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Colunas: CINEMA RISCADO
Poesia Kirlian
por Renato Cunha

 

Se eu tivesse bicicleta, muito bicicletaria... Iria à ilha de Creta, às matas da cafraria. Antes da idade provecta, muitas terras correria... Minha ambição predileta é ser vento e geografia!

Cassiano Nunes foi bicicletar.

Qualquer homenagem que se faça ao poeta, agora, depois de sua passagem, é mais do que justa. Mas creio que uma das maiores, por ter sido em vida, foi Viva Cassiano!, filme dirigido por Bernardo Bernardes e lançado em 2004.

Conheci Cassiano em meados dos anos 1980. Daí, toda vez que o encontrava, tentava tirar dele uma prosa, nem que fosse meio dedo. Sorte minha. Talvez por isso não tenha sentido tanto quando fui cursar Letras na Universidade de Brasília. O professor já não mais estava. Aposentara-se. Seu nome era brisa a circular pelos corredores: Cas~si~a~no, Cas~si~a~no, Cas~si~a~no...

Bem! mas, para falar de cinema, ou melhor, de poesia e cinema, falarei mesmo é de Viva Cassiano! Em 30 e poucos minutos, a trajetória do escritor é ficcionalizada, animada, musicalizada, declamada. E por mais quatro amigos, que com ele interagem, relatada. Quatro vezes Cassiano.

Antonio Candido recorda quando Cassiano lhe submeteu um original anônimo, lá pela metade do século passado. “Sou poeta, sou poeta” saiu proclamando o poeta ao receber o aval do crítico, já de renome.

Vladimir Carvalho conta os planos de Cassiano para realizar palestras para os censores da ditadura. Tentativa de um trabalho de persuasão. Ingenuidade, talvez. Generosidade, decerto... com o cinema, com a arte.

Renato Matos faz renascer o marco das manifestações culturais de rua em Brasília, o Concerto Cabeças, onde conheceu Cassiano.

Antunes Filho metaforiza. Compara a imagem poética de Cassiano ao efeito da fotografia Kirlian, como se um espectro fosse.

A animação, que ilustra o poema Bicicleta, traz traço e melodia que nos fazem flutuar como criança. Mas não terei bicicleta, como no tempo em menino... (A mágoa ficou secreta; calar foi sinal de tino). Manter posição discreta! — meu pai legou-me este ensino. Se eu tivesse bicicleta como tem qualquer menino, ele acharia um desatino.

Ao som de Harlem Blue, poema musicado por Matos, lá vem Cassiano, jornal sob o braço, da Banca da Rodoviária. Desce as escadas rolantes e sobe num circular. Da janela vê-se o Eixo Monumental, a Esplanada, que lindo!

Durante todo o filme, Cassiano recita. Verve de poeta. Sua voz não será esquecida. Voz franciscana. As imagens em preto-e-branco remetem às páginas dum livro. No fim, a luz que ilumina o poeta se apaga, para não mais apagá-lo de nossa memória.

Cassiano não morreu. Assim como o balão que ganha os céus no início do filme, lá está ele, no alto. E, daqui debaixo, bradamos em uníssono: — Viva Cassiano!


 

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Maiesse Gramacho é jornalista, nasceu e mora em Brasília e colabora com a Verbi21. Visite seu portfólio fotográfico.


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