
Tribuna
Eliana Mara
Morango e chocolate na chuva reformado
Não sou punk, mas nasci na periferia. Uso gírias do meu tempo e os mais novos me olham atravessado quando falo: putz grila. Me sinto com 16 mas tenho 43 e dependendo do dia e da maquiagem, pareço ter 34. Acelerada pra compensar a falta de condições da família pobre botei uma primeira, arranquei e fiz graduação em Sergipe, mestrado em Porto Alegre e doutorado na Bahia. Trabalho com artes e com a arte da palavra. sou cantora popular, de carteirinha da OMS e tudo. Faço teatro quando tenho coragem, mas sempre fui atriz. Fiz o Curso Livre e Teatro da UFBA. Leio para me manter viva. Agora estou aprendendo a ler as palavras das plantas. O presente conto faz parte do volume Mil folhas e umas - narrativas (a ser publicado).
Então, da janela, eu vejo na pele, que chove. Outra vez. Pingos caíram no quarto. Água chegando sem avisos. Esqueceram uma janela aberta, que convidou a chuva para dentro. Molhou a cortina, molhou o papel sobre a cama. O papel sobre a cama atestava um óbito. E o corpo que segurava o papel olhava sem crer. Uma vida inteira resumida naqueles dados exatos. Véspera de acertos burocráticos, que não aguardariam o momento da dor estar acomodada. No meu corpo estranho, até sentir saudade cansava. Os movimentos necessários para chorar irritavam a garganta e o nariz. Algo que passava do limite. A cada movimento prático, uma evocação. Arrependimento, conversas insuficientes, tantos beijos sonegados. No mapa da história desse amor, eu via agora as inúmeras vezes em que poderia ter diminuído o tom de voz. As inúmeras vezes em que eu poderia ter deixado passar. Todos os momentos que eu deveria ter acolhido. Vistos em perspectiva, os momentos de ódio ou de impaciência restavam exagerados, desmedidos. Para voltar ao velório, decidi tomar outro milésimo banho. Outra roupa preta, um sapato confortável, grampos no cabelo e um agasalho. Eu sentia um frio desmesurado. Parecia que só dentro de mim fazia frio.
Antes, tudo estava sendo preparado para o jantar do Natal. Aquela correria típica não iria atrapalhar os planos de reunir a família com algum estilo. Ele me pediu o carro. Ia buscar um amigo. Estava agitado, há dias. Pela primeira vez, em dez anos, ele iria estar com o pai e a mãe juntos. Foi dele a luta para nos trazer ao lar, reconciliados. Então, o Natal poderia ser, de fato, uma celebração. O frango a ser desossado estava muito quente e fiz gestos desajeitados para acelerar o preparo. Ainda iria decorar o prato com pedaços de frutas e legumes cortados artisticamente. O interfone tocou. Antes de atender tive que limpar a mão cheia de gordura. A cozinha exalava aromas diversos. Eu, inspirada, ouvia música boa e tomava vinho tinto com o qual ia regando alguns pratos de carne. André ia passar na casa de Paulo e eles pegariam a torta, encomendada com uma semana de antecedência. A torta de morango e chocolate, preferida dos três, faria da nossa ceia uma ceia quase santa. Antes de me pedir a chave do carro me disse para abaixar a música. Fui com ele até a porta do elevador e fiquei esperando, achando sempre que ele era ainda um menino e admirada por saber que ele era tão bonito. Força do hábito, passei a mão nos cabelos dele e ouvi a reclamação de sempre. Fechei a porta, parei na varanda e pude ver em outros apartamentos algumas pessoas já arrumando a mesa. O filho havia trazido de volta algo que queríamos muito. Ele nos fez ver que era uma reaproximação desejada. Tudo agora parecia possível de ser refeito. Meus movimentos trouxeram alguns móveis novos, outros lençóis. A camisola do dia guardada sob o travesseiro. No nosso apartamento, eu e o pai de André éramos um casal buscando reajustes, trocando carinhos disfarçados. Neste pequeno intervalo, fui ao quarto, dei a toalha e um primeiro presente. O beijo rápido me fez voltar para a cozinha. Não sei dizer como tudo começou a desmoronar. Lembro com nitidez que minhas mãos estavam engorduradas. O frango desossado aguardava a decoração interrompida pelo toque do interfone. Quando percebi o começo da alucinação e desespero, já descia as escadas. Não havia tempo para esperar o elevador. Acho que estava descalça, acho que era dezembro, talvez eu estivesse com bobs na cabeça, não sei ao certo se cheguei sozinha. Sei que tive um pensamento de louca: que pena, uma torta tão bonita. A torta estava espatifada numa moita. A disposição dos dois carros e a torta espatifada na moita ao lado eram partes do típico conjunto que não entendemos ao ver um acidente de carro. A cabeça de André pendia da porta aberta, seus cabelos longos se moviam. Naquela noite de Natal, o vento chegou trazendo uma chuva e más noticias.
Ilustração: Carol Custodio
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Carol Custodio, 28 anos
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