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Entrevista
Nei Lopes
por João Carlos Rodrigues

Nei Lopes nasceu em Irajá, subúrbio carioca, em 1942. Formado em Direito, destacou-se profissionalmente como compositor de sambas memoráveis (como Senhora liberdade, Goiabada Cascão, Coisa da antiga), imortalizados por intérpretes populares como Alcione, Clara Nunes, Elizeth Cardoso, Beth Carvalho, Zeca Pagodinho e Marlene. Foi membro da Ala dos Compositores da Escola de Samba do Salgueiro. Entre seus parceiros destacam-se Wilson Moreira, João Nogueira, Maurício Tapajós, Guinga, Fátima Guedes, Moacir Santos e Ed Motta. É também intérprete e showman de muitas qualidades, além de poeta. Como ensaísta e pesquisador, publicou Bantos, malês e identidade negra, O negro no Rio de Janeiro e sua tradição musical, Novo dicionário banto do Brasil, Enciclopédia brasileira da diáspora africana, Kitábu: o livro do saber e do espírito negro-africano, entre outros. Acaba de publicar seu terceiro livro de ficção, 20 contos e uns trocados, pela Editora Record.

João Carlos Rodrigues – Você é sambista, cantor, escreve ensaios e enciclopédias, desenha, faz poesia, escreve contos e desconfio que ainda é pai de santo. Tudo muito bem. Teve alguma formação artística?

Nei Lopes – É tudo de orelhada. Iniciação, mesmo, só espiritual. Mas não sou pai-de-santo...

JCR – Até que ponto a sua prosa de ficção se integra com a poesia das suas músicas, e também com os seus poemas não musicados?

NL – Acho que, como é tudo fruto de uma mesma intensa vivência (negritude, carioquice, suburbanidade), acho que tudo vai se integrando mesmo, uma coisa acabando na outra.

JCR – Seu primeiro livro de ficção, Casos crioulos, é de 87, e o último 20 contos e uns trocados, saiu no mês passado. Nesses 20 anos, o que mudou na sua ficção, e o que ainda continua válido?

NL – Acho que não mudou muita coisa, não. É que agora eu resolvi mexer um pouco com o lado da miséria, da tragédia, o que eu não fazia antes. Mas o humor permanece. Isso é meu e ninguém tasca.

JCR – “20 contos” conta histórias de negros do subúrbio carioca. Elas são inspiradas em pessoas reais ou “qualquer semelhança é mera coincidência”?

NL – Qualquer ficção sobre a minha realidade é mera coincidência. Eu não acredito em personagens nascidos do nada. Acho que todo ficcionista pega um pouquinho de realidade aqui, outro pouquinho ali e vai construindo ambientes, fatos, pessoas...

JCR – Já existe um mundo ficcional neilopesiano, como existe um machadiano e um nelsonrodriguiano, só pra falar do universo carioca?

NL – Eu acho que eu tenho um jeito meu, sim. Mas não tenho a pretensão de dizer que fundei uma escola. Meu diferencial é que eu não tenho nenhuma vontade de morar em Paris ou no Jardim Botânico, de ir a Nova Iorque, de “freqüentar o circuito cultural”. E isso é sincero. Os países do exterior que conheço são os que me interessam: Angola, Senegal, Cuba, onde já fui três vezes...Sou um crioulo do Terceiro Mundo. E gosto. Veja você, morei anos em Vila Isabel, me cansei e vim morar em Seropédica, que é no meio do mato. Daqui só saio pra defender uns trocados, quando é preciso.

JCR – Alguns escritores escrevem e reescrevem exaustivamente seus textos. Outros agem por inspiração, de uma vez só. Uns escrevem de manhã, outros de noite, ou mesmo de madrugada. Uns ouvindo música, outros em silêncio total. Existem também os que quando sentam no computador têm a história feita, outros vão mudando durante o processo de escrever. Fale do seu método de trabalho como contista.

NL – Não tenho muito método, não. Mas agora o que eu tenho feito é meio cinema: faço sinopse, e argumento, depois escrevo as cenas e por fim edito. Mas isso depende da extensão que pretendo para o texto. Às vezes, tendo já um bom fecho, a coisa rola direto. E isso é em horário mais que integral, porque me organizo pra fazer de cabo a rabo, executando cada projeto pro-fis-sio-nal-me-nte.

JCR – Como ficcionista você teve influência de algum outro autor? Qual?

NL – Eu leio de tudo. E os escritores que eu leio, mesmo, com muito prazer, são García Márquez, Eça de Queiroz, Lima Barreto, Marques Rebelo; alguns americanos traduzidos como Gordon Parks, Richard Wright, Maya Angelou; angolanos como Manuel Ruy e Uanhenga Xitu; latinoamericanos como Vargas Llosa e Lisandro Otero... É uma misturada. Então, não sei dizer de um, só, que me tenha influenciado. Se eu pudesse, eu gostaria de ser “influenciado” pelo García Márquez. Esse é demais!

JCR – Alguns grandes escritores nacionais foram negros ou mulatos, a começar pelo trio dos grandes cronistas do Rio de Janeiro da Belle-époque : Machado de Assis, Lima Barreto e João do Rio. Gostaria de saber sua opinião sobre eles.

NL – Machado de Assis, tremendamente técnico, me dá um pouco de sono; o Lima é um dos meus, principalmente no Policarpo Quaresma; e o João do Rio, apesar do francesismo, é muito bom de ler também.

JCR – O Aldir Blanc também é compositor e escreve contos. O Orestes Barbosa também escreveu. Existe alguma afinidade entre a obra deles e a sua?

NL – O meu amigo Aldir tem um band-aid no calcanhar; e o Orestes pisava nos astros distraído. E eu só não uso mais chinelo “charlote” e sapato de salto “carrapeta” por causa dos joanetes. Mas já usei.

JCR – No Brasil, não tivemos, como em Cuba e outras ilhas do Caribe, uma literatura negra ou inspirada pela cultura negra. Nos anos 30, Jorge de Lima reproduziu em Quatro poemas negros o ritmo dos atabaques, a exemplo do cubano Nicolas Guillén, mas não teve muitos seguidores. Você conhece outros exemplos? Caso não conheça, por que esse tipo de literatura não vingou entre nós?

NL – Existe uma publicação feita em São Paulo, em forma de antologia anual, alternando verso e prosa, chamada “Cadernos Negros”, que já está no número 29, ou seja, é editada há 29 anos. Essa publicação é importantíssima como expressão da literatura afro-brasileira contemporânea. Mas, por problemas de mercado, ou por ser uma literatura eminentemente de combate ao racismo, quase ninguém conhece. Quanto a essa poesia “negrista” a que você se refere, no Brasil ela foi monopolizada por poetas modernistas não negros, como Raul Bopp etc. Jorge de Lima, que era mulato mas não queria ser, também fez muito, enquanto foi moda, mas depois entrou numa de “era um cavalo todo feito em plumas”. Acho que esse tipo de poesia não vingou aqui porque era artificial. Em Cuba e no Haiti, a negrada criou uma língua falada só sua. E a usou na escrita. Aqui, o racismo e as vãs guardas não deixaram florescer uma poesia espontaneamente batucada...

JCR – Eu sei que você está finalizando uma espécie de dicionário de personagens negros na literatura nacional. Fale de algumas coisas incríveis que você descobriu pesquisando.

NL – O Dicionário Literário Afro-brasileiro já está pronto e numa editora. E o que mais me chamou a atenção na pesquisa foi ver que os estereótipos através dos quais os personagens negros sempre foram vistos e criados na Literatura brasileira como um todo, permanecem até hoje. Sem falar que a teledramaturgia, também focalizada no livro, é um prato cheio disso.

JCR – E o seu romance sobre a Pequena África? Já pode nos adiantar alguma coisa?

NL – Está indo, está indo. Estou tentando criar uma “verdade” minha, em cima de personagens que realmente existiram, mas que a gente não sabe direito o que fizeram. Você imagina a tia mais famosa da Praça Onze recebendo, no fim da vida, uma revelação e se dedicando a servir piedosamente a Deus, clemente e misericordioso? É por aí que o fio da meada está correndo...

 

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