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Colunas: VÉRTEBRA
Pequenas histórias
por Rã Cinza

Há algumas semanas fui a um velório. Fui a outros no mesmo período. Estranha coincidência fez com que três pais de amigos e conhecidos, em menos de um mês, tivessem morrido. Mas o último do mês foi para mim, opinião pessoal absolutamente passível a inúmeros enganos, o mais tocante. O evento fúnebre deu-se no mesmo cemitério onde, em uma semana, ou em menos que duas, eu havia ido para dar os pêsames a um amigo cujo pai, como eu mencionei logo acima, havia falecido. Tocante sim. Logo que cheguei pude observar uma unidade nos participantes. Como não era o velório de um amigo, mas sim, de gente conhecida, estava lá por estar acompanhando quem era o amigo de fato das gentes a quem o morto pertencia. Pois bem, logo de entrada, meu acompanhante não sabia qual direção seguir. Prestei atenção para tentar perseguir as pistas do sítio certo. Aí começam as distinções desse velório, porque ao intensificar a atenção para determinar o lugar certo onde o morto estava, vi um rapaz parecido com os filhos do falecido. Uma sensação de estar num ambiente onde se alinham os corpos no mundo. Uma quietude, uma onda reflexiva perpassava. Sentia-se o pesar dos vivos em relação ao que se fora, sem que estes estivessem de dar mostras evidentes e bombásticas do sentimento da perda. Um filho disse da incongruência que uma circunstância como aquela promovia. Disse sobre um inadequado comentário do padre que lançava suas falas religiosas, não estávamos lá quando houve tal peroração. No caminho a ser percorrido para o sepultamento, a singularidade dessa despedida marcou-se tanto pelo silêncio meditativo como por um significativo acontecimento. Após haver o enterro propriamente dito, criou-se uma pequena ansiedade, via-se a expectativa dos presentes, desejosos de ouvir de alguém as palavras derradeiras. Um silêncio prolongado no qual a expectativa foi decrescendo, e os mais entendedores da família ou, talvez, alguns da própria família, começaram por deixar o lugar. Devagar, mantendo o clima meditativo dissolveu-se a vontade da síntese que numa hora dessas é o óbvio presente. A morte fala por si. Os que amaram aquele que ali ficava sabiam não haver a palavra final, o fato estava consumado. E aqueles pouquíssimos, que como eu lá estavam, pudemos, afetados pelo silêncio, também concluir sobre a desnecessária ocorrência das palavras.

O touro e o toureiro
Um baixo, grosso
impulsivo
temível
ataca.
Outro, longilíneo
impulsivo
temível
ataca.

Ela disse:
Nasci para alguém que não é ninguém. Ninguém É para mim.
Quero trazer esse Ninguém-Ulísses em mim.

Um EU singular macho-fêmea. Entre Penélope e o outro tão esperado. Para isso, retiro o investimento do fundo sem fundo nem mundo. Tiro a coberta que me fez empolar. E eu, errada, me arranhava pensando que o mal estava apenas à flor da pele. Não. Foi o passado o condutor do engano. No presente joguei uma rede, uma teia na qual quis recuperar, resolver, prender algo de outrora. Não deu, já foi. Talvez seja essa a grande terapêutica do perdão. O passado reconciliado ou apaziguado pára de cobrar as estranhas reencarnações. Agora recomeço, mais forte, mais ágil e bonita. Essencialmente macho-fêmea, Ulisses-Penélope. Porque aprendi a ficar quieto e começar tudo de novo, o que eu quero, eu vou conseguir. Faço eu as viagens e peripatetias.

Qualquer pessoa que é capaz de alimentar um sentimento tão intenso, também é capaz de sobreviver aos seus efeitos – disse-me Kafka nos olhos e nos ouvidos. Lembro de Nietzsche dizendo: o que não mata, fortalece. Penso em Oiticica dizendo sobre a validade das crises. Gentes Outras, de uma outridade pungente, fortalecidas, atléticas, profetas do desassossego. Fazem as idéias transformarem-se em dobras, vêm à tona com a violência de um respiro para um recém afogado. Murros no estômago são essas gentes.

Cismava, cansou dos entreveros, das ameaças; do chão não passa. Passou, passava sempre quando pensava na própria morte. Tinha de desistir para sobreviver. Cansada de ser só. Isso. Só. Aquela, a rainha do lar, queria agora tudo. Fossem para o inferno, para puta que os pariu.

O projeto de mãe, de família, deixou-a quase um vegetal. Ela, vegetal útil, na cozinha, na caminha. Quantas insônias.

- Quando você vem dormir, Helena?
E ela, obediente ia...
- Vem dormir, Helena.
- Não!
- O que você tem?
- Não me enche.
-Você está doida?
- Estou e quero que você morra.
- O quê?

Como na música dos Beatles ela só pensava em ir. Largar tudo para trás. Lembrava da amiga do colégio que dizia que o casamento...
- Não é coisa para mulher. É sub-emprego. Além do mais a mulher fica refém da prisão da segurança.

Sentia a cabeça rodar. Um enjôo enorme. Passava a mão no rosto, vinha um desespero, uma tremedeira. Uma vontade enorme de ter outra vida. Já era tão tarde.

- Vem logo, porra.
- Vai te fuder.

No começo pensava que era mais fácil ser subserviente quando não se gostava muito. Sem muito amor, sem muita raiva, excelente para uma excelente esposa.
Depois de inúmeras cenas, num dos derradeiros momentos.

- Paspalha, você não fica um mês sem mim, você é burra. Não sabe nem ver as horas. Muito bem, quer que eu vá? Te dou um mês para chegar como criança, criança velha e pedir para eu cuidar de você.

Aprendeu no arranjo da casa que para tudo existia hora certa, principalmente para as grandes limpezas.

Conhecera Dora por acaso, num shopping, numa loja de departamento, enquanto comprava pilhas AAA. Quis perguntar a hora. Achava seu jeito engraçado, mas uma coisa aproximava Helena daquela mulher de jeito engraçado, uma curiosidade, ela parecia um menino. Um homem? Não. Algo não estava pronto e nem acabado naquela outra mulher tão diferente.

Ilustração: Carol Custodio

 

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