
Colunas: EROS ERRANTE
Manifesto Antinaturista
por Marcus Vinícius Rodrigues
Quero fazer um manifesto antinaturista, um libelo libertário contra a marcha dos intolerantes sobre as praias do mundo, estes seres capazes de se apoderar do que é do outro para exercerem sua felicidade. Felicidade? Será mesmo que são felizes este homens e mulheres que expões seus corpos flácidos à violência da natureza? Naturista? Ele se dizem amantes da natureza, buscam a harmonia com ela, querem praticar o auto-respeito e o respeito ao próximo. Por isso, fecham largas faixas de praia do litoral e impedem as pessoas de entrar. Aqui, só se tirar a roupa, diz um; aqui, só se for casado, diz outro; pelado, mas sem ser desejado, arremata um terceiro. Eles querem o império da nudez insípida, que não acrescenta ao homem. Apenas insolação e câncer de pele. Mas são apenas pequenas seitas que usurpam a propriedade pública e investem com seu pudor descarado contra a sensualidade natural do homem. Não pode ser solteiro, não pode ter desejo, não pode ser gay... e não pode ter senso estético nenhum. Natural? Ficar nu é perder toda a humanidade de ser mais do que um corpo, de ser uma idéia no azul cobalto da roupa, no vermelho carmim dos lábios; de ser maior sobre o salto, de ser mais largo e lânguido no tecido que voa na brisa do mar. Ninguém pode ser mais do que o animal castrado, que está nu e não se vê nu, que apenas aguarda a ordem do gênio da espécie a dizer acasalem-se, procriem-se, reproduzam-se, sem nem saber o que é o prazer de ser e estar com outro. Os naturistas querem ficar nus mas não querem ser visto nem desejados. Pau duro não pode. Eles não lêem Jorge Amado. Tieta diz a Leonora: Homenagem de homem é pau duro. Os naturistas homenageiam usando “proteção higiênica” quando usam assentos comuns. “Proteção higiênica”? Como se fosse higiênico expor as mazelas do tempo sobre nós aos incautos que passam. Por que os naturistas são tão feios? Ninguém quer ir a uma praia de naturismo. Ver aquilo? Pra quê? O que eu quero é ir à praia sem precisar tirar a roupa, sem precisar esconder meu desejo. É preciso desejar... sempre.
Estes homens e mulheres acima do peso e com as formas transbordando sofrem do mesmo mal de muitos grupos. Eles inventam lá uma crença sobre o mundo e querem que todo mundo aceite e passam a fechar os lugares. Querem leis que estabeleçam lugares só pra eles. Lugares públicos. É novamente a intolerância.
Se alguém quer ficar nu, que fique; mas nada de obrigar todo mundo a ficar nu, nem obrigar os homens a baixar a vista diante de uma mulher nua. A vista e o pau, hein!? Baixar a vista é fácil, quero ver baixar o pau. Só com peteleco. Os naturistas são um mal para a paisagem, são poluição... porque são feios e porque impedem o vagar do olho sobre o espetáculo do mundo com seus muros de preconceito e tabu. Baixar as vistas jamais. Abaixo os naturistas!
Eu quero meu corpo protegido do sol e da chuva com roupas cada vez mais tecnológicas. Foi pra isso que desci das árvores, foi pra isso que perdi meus pêlos no caminho da história. Quero andar ereto pela areia, digno como só um homem ereto pode ser, sem paus arrastando sem peitos arrastando, sem enterrar o desejo num buraco qualquer.
Eles dizem que naturismo não tem nada em comum com sexo. Ora, a vida tem tudo em comum com o sexo. A natureza é o lugar do sexo.
O natural é o sexo!
O natural é querer!
O natural é dizer que quer!
O natural é ser vaidoso!
O natural é usar todo o talento humano pra se proteger da natureza!
O natural é aceitar o outro como ele é!
“Proteção higiênica” tem nome: Roupa!
“Respeito ao próximo” tem nome: tolerância!
Todo mundo pode ficar nu, mas eu vou ficar vestido.
Ilustração: Carol Custodio
topo | página inicial
|