
Tribuna
Ronaldo Braga
crianças comendo luas e chorando pântanos e sóis, velhos arrotando planetas e mulheres sonhando príncipes. eu me arrastava no pesadelo do amanhecer e sorria estrelas e desejava encontrar o dia que teimava em não vir. já há alguns dias eu me contorcia em um mundo vermelho e acreditava em um sonho de morto. nuvens de meninas assexuadas sobrevoavam o meu céu e ameaçavam desabar. na casa tudo era normalidade e visivelmente embriagado eu olhava para todos os lados, buscando uma lucidez possível e naquela madrugada de cães azuis o meu estomago era um rato faminto. eu não esperava o pior e nem o melhor, eu nem esperava nada. eu esperava apenas o amanhecer degenerado, mas era a lua bêbada e a noite com suas estrelas voadoras que me acariciavam com lufadas de cortantes ventos uivantes e roxos. as cenas de antes de tudo pesavam a minha cabeça e queriam me deixar culpado, eu não xingaria deus e nem o diabo e nem o governo, eu esqueceria todos os falsos poderes e me concentraria simplesmente no meu próprio discurso de poder.loucura? lucidez extrema? voltei ao meu momento e estudei atentamente o ambiente. comecei pelas paredes que dançavam um tango e nem se importavam com o perigo de derrubar o telhado e como dançava bem tive que reconhecer. continuei a observação e os movéis completamente bêbados brigavam, e de seus corpos bichos verdes e flores saiam chorando, e sumiam nas meninas. os ratos riam de minha cara e apontavam a minha barriga. as telhas soltas rebolavam um samba cadenciado e romântico e contorcidas sensualizavam todo o ambiente. os miolos cerebrais ensaiavam uma conversa entre si e uma dor inacreditável me trouxe uma infância maldita. e um rio caudaloso tentava me levar. eu tinha que ser duro e pensei numa professora do primário, feia e arrogante, e comecei a rir e os meus risos, como uma outra pessoa, me cobravam respeito e eu sorria sangue coagulado e podia ver a rigidez imbecil de todas as professoras e professores. onde eu estava, eu queria saber e tomando mais um gole de uma bebida preta e silenciosa eu percebi. cruz sem almas. sim, cruz sem almas era onde eu me encontrava. agora eu entendia tudo e ali à minha esquerda as cruzes carregavam seus cristos em um silencio doentio. para onde foram as almas. fugiram? não suportaram tanto corpo sem cores e sem musicas? as almas lamurientas fugiram para a noite cerrada do amanhecer eterno e buscavam as meninas de outrora com seus sexos molhados e famintos. eu chorei, chorei e chorei e as cruzes e seu pesado fardo me fazia chorar e chorar. porque carregar tantos cristos? as cruzes resignadas continuava seu caminho pra lugar nenhum e eu chorava tardes inteiras com todas as arvores e babas e brigas e pedradas e muitas outras tardes. cruz sem almas eu estou preso no seu passado. na sua origem. eu estou preso em um erro de calculo em uma punição do tédio e posso ver seus agrônomos covardes e suarentos, seus falsos poetas, seus comerciantes e seus sorrisos pegajosos. cruz sem almas eu preciso de algo que me prenda no solo e me faça voar eu preciso dos caras de escorpião. uma musica bem longe eu comecei a ouvir e eram poetas de verdade que se avizinhavam e as cruzes sorriram e fugiram com seus cristos pesados e tristes. era manhã e uma poesia podia ser ouvida. e eu pude chorar uma ultima vez e ver as cruzes desaparecerem. cruz sem almas eu não choro por você.
para cruz das almas, cidade das sombras.
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