
Tribuna
Whisner Fraga
insônia
era verdejante e íngreme a palidez e pressenti a ardência de suas cutiladas, já quase saciado de uma verve de sonhos, enquanto arrastava o sono que rascava a lâmina da hora quase obsoleta, sobressaltado me rendi aos espasmos da veia, dilacerante em seu dever de vida, e assim era porque o cansaço borrifava seu pessimismo nos homens sobrecarregados de cotidianos, chamou-me aos brados à atenção adiada, o pulso desafogado em velocidade e pânico, a epiderme suarenta desejando o alívio de uma coberta – ou de um olhar piedoso -, as pernas desengrenadas, buscassem o cansaço de uma corrida, o peito inchado pela angústia da impossibilidade de serenar o cérebro palpitante de seu dono, corri ao telefone, tamanha emergência em conversar e, aterrorizado com o corpo indomado, cogitei de repente uma morte vulcânica, algo em mim rebentava em descontrole e êxtase, haveria um tempo de avisar os amigos?, a família estaria predisposta ao inevitável?, alô, quem é?, o que eu faço?, e agora?, e agora?, qual o passo seguinte?, prostrei-me em choro e medo, dali a pouco seria uma massa vagante de desespero e não podia me defender, iminente a derrocada, levantei-me lembrando do carro e um pouco consciente do perigo, injetei acelerações no motor obediente, rumei para a pista, o som convulsivo era cuspido dos alto-falantes em decibéis elevados, decidi gritar, como se diante desse protesto alguém abandonasse os motéis, os postos, as casas noturnas pelas quais passava impaciente, e censurasse o incômodo que lhe causava, devolvendo-me, portanto, à saturação dos hábitos e, principalmente, à consciência, mas não me escutou esta pessoa, talvez diante da barreira do movimento fosse impotente a minha raiva, parei o veículo, deveria ser ali que tudo se encontrava, naquele terreno isolado em que até as plantas desistiram de vingar, pus-me a caminhar, inicialmente passos tenros e decisivos, mas depois que a aflição recobrou sua firmeza, parti em disparada e foi perto de uma ponte, ao divisar um córrego escorrendo suas águas na inevitabilidade do curso, que me sentei, os pingos de uma chuva fria insinuando o fim da contenção de um sofrimento jamais ansiado, mas presente, como a saúde antes da moléstia. vi um peixe e pareceu-me que, ao pular de sua prisão cristalina, almejasse a ousadia de um novo respirar, um oxigênio desconhecido para sacudir a sua existência molhada ou então fosse somente o choque entre duas umidades a excitá-lo e não quisesse enxugar as escamas ou aprofundar-se na aventura do suicídio, mas se mostrar grato porque dali a pouco os vaus estariam mais cheios e intuía que sua vida derivava dessa abundância, como a minha me pareceu atada ao seu exemplo. regressei ao carro e, observando os pingos salpicando o pára-brisa, torcia para que, ao escorrerem, encontrassem um caminho comum e se unissem, formando, portanto, uma gota maior, que acelerasse rumo ao capô e finalmente tombasse na terra, dissolvendo-se em poças lamacentas d´água. não somos assim?, nos juntamos para irmos mais rapidamente de encontro ao limo?, e retornando, amansados os cavalos galvanizados, entrevi as luzes delirantes de uma boate e necessitando de uma bebida para turvar o raciocínio ainda níveo, segui para lá. uma vez observando as mulheres e suas calças apertadas, saias, bustiês, baby-look, meia, sutiã, uma indústria eriçada do orgasmo e do desejo, a madrugada rija a ponto de poder lacerar qualquer estorvo, que me ocorreu novamente a proximidade da morte, o coração falhando entre uma batida e outra e por vezes desabafando em estrépitos vacilantes, e mesmo consciente que jamais ambicionei um filho, meu corpo revoltoso me contradizia e o instinto, essa incongruência biológica, queria multiplicar o meu sêmen, o sangue, a própria carne, enquanto restasse tempo, e talvez até por isso recorresse à coragem do álcool, que conversei com uma delas, em outra oportunidade eu não seria engraçado daquela forma e certamente ela não retribuiria, mas os animais sentem e exalam cheiros que contribuem com seus propósitos e foi por pouquíssimo que não cometi a imprudência de me perpetuar em uma falsa loira, que possuía, a despeito disso, ancas adequadas para o parto e peitos macios e chorumentos de boa leiteira. é quando eu escolho na sua carne aquele pedaço mais enviesado e também mais desejado e ainda, mais fétido, para daí me alojar, sumido na enfermidade de um quarto longínquo, estreitando mais seus músculos à medida que decaímos. tudo isso constrói minha imaginação e ela mesma me salva. ou o cheiro visguento da vodca apodrecendo seus olhos tortos, a maquiagem de dias, e o rebolir de suas horas cansativas. lá fora a escuridão se manchava de arrogância e aurora. se tateasse a espessura da noite corroída, incompleta, suspeitando da incerteza desse ventre escuro a envolver-me, se algo em sua natureza de esconderijo falhasse primeiro e para sempre, seria a claridade. ou quem sabe o nada rasgando essa névoa de azeviche, inserindo uma fatia de sua peçonha para contaminar de vácuo o resto de um latejamento preguiçoso, mas que ainda é vida. se comprovasse essa inexistência mesclando ao veneno a ansiedade de minha mão, demonstrando com o vestígio de meus dedos a sensação oca de suas vísceras, seria a possibilidade do fim. ou a lâmpada, holofote guiado às suas mãos, seivas indóceis respondendo à cólera da dona, palmas entulhadas de vontades de provas, a visão guiando a fé. criança que papai, um professor de ciências, hábil em interpor entre a miséria e o idealismo o granito de sua esperança, trouxe de seus laboratórios uma aranha ainda viva, espremida em um pote de vidro, o abdome enfunado de ovos, as quelíceras (naquele tempo chamaria de ferrões) inquietas mirando alvos inalcançáveis. então a vigiei, outro animalzinho seduzido por sua realidade pelosa e soturna, as pernas mirradas apoiando um corpo robusto, ambos. escapando a semelhante desvelo, nasceram sem minha testemunha. esquecidas na clausura transparente, não me atrevi a libertá-las: podiam se voltar contra mim. eu, lento demais para capturar-lhes uma ceia (as moscas ainda me ultrapassavam em agilidade), lançava inutilmente ao seu alcance o que encontrava ao meu: alface, presunto, tomate, açúcar. famintas, as crias cederam ao êxtase do instinto a sanha de suas bocas e, ignorando a delicadeza e o sabor dos alimentos que lhes atirei, avançaram rumo à mãe. passiva, concedeu ao apetite de sua prole: pernas, tronco, vida. assisti horrorizado ao ataque e, após alguns dias, finda a polpa que as manteve ágeis e monótonas, as irmãs lutaram entre si e se devoraram. seus restos ainda puderam ser aproveitados pela outra criatura, já um tanto crescida e alheia ao seu futuro (breve) de solidão. orgulhosa, entretanto. mais tarde encontrei-a morta, misturada a um pedaço de cenoura, como se no apogeu do desespero final tentasse tragar um mundo maior que o seu. desde então o medo incessante de ser engolido por meus semelhantes. que retornei ainda outra vez. em casa, refugiei-me na sacada para um outro cigarro e cerrei meus dedos na tela, que outrora evitou (acho melhor crer nisso) a queda (ou o pulo) de alguma criança, sentindo-me encarcerado, ainda fechei a porta que me levaria de volta à casa e, agora sim, completa a cadeia, impus todo o meu fôlego no estertor do grito, a minha segunda jaula construída (a primeira havia sido a cabine do automóvel), percebi também ser a claustrofobia que me aterrorizava. ainda escuridão e alheamento. a madrugada desbotando. apagava-se um derradeiro enxame de estrelas e notando a insignificância de sua luz na tarefa de nos iluminar e que no entanto o homem por vezes deseja alcançá-las, e quem sabe descobrindo-nos também, concluam sermos dois nadas latejando no cosmo, e que devamos prosseguir nossas pulsações até a descoberta do tato: os contornos são a memória dos cegos.
Ilustração: Carol Custodio
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Carol Custodio, 28 anos
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