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Entrevista
Arthur Dapieve
por Lima Trindade

Arthur Dapieve (1963), jornalista e crítico musical brasileiro. Atualmente trabalha para o jornal O Globo. Nascido no Rio de Janeiro, ele já foi repórter, redator, subeditor e editor do Jornal do Brasil (Caderno de Idéias e B, da revista Veja Rio e do jornal O Globo (Rioshow, Opinião, etc) Também colunista do site No Mínimo, é professor de jornalismo na PUC-Rio. Ele escreveu a biografia Renato Russo - O Trovador Solitário em 1999, sendo relançada agora pela Ediouro. Escreveu também recentemente o romance De Cada Amor Tu Herdarás Só O Cinismo.

Lima Trindade – Esta nova edição de “Renato Russo, o trovador solitário” traz algum acréscimo em relação à edição anterior?

Arthur Dapieve - Traz, sim. Um prefácio, que incorpora algumas histórias ocorridas em torno do livro depois da edição de 2000. O grosso do texto permanece o mesmo, a não ser por pequenos ajustes em números e datas. Atualizei também a cronologia e a discografia. Mas acho que o grande ganho desta nova edição é o melhor e maior uso de fotos, muitas inéditas, da família Manfredini, do Flávio Colker, do Maurício Valladares.

LT – Um dos grandes méritos do livro, a meu ver, foi esclarecer a questão da morte de Renato, sua dificuldade de alimentação, decorrente do uso de drogas no passado e uma não adaptação plena ao coquetel, quando a maioria das pessoas falava de um provável suicídio do cantor. Inclusive, numa entrevista recente, Dado fala que a morte de Renato foi uma surpresa para ele e para o Bonfá. Foi fácil chegar a esta conclusão? Você conviveu com o Renato nessa fase tão complicada da vida dele?

AD - Obrigado. Não, não convivi, como, a rigor, também não convivi em outras. Nossos caminhos se cruzaram apenas em entrevistas e shows. Daí eu ter somente algumas informações indiretas sobre o estado geral de saúde do Renato. Mas enquanto ele esteve vivo eu nunca soube, por exemplo, que ele tinha Aids. O segredo foi mantido pelas pessoas mais próximas. Foram elas que, depois, me ajudaram a entender que o Renato não se matou, de forma alguma, e sim foi vítima de uma combinação de circunstâncias terríveis: depressão, anorexia, problemas gástricos. Claro que o mito do poeta romântico que se entrega à morte é tentador, mas não foi isso que aconteceu...

LT – E quanto à depressão? De que modo a solidão influiu para agravá-la? Amigos dele de Brasília costumam dizer que Renato foi “vampirizado” por gente que queria se aproveitar da fama dele no Rio. Mas, sempre me pergunto se o fato dele ter se assumido gay e ter se tornado mais militante não foi determinante para um afastamento por parte da antiga “turma”...

AD - A solidão era o principal fator para a depressão dele. A idéia de que fazia amor com 30 mil pessoas num show e depois ia para casa sozinho era esmagadora e recorrente nas conversas. O Renato nunca foi, mesmo muito doente, pessoa de se deixar vampirizar. O gênio forte conduziu até mesmo a “cerimônia do adeus”. Não creio que tenha sido apenas ele ter se assumido gay, mas também o fato de ele ter ficado distante da antiga turma, mas ter criado uma nova, com elementos da antiga. As pessoas podem ser incrivelmente sensíveis a algo que é da vida: amizades se estreitam e se afastam, o tempo todo, ainda mais separadas por mil e tantos quilômetros.

LT – A seu ver, qual a maior contribuição de Renato e da Legião para os dias de hoje?

AD - Acho que o que explica a perenidade da obra deles é a busca pela honestidade absoluta, na relação com os fãs, na abordagem de temas espinhosas nas letras, sejam políticas ou amorosas. Honestidade, como se sabe, é artigo raro no Brasil. Então, as pessoas ainda se voltam para a Legião Urbana atrás de coerência, sinceridade, confiança. É como se a música da banda continuasse a dizer “força sempre”.

LT – O que acha das releituras que fazem em torno do ídolo (a peça de teatro e os filmes)? Assistiu “Cazuza”? Gostou?

AD - Gostei da peça de teatro. O Bruce Gomlevsky soube se aproximar do personagem com respeito e sensibilidade. Há momentos em que a gente quase esquece que está diante de um ator, tal a incorporação. Dos filmes previstos, não sei quase nada. Vi “Cazuza”, sim, mas só tive coragem de ver na TV porque pressentindo que me decepcionaria. Entretanto, vi um desempenho extraordinário do Daniel de Oliveira, só que num roteiro constrangedor, de diálogos e situações totalmente inverossímeis. Lembrei do Oliver Stone, que transformou o Jim Morrison num chato.

LT – E quanto à questão do legado de Renato e da Legião? Não é um absurdo que seus clipes e shows não tenham saído em DVD? Acompanha a peleja entre familiares e banda? Gostaria de emitir alguma opinião?

AD - Banda e família têm visões diferentes sobre o que fazer do legado artístico. Cada qual tem lá seus motivos. Dado e Bonfá querem, como participantes que foram, manter o controle artístico que a Legião Urbana sempre manteve sobre o seu trabalho enquanto o Renato estava vivo. Muito justo. A família pensa na preservação da memória pessoal do ídolo. Faz sentido. Como sei de todos os motivos, respeito ambos.

LT – Você chegou a declarar que o Rock, enquanto forma, se esgotou. Continua pensando assim? Nenhuma banda ou artista novo chegou a lhe entusiasmar?

AD - Continuo. A fronteira do rock, hoje, ainda é o Radiohead, que não é mais novidade e muitas vezes não é mais rock. Isto não significa, entretanto, que bandas novas não me entusiasmem. Sei, porém, que elas não reinventam essa roda rodada. Nomes? Arcade Fire, Raconteurs, The Dears, Tears... No Brasil, Moptop, Brasov, Netunos.

LT – O seu esforço para uma leitura historiográfica do Rock no Brasil tem sido notável. Nunca passou pela cabeça ampliar o material do livro “BRock – o rock brasileiro dos anos 80? Ainda mais com essa onda de revival e influências dos anos 80?

AD - Mais uma vez, obrigado. Não, nunca passou. Porque aquele livro é para ser lido como uma reportagem, feita no calor do momento, com seus erros e acertos. Tenho alergia a qualquer tipo de nostalgia. Eu odiava aqueles caras que, na década de 80, viviam suspirando pelos Beatles. Acho até que é muito limitador dizer que certas bandas são dos anos 80, só. E os Paralamas? E os Titãs? E o Frejat? Pararam de produzir?! Não.

LT – Ouviu o “Cê”, de Caetano? Não acha tola a discussão se o disco é rock ou MPB?

AD - Ouvi. Gostei bastante, é disco muito corajoso, ainda mais para um sujeito que já nem precisava arriscar tanto. A discussão é velha e preconceituosa, mas certamente este é um dos periódicos discos roqueiros do Caetano, no qual a influência e o fascínio pelas bandas com guitarras preponderam. Mas, afinal, o que era a Tropicália? Aliás, descanse em paz, Rogério Duprat.

LT – Gostaria que falasse sobre seu romance. Como foi a acolhida do público e da crítica?

AD - Ambas foram boas. Gostei, sobretudo, porque muita gente veio me falar que sofreu com o livro, como se os personagens fossem reais. A idéia era essa. Daí usar tantas referências reais (botequins, garçons, shows, jogos de futebol) como moldura. Assim, eu daria mais credibilidade à história prototípica do cara maduro que se apaixona pela guria petulante. Deve haver uma dúzia de livros, ao menos, sobre isso, sem falar nos filmes, tipo “Encontros e desencontros”, da Sofia Coppola. Tornar esta trama real, mas não clichê, era o desafio, e acho que fui bem-sucedido a julgar pelas reações.

LT – E quanto à divulgação? Ficou satisfeito? As revistas e jornais de cultura que trabalham com música e literatura deram bom espaço?

AD - Como jornalista, acho desconfortável avaliar o espaço que colegas jornalistas deram ou não deram ao livro. Eles agiram de acordo com suas avaliações. Quanto edito, faço o mesmo. Não tenho, portanto, do que me queixar, a despeito de algumas frustrações.

LT – O fato de ser jornalista e manter uma coluna em jornal facilita o processo de escrita de projetos mais longos ou dificulta?

AD - Bem, mesmo para quem, como eu, tem uma coluna semanal, facilita e dificulta. Facilita porque você é obrigado a exercitar a escrita regularmente, estando inspirado ou não. Sabe aquele papo do 99% de transpiração e 1% de inspiração? Pois é. E dificulta porque a gente nunca consegue se dedicar 100% a um livro, que praticamente pede a dedicação full time. É como se o livro fosse um caso extraconjugal e o jornalismo, o casamento. Adoraria, sinceramente, que fosse o contrário.

LT – E trabalhar com televisão? Como é fazer o “Sem Controle” com o Marcelo Madureira? A brincadeira em torno do “politicamente incorreto” serve para exorcizar a caretice da televisão brasileira? Tenho a impressão que o Dapieve do programa é bem diferente do Dapieve jornalista, acadêmico e escritor... Estou certo ou não existe essa compartimentalização (risos)?

AD - Só faço televisão porque faço ao lado de um amigo de mais de dez anos, o Marcelo. Não é minha praia e não tenho projetos a longo prazo nisso. Só me divirto fazendo. Sim, o tom do programa, machista pra caramba, no meio de um canal que busca o universo feminino, é para ser politicamente incorreto mesmo num meio muito careta, muito temente ao ibope. Sou até mais politicamente incorreto do que mostro ali, mas tenho de contrabalançar o Marcelo! Nisso, você tem razão: procuro não misturar inteiramente as personas. Todas, no entanto, são partes de mim. É uma espécie de esquizofrenia criativa, se é que essa expressão não é um pleonasmo...

LT – É possível se ensinar escrita criativa? Como é sua experiência em sala de aula? Produtiva?

AD - Não. Na faculdade, a gente consegue ajudar o aluno a redigir corretamente do ponto de vista jornalístico. A criatividade é dele e ninguém tasca. Mas dá para plantar minhocas na cabeça deles, apresentando-os a um Gay Talese, um E.B. White... Nas aulas, acho produtivo, sim. Dá um prazer danado ver a pessoa se aperfeiçoando num período de meros três meses e meio. Na mesma medida, frustra quando você nota que a pessoa já bateu com a cabeça no seu próprio teto.

LT – Para fechar, tem novos projetos em vista? Podemos aguardar novos romances e pesquisas para breve?

AD - Sim, tenho. Adaptei minha dissertação de mestrado, sobre o modo como o jornalismo impresso trata o noticiário de suicídio, para publicação pela Zahar, ano que vem. Antes de pesquisar, eu achava que a morte voluntária era calada. Depois, descobri que ela não é calada, mas é soterrada por eufemismos e condenações subliminares. Isto é, exatamente do mesmo modo que a nossa sociedade trata a questão... Além disso, comecei a escrever, se tudo der certo, para publicação também no ano que vem, um segundo romance, novamente para a Objetiva, como “De cada amor tu herdarás só o cinismo”.

 

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