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Colunas: VERDE
Espaços públicos: onde estão?
por Cláudia Conceição Cunha


“A tensão entre a segurança e a liberdade e, portanto, entre a comunidade e a individualidade, provavelmente nunca será resolvida e assim continuará por muito tempo; não achar a solução correta e ficar frustrado com a solução adotada não nos levará a abandonar a busca — mas a continuar tentando. Sendo humanos, não podemos realizar a esperança, nem deixar de tê-la.” - Zygmunt Bauman

Ao pensar em espaço público, logo remetemos a espaços públicos de decisão (conselhos, fóruns, comissões, etc.), que, com certeza, são espaços conquistados e que precisam cada vez mais de nossa atenção sobre como estão sendo criados, utilizados e a serviço de quem se impõem. No entanto, não é desses espaços públicos que eu estou falando. Estou falando de locais onde não é necessária a representação ou pauta definida, refiro-me a praças, ruas, parques e demais espaços nos quais convivemos com “o outro” publicamente. Ou deveria dizer “convivíamos”?

Pois é; a cada dia diminuem os espaços de convivência, os espaços de conversa (ou muitas vezes de namoro), e com eles desaparecem o “estar com o outro”, “ver o outro”, de uma forma que pode deixar conseqüências graves nas gerações que estão vindo. À medida que a convivência diminui e o individualismo aumenta torna-se mais difícil o reconhecimento com e no outro, essencial para uma formação identitária.

Nas grandes cidades estes espaços estão sendo trazidos para dentro dos shoppings centers com seus portões, sua segurança (mais anunciada do que real), e, obviamente, para mais perto do consumo. Do grande consumo eu deveria dizer. O que antes era representado por um carrinho de pipoca, algodão doce e sorvete nos dias quentes, foi substituído pelas praças de alimentação (e no caminho que leva até elas) com seus inúmeros estímulos à gula e ao consumo. Logo, no espaço onde poderíamos ser cidadãos, pelo livre falar e participar da vida pública, passamos a ser consumidores, seguindo uma lógica que procura igualar o cidadão ao “ser consumidor”.

Ora, uma das estratégias de desmobilização societária consiste em desunião, em desestruturação dos espaços de convivência. Basta verificar o que aconteceu com as universidades no regime militar com a separação de seus campi que foram na maioria das vezes isolados, impedindo o convívio e favorecendo o “se fechar em si” de cada curso, favorecendo uma segmentação já tão comum.

Mas retornemos às praças. Ou “tentemos ir às praças”, simplesmente porque não temos aonde ir, lugares nos quais antes havia praças e parques com seus bancos, árvores e brinquedos que jazem sob o concreto, especialmente nas periferias das cidades. Ou lugares onde antes crianças brincavam e adultos conversavam, hoje jaz a solidão do abandono em nome da segurança. O que nos resta? Espaços demarcados que não são públicos — são pagos. Que não são para convívio, são para compras. Que não têm árvores, a não ser na forma transformada e branqueada de um guardanapo. Ao lembrar das árvores não posso deixar de citar o papel que ocupam na manutenção (ou criação) de “microclimas” na cidade. São elas as responsáveis por locais de temperatura mais amena durante o dia, com um refrescor que convida ao ócio, ao sentar e conversar ou simplesmente pensar. Isso, as praças devem ser locais para o pensamento.

Caminhamos, portanto, para longe das praças; nos afastamos cada vez mais do nosso meio ambiente urbano, acreditando-o por vezes inexistente. Meio ambiente, para nós, passa a ser apenas áreas “verdes naturais”, para onde gostamos de ir sempre que temos um “tempinho” e então podemos nos afastar da cidade.

Contribui-se, assim, para o aumento na dicotomia ser humano-natureza, uma vez que para me sentir na natureza preciso me afastar das outras pessoas, preciso me afastar do que represento, preciso me afastar de onde vivo, pois a imagem de natureza está ligada à noção de bem-estar e, na cidade de concreto, não temos este bem-estar. Ela representa o local de trabalho, não o local de lazer. E para onde vamos? Para longe de onde vivemos. Ora, se o lugar no qual me sento bem não é o lugar onde vivo, o lugar onde vivo não merece, nem precisa, ser cuidado, não precisa estar bem, pois tenho uma alternativa. No entanto, uma boa parte da população simplesmente não tem alternativa e também não tem meios para cuidar do seu lugar, do bem público. Moral da história: quem pode cuidar dos espaços públicos, não cuida porque não quer/precisa, e quem quer/precisa cuidar dos espaços públicos não consegue porque não tem os meios para tal.

Ao lado dessa situação, surgem propostas de “adoção” desses espaços, consistindo na adoção de uma praça por uma empresa que então se encarrega de sua manutenção. Trazer para a lógica do privado o que é bem público. Quando o acordo acaba, a praça adotada volta ao que estava antes. Não é esse o sentido de “cuidar” para o qual queremos chamar a atenção. Precisamos assumir estes espaços como bens públicos que devem ser cuidados, mantidos e utilizados por todos. Cabe ao poder público a manutenção desses locais tornando-os agradáveis para a população. Cabe à população utilizar estes locais com o cuidado que têm em sua casa e ocupá-los no melhor sentido do termo. As praças também são lugares para o teatro, para o cinema, para o bate papo, para a leitura, para o conviver. As praças são nossas.

 

Ilustração: Carol Custodio

 

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