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Colunas: CRÔNICAS HAVAIANAS
Socorrooooo: tem uma morta na farofa!!!
[ou Crônicas Havaianas: o retorno]
por Eliana Mara


Trago amor de volta igual chiclete em 21 dias pedindo perdão/ pgto em 3 vezes após serviço feito e resultado. (Site: tarot.net.com.br)
  
Dedicada a Fire, ou Pedro, o único leitor que sentiu minha falta.

Devo começar explicando o título. A segunda parte está clara: fui expulsa, injustamente, diga-se de passagem, da edição anterior. Então, esta crônica é a do retorno. Quando ao primeiro título, tem a ver com a Maira, amiga do Lucas, meu filho caçula, de 18 anos e 1,89 m (como é que um filho caçula pode ter essa altura e idade?). Maira tem poucos defeitos, mas o pior deles é dizer que me adora e nunca ter lido uma crônica havaiana. Estou citando o nome dela nesta edição para ver se consigo uma leitora a mais. O mar não está para peixes e até hoje não recebi cartas dos meus leitores nem houve a criação espontânea de um fã-clube. Criei uma comunidade no Orkut intitulada Crônicas Havaianas e só tem 18 pessoas lá, todos afetivamente envolvidos comigo. Pois bem, Maira descrevia para Mateus e Lucas a personalidade de uma fulaninha. E faltando adjetivos para que os meninos entendessem o quanto a garota era lenta de raciocínio e desprovida de graça, ela simplesmente disse: Ela é uma morta na farofa. Não me peçam para explicar, mas confesso que depois disso,comecei a classificar melhor certas pessoas que conheço. Minha mãe, em outra versão, diz de uma pessoa assim que ela está morta nos panos. Morta na farofa ou morta nos panos, não importa. Se Maira começar a ler as crônicas, meu objetivo foi alcançado. Minha mãe já entendeu que tem de ler todas as edições.Ou fica sem mesada.

Talvez eu esteja enganada, mas há certos anúncios de produtos que são inacreditáveis. Numa escala de 0 a 10, quanto você daria de credibilidade para um anúncio que garante trazer seu amor de volta, igual chiclete, no prazo de 21 dias? Se você não acredita, o cara te desafia e diz que você só paga quando a graça for concedida, ou neste caso, se o sortilégio funcionar. E de bônus, você pode parcelar em três pagamentos. Em minha humilde opinião, o que atrai mesmo é o fato de que o cara te deixa pagar em três vezes e você só começa a pagar depois que o serviço funcionar. Tenho uma teoria a respeito da raça humana. Em fase inicial de estudos, posso adiantar que nenhum ser humano, em condições quase normais de saúde, resiste a uma promoção. É evidente que, no caso especifico das promoções de sapato para mulheres, não há estudo que explique. É um fato que está além de nossas pesquisas.   Quem é que acredita mesmo que algum feiticeiro, de qualquer espécie, pode trazer de volta seu amor, grudado em você feito chiclete? O que a pessoa quer mesmo não é o amor de volta, afinal, na maior parte dos casos, ela sabe que o parceiro já estava passando do ponto. O que ela deseja mesmo é participar da promoção.

Eu estabeleci um axioma teórico: o princípio das duas gotas de colírio. Meu primo Nemo (Ops! Acho que revelei minha idade agora! Sou do tempo em que Nemo não era um peixinho de estimação, mas sim o apelido de Onésimo, meu primo) sempre me contava uma piada, que ao final não tinha a menor graça. A piada consiste na história de um sujeito chato, pidão, que começa a pedir dinheiro emprestado. E não obtendo sucesso, vai pedindo qualquer coisa, até que pergunta para a vítima: e o que você tem aí, no bolso da camisa? O sujeito diz: poxa, cara, isso aqui é colírio. E o chato responde, já com o olhão bem aberto : então, pinga duas gotinhas de colírio aqui! Esta anedota é a base para o desenvolvimento do princípio.

Senão, vejamos. A fraqueza que a humanidade tem por descontos, promoções, sorteios, rifas e cassinos, ataca o bolso e é a causa de muitos males. Há que se estudar a causa. E a causa é uma só: falta de amor na infância. Esse sujeito patético,  que tenta garantir pelo menos duas gotinhas de colírio é o retrato de nossa atração incontrolada por descontos, preços baixos e similares. Mas é antes de tudo, um homem carente, que não recebeu amor suficiente na infância. Isso explica porque somos capazes de dar atenção ao macumbeiro que oferece seu amor no seu pé, feito chiclete, 24 horas por dia, num prazo curtíssimo. E se o faz, divulgando em site da internet, é porque, assim como eu, ele também conhece os fundamentos teóricos  do princípio do colírio.

Caríssimos leitores, como vocês podem ter observado, não havia nem meia crônica havaiana na edição do mês passado. Fiquei de castigo, mas estou de volta. Toda aquela parafernália ácida e bem humorada sobre o grande ditador, Lima Lemonade, se realizou na edição anterior da revista. Fui cortada, sumariamente. Sem explicações, sem cartinhas, sem avisos prévios. E toda essa crueldade, por quê? Somente porque não entreguei meu texto no prazo estabelecido. Mas o que são prazos, diante da riqueza da espécie humana? O fato é que ele nem quis papo. Certa tarde de um dia qualquer, no calor da primavera soteropolitana, recebo a edição da Revista Verbo 21. E eu estava sumariamente excluída. Se lhes apresento os bastidores deste episódio lamentável, leitores saudosos, não é somente para dar-lhes material que os auxilie a  compreender o mistério sobre meu desaparecimento. Mas, sim, para agradecer às centenas de cartas recebidas, com moções de protesto contra minha ausência. Prometo que responderei a todas as cartas, tão comoventes e cheias de solidariedade. Claro que estou sendo irônica: o único leitor que reclamou foi o Pedro, conhecido como Fire, que é amigo do meu caçula gigante. Por isso dedico esta crônica a ele. Percebi que para ter mais leitores, terei que apelar para os serviços de algum pai-de-santo.

Estou intrigada com um livrinho que tem sido, não necessariamente nesta ordem,  meu motivo de insônia e livro de cabeceira: Os cem segredos das pessoas felizes . Tenho certeza de que o centésimo primeiro segredo, que não foi divulgado, é o que explica o sucesso e, obviamente, a felicidade, na vida de David Niven, o autor. Se há alguém que descobriu um segredo para ser feliz, ou pelo menos, ganhar dinheiro, este alguém foi o David. Pois é, o David faz uma lista (os norte-americanos têm essa mania de lista e o mundo, que têm a mania de imitá-los, têm a estranha mania de seguir as modas ditadas pelos norte-americanos, o que fez do livro um bestseller internacional). O que me intriga é a falta de adaptação às diferenças locais. Quer você esteja num rio sagrado e poluído na Índia, quer você esteja andando numa calçada de Salvador, você, supostamente, pode meditar enquanto anda, falar com Deus e ser feliz. Os seguidores do profeta David são aquelas pessoinhas chatas, parentes do cara do colírio, que sempre têm alguma frase retirada de livro de auto-ajuda, naqueles momentos em que pela sua mente só passam palavras de baixíssimo calão, envolvendo, principalmente, a mãe dos outros.
Pois então, fiquei imaginando os efeitos dessa síndrome. Vários livros de auto-ajuda ditam as normas de convivência sob um ponto muito específico: viva cada minuto como se fosse único. Em algumas versões diz-se: viva cada minuto como se fosse o último. E tem aquela maravilhosa: para cada minuto que você se aborrece, são sessenta segundos de felicidade que você perde. Tua prima diz isso, enquanto você está tentando falar, há mais de meia hora, com o serviço de atendimento ao consumidor, e já foi transferido para falar com quase toda a torcida do São Paulo, e de um atendente para outro, prometem que vão resolver seu problema em alguns instantes. Citarei algumas pérolas do cem princípios: a) não confunda bem material com sucesso; b) compre aquilo que você gosta; c)   você sempre tem uma escolha; d) dinheiro não traz felicidade; e) não diga sim quando quer dizer não; f) faça aquilo que disser que vai fazer; g) coma frutas, etc.

Eu ficaria até a véspera de Natal, lendo com vocês cada segredo e comentando os motivos porque eles me parecem coisa de estelionatário. Mas por ora, prefiro me concentrar em apenas um que afirma: você deve sempre dizer aos outros como eles são importantes para você. Desse princípio deriva outro: nunca se separe de quem você ama sem uma despedida sincera. Na hora em que seu marido ou filhos estiverem saindo de casa, beije-os e diga o quanto você os ama. Esta pode ser sua última oportunidade de fazê-lo. Pensem comigo, isto não é auto-ajuda. Isto é crueldade. Ou, visto por outro ângulo, isto é chatice. Calculem aí se a moda pega: você está na sala e sua mãe, idosa, já chegando no nonagésimo aniversário, diz que vai tomar banho. Você, utilizando o segredo, levanta-se, vai até ela, lhe dá um abraço forte e diz, emocionado: Mãe, eu te amo. Pela lógica, sua mãe, velhinha, vai para o banho, invadida por maus presságios que este estranho abraço causou. Emocionalmente abalada, ela poderá ter um infarto ou escorregar no banheiro. Você, profundamente triste com a morte repentina, vai se sentir aliviado, por ter se despedido, declarando a ela seu amor.   Isso tem alguma lógica? Não. Esse tipo de atitude pode criar um verdadeiro caos urbano. Se multiplicarmos o acréscimo de mais um ou dois minutos pelo menos, para todas as vezes em que nos afastamos dos entes queridos, como ficará o trânsito? E a entradas das escolas? Como ficarão os aeroportos? Porque existem, no mínimo, três categorias que podem complicar o quadro: os prolixos, os sentimentais e os fingidos.

Com relação aos aeroportos, e lembrando dos últimos fatos que ilustraram o caos aéreo brasileiro, a mídia sempre explora o tema: descobrir episódios interessantes sobre os últimos momentos que precedem à trágica queda de um avião. E aquela lamentação toda daqueles que sempre dizem: se eu soubesse que ela iria morrer, eu teria dado um abraço mais forte, teria dito que a amava e blá-blá-blá. Tem certeza de que você diria isso para aquele cunhado folgado, que passou quase um ano desempregado, morando na sua casa, ocupando o quarto do seu filho caçula? Ou da sua sogra geniosa, que decidiu morar com você, depois que ficou viúva? Há momentos em que o último instante que você passou com um parente é o melhor momento da sua vida, pois você tem certeza de que o chato foi embora. Por essas e por outras inúmeras situações que me vêm à cabeça, eu recomendo cuidado com essas listas elaboradas pelos norte-americanos. Isso tudo faz parte de um golpe neoliberal para dominar os países crédulos. Uma coisa é certa: um chato fica mais chato ainda se for leitor de textos de auto-ajuda. E fica insuportável se gosta destas listinhas.

Ao encerrar esta humilde crônica, desejo a todos, uma vida longa e próspera. Deixo-os com um abraço fraternal. Aproveito este espaço para expressar meu apreço e gratidão. Sem vocês, esta revista nada seria. Falo em nome de toda a equipe da Revista Verbo21. No caso de queda de avião ou qualquer outra fatalidade, lembrem-se dessa despedida de prevenção, feita com todo afeto e respeito.  

Hasta la vista, baby

 

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Chico Lopes é escritor, pintor e crítico de cinema. Publicou os livros de contos Nó de Sombras e Dobras da Noite.


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