO
Escritos no começo e final do século XX, Mrs. Dalloway (1925) e Meu amigo Marcel Proust Romance (1997) são narrativas que representam a emergência da memória para os contextos em que foram escritas. Tal emergência se justifica porque ambos os romances indicam a necessidade dos sujeitos de revisitarem o passado a fim de entenderem a si diante das transitoriedades, inclusive de suas subjetividades, em uma era em que à singularização do desenho impôs-se a automatização e rapidez da fotografia.
Como se (re)conhecer, então, diante de um cenário marcado pela efemeridade? Talvez pelo jogo especular nos labirintos da memória, nos quais o sujeito se vê apenas para reconhecer suas múltiplas faces.
Mrs. Dalloway
Sobre a capa do romance de Mrs. Woolf, publicado em 1925, o título Mrs. Dalloway sugere o tema da narrativa: a vida de Mrs. Dalloway. As primeiras páginas do romance apresentam-na num presente no qual, ao ouvir um som familiar, o “ringir dos gonzos”, é reportada, por um túnel do tempo, a uma cena do passado, vivida aos seus dezoito anos, quando ainda era apenas Clarissa. Tal processo, traduzido em estratégia narrativa, foi denominado pela própria Virginia Woolf como “tunelling process”. Nesta composição narrativa que se configura como uma espiral, a passagem da atmosfera na qual vive para aquela em que outrora vivera resvala-se por duas frases exclamativas, sutilmente, interligadas. E é a própria exclamação, o suspiro por aquela manhã, que a transporta ao “frêmito”, ao “mergulho” vivenciado em Bourton.
A narrativa acompanha as rememorações de Mrs. Dalloway, ao mesmo tempo em que justapõe a elas reflexões sobre o momento em que vive. Nisto depreende-se a simultaneidade que o narrador imprime, reforçada ao ser transferida a voz do narrador para Mrs. Dalloway. Ressalta-se que, na transferência da voz narrativa para a própria personagem, uma alteridade se estabelece entre Mrs. Dalloway e Clarissa, cuja história é contada. Esta alteridade, estabelecida entre o eu do presente e o do passado, advém das rememorações que levam a personagem a não mais se reconhecer como Clarissa, por ser apenas Mrs. Dalloway.
As páginas seguintes narram um dia na vida desta mulher. Um dia através do qual, pelos entrelaces do tempo, toda a sua vida será revisitada através de uma escrita delineada em seu bloco mágico , entre as badaladas do Big Ben. Badaladas que sinalizam as obrigações para com a recepção que está a preparar e as digressões motivadas pelos instantes que singulariza.
A singularização é, então, o processo imposto por Mrs. Woolf, através de um olhar sensível às sutilezas da vida e de rememorações que adensam a narrativa, suplementando um pano de fundo a atos aparentemente banais. Densidade facilmente identificada por escrever um romance sobre um único dia na vida de uma mulher. Pois se é numa frase nominal que se resume esta narrativa, é neste dia que Mrs. Woolf fala sobre a vida de outros personagens, da sociedade inglesa devastada pela guerra, do esmaecimento dos afetos, das instituições monumentais, configurando um memorial cultural, porque subjetivo, sobre seu tempo.
No tocante ao tempo, ao avançar algumas páginas do romance, entra-se no ritmo pendular – e este termo não é gratuito – da conversa entre Mrs. Dalloway e Peter Walsh. Para entender o movimento do pêndulo que ritma o diálogo destas duas personagens, é imprescindível mencionar a relação de Mrs. Dalloway com Peter e seus desdobramentos. Peter Walsh é o ex-namorado de Mrs. Dalloway com quem conviveu quando ainda morava em Bourton. Os dois iam se casar e um dos grandes pesares de Peter foi a não consolidação deste matrimônio, e uma das grandes angústias de Mrs. Dalloway é tentar meios de justificar que não teria sido mais feliz se tivesse escolhido Peter a Richard Dalloway.
O arrependimento da escolha por Richard e a reconfiguração de Clarissa em “apenas” Mrs. Dalloway – e é ela quem afirma ter se tornado “apenas” Mrs. Dalloway –, são, certamente, os dois motivos, ao lado da guerra, que imprimem, a um romance escrito sob o tempo da memória, um tempo linear, iconizado pelo Big Ben, que reforça a passagem imperiosa do tempo. A continuação do diálogo demonstra um outro aspecto deste movimento pendular da narrativa, que oscila entre o eu que relembra e o eu relembrado, demonstrando como o sujeito pode olhar, através da memória, as passagens que permitiram a (re)configuração do que este é ou se torna.
A ditadura do tempo linear , ou tempo das perdas, então, se presentifica e leva Mrs. Dalloway a se perguntar: “Por que voltar assim ao passado?”, pois de que adiantaria a ele voltar se é impossível modificar o relógio? Pelas rememorações acionadas enquanto conversa com Peter, a protagonista ratifica a alteridade que se estabeleceu entre Clarissa e Mrs. Dalloway. Neste ponto, a pergunta que ela faz: “Por que voltar assim ao passado?” pode ser respondida pela própria coesão que ela tenta estabelecer entre Clarissa e Mrs. Dalloway. Coesão, que traduz a ânsia do sujeito moderno em buscar uma unidade mesmo sabendo-a perdida, a despeito da retroatividade da memória, e por causa da linearidade do tempo teleológico.
— Não te lembras do lago? [...] Pois ela era uma menina, que arrojava pão aos patos, na companhia dos pais, e ao mesmo tempo uma mulher que se dirigia para os seus pais junto ao lago, carregando nos braços a própria vida, que ia crescendo à medida que se lhes aproximava, até se tornar uma vida inteira, uma vida completa, que ela pôs ante eles, dizendo : “Foi isto o que eu fiz da minha vida! Isto!” E que havia feito? Que havia feito dela, afinal? Pensava, cosendo ali, junto a Peter. (WOOLF, 1980, p. 44)
Este trecho do romance é emblemático para demonstrar como, através do tempo da memória, é possível mapear por um ritmo (h)ora pendular, (h)ora subjetivamente enviesado, os traços que contribuem para a (re)configuração da identidade do sujeito, mesmo quando perpassado pelo tempo das perdas. Pois não é a partir do processo de rememoração – do tempo da memória – que são revisados momentos crucias que permitiram a constituição das mais diversas “vi(n)das” do ser? O trecho transcrito em que a protagonista reconhece que não fez da vida o que queria pode ser uma resposta.
Talvez o pesar sentido por Mrs. Dalloway sobre o que se tornou seja convertido em suas constantes celebrações à vida. Uma tentativa de mostrar a todos e a si mesma, que aceita a passagem dos anos – afinal, a festa não é uma celebração de passagens, do momento, e, portanto, do próprio tempo? Entretanto, a personagem que celebra o tempo, a vida, é a mesma que teme esta mudança dos anos e lê “apenas memórias”. Leituras que dizem muito da própria condição da personagem por estar arraigada ao passado, pois a literatura que se lê é sempre uma tradução do que se sente.
Assim, afirma-se, respaldado por Mrs. Dalloway, que o sujeito revisita os traços que contribuíram para sua (re)configuração através da memória e que a literatura é, assim como a memória, uma forma de rever-se, ainda quando se está lendo o outro, pois neste outro, num jogo pendular, volta-se sempre a si mesmo.
Meu amigo Marcel Proust Romance
Em um contexto pós-moderno, perpassado pelos meios de comunicação de massa e a sociedade de consumo, a autora Judith Grossmann se dirige ao shopping para escrever o Seu amigo Marcel Proust. Relendo Proust, a autora transfere para o Shopping, os salões proustianos e o que empreende é uma narrativa que possibilita “uma continuidade de caminho”. Continuidade que amalgama a descontinuidade, pois embora sejam observados traços comuns com a narrativa proustiana, a exemplo da singularização que imprime sobre o cenário por onde transita, a autora impõe uma descontinuidade, ao subverter em pulsão criativa o pesar que uma personagem inserida na modernidade, a exemplo de Mrs. Dalloway e Swann, apresenta ao ponderar sobre a efemeridade do tempo.
Assim, em Meu amigo..., a despeito da narrativa proustiana e woolfiana, ao invés de lamentar a inexistência dos salões, a narradora os transfere para o seio da sociedade de consumo; faz da literatura escuta, diante da falta de interlocução; transforma objetos de consumo em arte e, com isso, sinaliza que esta pode ser encontrada no cotidiano, subvertendo a própria automatização deste, bastando, para isso, ter um olhar atento para ver as cores, traços e formas sutilmente pintados na vida.
Entre olhar o outro, como um flâneur baudelairiano, e ler a si mesma, em suas “vi(n)das”, a narradora Fulana Fulana escreve seu “conto de fadas pós-moderno”. Um conto de fadas sobre o seu amor por Victor e pela literatura, delineado como um memorial do seu amor, da literatura amorosa e do seu tempo. Memorial composto por fios que, ao serem puxados, desenovelam fios outros que deste memorial fazem parte, através de digressões. Assim, cada momento que a narradora vive a remete a uma situação do passado ou a uma leitura, permitindo um redimensionamento da sua história entre narrativas amorosas como a de Tereza D’Ávila e Juana Inés de la Cruz, singularizando-a.
O processo de singularização é empreendido, portanto, ao narrar suas vi(n)das, permeadas de digressões, não raro buscando em heróis e heroínas os ecos da sua paixão, demonstrando com isso a sua vivência com a literatura, que sinaliza uma experiência não só enquanto ato de leitura do outro, mas também de si. E, neste sentido, a sua própria escrita será uma forma de, posteriormente, reler-se, pois a escrita “arquiva”, em um sentido derridiano, cada instante para que, posteriormente, seja refletido.
Os enlaces do tempo não se encerram, contudo, apenas no plano da narração, estendendo-se às ações que ele pode ter sobre o amor. Ações que se estendem à constituição dos amantes.
Eu mudei, em pouco tempo sofri transformações profundas, não posso mais voltar ao que era. E também ele mudou. Uma certa ferocidade, pelo menos comigo, se extinguiu. E uma certa artificialidade foi substituída por uma naturalidade que eu, com meus gestos, ajudei a construir. [...] (GROSSMANN, 1997, p.75)
Ressalta-se que as transições do sujeito não desafinam em relação ao cenário pós-moderno em que se insere (o shopping e um hotel). Entretanto, é ainda nestes cenários, representantes-mor da transitoriedade, que a narradora decide contar sua história, sua mitologia, “vi(n)das” que sinalizam uma identidade que não se reconhece una, marcada como é pela pós-modernidade, e que envolvem os estágios de aprendizagem para o amor. Estágios que levam-na a uma permanente (re)configuração de si pelos trabalhos da memória.
Ao longo dos capítulos, o que mais explicitamente permite à narradora uma revisitação de si é o capítulo “Infância”. Nele, o último, a narradora descreve a sua estadia com Victor num hotel em que eles planejam uma viagem. A partir deste projeto, diversos lugares que fazem parte de suas migrações territoriais e imaginárias são acionados, ao lado de famílias sangüíneas e literárias, mantidas em sua memória e preservadas no “Museu”, além de palavras, línguas, sons, trazidos à baila menos na tentativa de reconstituir o vivido do que de reinventá-lo e cotejá-lo ao seu presente.
Assim, através das histórias que conta a Victor, a narradora revive de forma criativa e reinventa, em devaneios, passagens da sua infância, ao pensar em objetos, lugares, palavras, (re)visitando não só a sua própria história, mas a daqueles que participam de suas genealogias: “Cada palavra que retiro desta reserva é como se fizesse viver o corpo dos que a pronunciaram.” (p.161). E, assim, ao fazer reviver o outro, a narradora também revive e redelineia-se. Afinal, como indica a leitura de Starobinski sobre Jean-Jacques Rousseau, há arbitrariedades tanto no retrato quanto no auto-retrato. Assim, há sempre algo de autobiográfico ao pintar o outro e, no auto-retrato, traços do outro sempre estão presentes, já que se para Rousseau “é impossível afirmar-se sem se narrar”, acredita-se, também, que é impossível narrar sem se afirmar.
A relação entre o narrar e o auto-afirmar-se encontra ressonâncias na história de Ester contada pela avó da narradora de Meu amigo..., que a reconta como se fosse autobiográfica.
Um vez, era uma festa e sempre houve mesas enormes naquelas famílias cheias de louças, linhos [...] era uma casa na praia e era verão, e comecei a contar sem que me desse conta a história de Ester aos primos [...] quando acabei, vi o rosto de minha tia Berta, como uma lua sobre o mar, admirada de mim, [...] e então ela disse ... eu nunca ouvi ninguém contar de um modo tão bonito ... [...] então me dei conta de que devia salvar aquele momento no tempo, porque já não se tratava da história de Ester, mas de minha história, que ela me entregava como um enorme presente-padárok, para que eu nunca me esquecesse dos meus inícios [...] (GROSSMANN, 1997, p. 169-170)
A história de Ester pode ser entendida como um ponto a partir do qual a narradora teoriza sobre o ato de escrever e, didaticamente, reitera o que disse em sua nota ao leitor, a saber, que neste texto é possível encontrar-se “por inteiro”. Afinal, na literatura sempre é possível encontrar ecos do que já se viveu, porque se ela é uma forma de aprendizagem para aquele que a escreve, é também aprendizagem para aqueles que se deixam envolver em seus signos. E, se ela é a memória daquele que a produz, é também memória para aquele que a lê e em cujo bloco mágico são deixadas as impressões de leituras sempre do outro, sempre de si.
* Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Letras e Lingüística, UFBA.
Ilustração: Carol Custodio
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Carol Custodio, 28 anos
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