
Colunas: DAGUERREÓTIPOS
Híbridos
por Tom Correia
I.
Estávamos numa sala de projeção, de óbvias poltronas vermelhas, onde assistíamos a um filme fora do circuito comercial. Era um cult-movie com imagens em P&B. Havia poucas pessoas, as luzes estavam acesas. Z estava muito bonita e perfumada. Em certo momento nos abraçamos como dois namorados no início do relacionamento, aconchegados e cúmplices. Acariciei seus cabelos macios; sua pele estava morna. Irônica como sempre, Z fez alguns comentários bem humorados sobre um trecho do filme. Apenas nós dois rimos. Rimos muito. O clima estava ótimo entre nós. Há muito tempo isso não acontecia. Peguei sua mão e me desconcentrei um pouco do filme. Ela percebeu. Com um leve aperto me chamou a atenção. Notei que algumas pessoas à nossa frente se viravam com insistência, esforçando-se para conter uma gargalhada uníssona. Sincronizada. Aquilo foi se espalhando por toda a sala e me incomodou bastante. Z manteve-se calma, parecendo saber o verdadeiro motivo daquele crescente burburinho. Comentei com ela: “O que está acontecendo com esse povo? Um filme tão bom como esse...”
Foi quando percebi tudo. Desconcertado, vi que faltava algo essencial em seu rosto: Z não tinha boca. Aquilo que seria sua voz era na verdade uma espécie de recurso telepático ultrapassado, em desuso. Fiquei um pouco perturbado ao constatar essa ausência inesperada. Sempre tive esperança de beijá-la um dia mas agora via que, em termos técnicos, isso era impossível. “Só pode ser a confirmação do que sempre desconfiei. Você deve ser mesmo quem imagino”, eu disse ou pensei, não sei ao certo, estava atônito. Sem voz, ela respondeu: “Isso não é tudo. Ainda preciso te mostrar uma coisa, mas não pode ser aqui”. Nos retiramos da sala, no meio do filme. Passamos por um imenso corredor de paredes azuis translúcidas. Um lugar familiar. Onde? Com o coração estrangulado, pressentindo que algo grave me seria revelado, me deixei conduzir. Z me puxou para um dos recantos do prédio, para debaixo de uma escada que reconheci de pronto: era a escada do meu ginásio. Pensei que finalmente fosse acontecer algo mais íntimo. Fiquei bastante confuso e excitado com a possibilidade. Nos escondemos como dois traquinas numa casa cheia de primos e tios numa sexta-feira santa. Z usava um vestido feito de um tecido metálico e isso me fez lembrar a bela replicante de rosto inexpressivo de Blade Runner. Tomando minha mão, ela disse: “Agora você vai obter a resposta que sempre quis. Passa sua mão aqui...”. Suspendendo um pouco seu vestido prateado, percebi com grande desapontamento que não havia nada ali por baixo. E não se tratava de um nada metafórico. Era nada mesmo: nem short curto de malha, nem calcinha de renda, nem pêlos púbicos, nem vagina, nada! Naquela parte, Z não passava de uma impenetrável e inodora boneca de plástico. Não havia ali o presumido e desejado triângulo moreno e almofadado entre suas pernas. Fui tomado então pela mesma profunda tristeza melancólica dos poetas românticos, mas não cheguei a pensar em suicídio. Por pouco. Eu sabia o que aquilo tudo significava. Meu rosto deve ter refletido minha decepção, pois ela ainda tentou me consolar com sua não-voz:
“Não fique assim, meu anjo. As coisas tinham de ser desse jeito entre nós. Onde já se viu um artista maldito se envolver com sua musa? Os verdadeiros malditos nem musa possuem. Seria a sua completa ruína. Você não é, nem pode ser igual aos outros. Autenticidade gera altos tributos, não se recuse a pagar por ela. Entende agora porque não quis nada com você? Eu não podia... parece que sua obsessão por mim te fez perder a percepção aguçada das coisas, não jogue tudo fora agora, por favor...”. Eu estava abatido demais para dizer qualquer coisa, mas Z estava certa. Era melhor mesmo ter uma musa inatingível e platônica do que um envolvimento que colocasse em risco a minha fonte de inspiração. Era o preço. De mãos dadas, voltamos pelo mesmo corredor, também o mesmo do meu ginásio. O prédio todo seria a minha antiga escola? Onde estariam então Simone e o seu desmaio ginecológico, Marcelo e a sua cabeça sangrando no pátio bem na hora do hino nacional, o professor Argeu ambidestro e o seu pescoço rubro parecendo um cardeal? Onde se esconderiam agora os meus colegas repetentes e truculentos que me aterrorizavam na fila da merenda com aplicações diárias de retumbantes cascudos? E o professor Babão e a sua inútil cantilena para nos tornar seres menos cruéis, a minha doce Conchinha e suas coxas fantásticas, aonde todos eles foram parar? E Querida com seus mingaus inesquecíveis, o professor Walter e toda sua pedância e pompa que todos nós, fracos e medrosos, odiávamos tanto, onde? Repentinamente descobri que queria modificar isso tudo. Queria poder alisar as lisas coxas de Conchinha, beber um mingau de Querida, dizer umas verdades ao odioso professor Walter e às suas vãs trigonometrias. Todos esses resíduos mentais somados à inesperada revelação de Z quase me levaram a uma letal melancolia. Andávamos calados, reconciliados. Conformados, enfim. Fomos assistir ao resto do filme. Eu sabia que não nos veríamos tão cedo depois dali.
II.
Eu fazia uma viagem a bordo de um antigo navio de madeira. O convés estava encharcado; os corredores eram escuros, lúgubres. Havia um homem experiente que me dava instruções sobre os procedimentos a serem seguidos. A seu pedido, fui guardar uma garrafa de vinho num freezer forrado por um plástico preto, daqueles usados pelos esquartejadores profissionais. Percebi o céu nublado anunciando a mudança de tempo e a tempestade próxima. Não fiquei tenso ou apreensivo com aquela que seria a minha primeira tormenta em alto-mar. O capitão do navio, um homem alto, magro e sério, parecia encarar a situação com muita naturalidade e quase-enfado. A certa altura, já em meio a grandes ondas nervosas, o navio descontrolou-se: bateu num grande arrecife e foi prensado por um enorme bloco de gelo. Sua estrutura mostrou-se frágil, com tábuas e suportes se desprendendo facilmente. Notei que não haveria recuperação para ele. A perda havia sido total. Isso me fez lembrar o Pequod; achei um grande clichê ir à pique daquela maneira. O capitão, agora impaciente, comentou conosco: “Já faz muito tempo que estamos aqui e nenhum socorro até agora”. Falou ainda: “Temos muitas mulheres a bordo, algumas estão grávidas e todas estão com fome”. O imediato, muito calmo, respondeu que ali havia muitos peixes (prateados) e que seria fácil pescá-los; fome não seria problema. Me antecipei às ordens e coloquei logo minha roupa de mergulho, mas sem máscara ou tanque de oxigênio. Pedi ainda instruções ao imediato sobre como usar o arpão pequeno e rudimentar que seria utilizado na pesca submarina. O arpão era lançado por uma pequena tira de borracha de câmara de ar e me pareceu altamente inofensivo. Pulei em pé na água esverdeada e profunda; o mergulho também foi profundo. Meu corpo produziu intensas bolhas de ar. Calculei que desci a uns vinte metros e senti um pouco de medo. A água tornou-se turva. Olhei para cima e vi a superfície iluminada indicando o lugar de onde havia saltado. Não vi peixe algum nem vi mais o meu arpão. Deixei meu corpo solto e me vi de ponta-cabeça, girando lentamente dentro da água morna. A sensação foi muito agradável até eu resolver voltar à tona. Avistei um outro navio se afastando do lugar. Olhei ao meu redor: não havia nada nem ninguém. Não apareceu nenhum caixão que me servisse de salva-vidas.
III.
Num enorme barranco de arenoso, bastante inclinado, que terminava numa espécie de rio ou vala, havia muitos homens tentando encontrar ouro. Os homens tinham muita dificuldade para se manterem agarrados à terra do lugar, pois logo escorregavam em direção à vala, fazendo um barulho engraçado ao mergulharem na água. Daí tinham que voltar a subir novamente, totalmente imundos de lama, numa tarefa interminável. Eram vários Sísifos sedentos por dinheiro. O tempo que eles passavam agarrados ao barranco era infinitamente menor que o tempo gasto para conseguirem voltar ao mesmo ponto. Uma jornada bastante cansativa. Nenhum deles havia encontrado ouro. Ninguém esboçava queixa ou reclamação. Eu estava sentado no lado oposto do rio, comodamente apreciando a cena com muito interesse e curiosidade. Ao meu lado alguém falou o que seria o nome do lugar. Confirmei isso ao ler numa placa de madeira, em letras artesanais, esculpidas: MENTIRA. Fiquei surpreso pelo nome inusitado e mais ainda por nunca ter ouvido falar dele. Percebi que estava prestes a desafiar a lei da gravidade, pois o terreno onde eu permanecia além de ser também bastante íngreme, não oferecia segurança alguma. Senti que poderia cair a qualquer momento. Além de ser desprovido de qualquer talento para ser um Sísifo, eu não queria me sujar de lama. Entrar naquela corrida desenfreada não era para mim, um contemplativo irrecuperável. Vi então ao meu lado direito, uma mulher branca de lenço na cabeça, de costas para mim, sentada num lugar seguro. Chamei seu nome, “Séfora!” e ela, demonstrando bastante frieza, me deu a mão. Ao prestar mais atenção ao seu perfil e ao tipo de vestido antiquado que usava, pensei algo como “ela não tem nada a ver com a Séfora que eu conheço”.
IV.
Homens negros, rastafaris, com aparência de bruxos malévolos me torturavam com pontas de cigarros acesas na pele do meu braço esquerdo. Eles preparavam um ritual macabro no qual eu seria a única vítima. Parece que eu seria usado como um voodoo humano. Havia setas de ferro, pretas e pontiagudas, acondicionadas numa pequena lata de plástico verde. Na verdade, uma garrafa de água sanitária cortada ao meio. Eu estava aterrorizado; eles se divertiam sadicamente. Eu até ia com a cara de Bob, Peter & Alpha, mas aqueles rastas não estavam para brincadeira. Resolvi que se escapasse, mesmo com o braço perfurado-chamuscado, jamais voltaria a escutar reggae novamente. Meus lindos e hirsutos algozes estavam tão empolgados que num vacilo deles consegui fugir pelas ruas do meu bairro de sempre. Me escondi como o mais covarde dos ratos num quintal sujo e mal iluminado que reconheci como sendo o da minha casa. Encolhido num canto enlameado notei que famílias inteiras chegavam carregando paus e madeiras para construírem casas toscas do outro lado do muro. Certamente aquela inesperada vizinhança me traria incômodo: eram barulhentas. Quis agir de maneira mais enérgica, talvez saindo no tapa, mas lembrei que naquele instante eu não passava de um reles e pusilânime roedor. Escutei rumores de que os meus perseguidores estariam próximos do meu precário esconderijo. Confirmação e sobressalto. Pensei em entrar no tanque de água inutilizado e estéril que eu mesmo havia escavado décadas atrás. Ao ver um deles, mudei de estratégia. Resolvi enfrentá-lo mesmo com toda a minha desvantagem: meu assombro. Rapidamente ele cresceu de tamanho. Seus dreads pareciam negras serpentes saltitantes. A versão afro-masculina de Medusa. Sua velocidade aumentou; ele queria me levar ao chão a um só golpe. Dei uma olhada rápida ao meu redor, precisava muito daquela noção de espaço. Cada vez mais próximo, pude perceber seus olhos injetados. Devia ter fumado muito. Em breve estaria enlaricado, com muita fome. Continuei parado, sem mover nada além dos cílios e raciocínio. Com um ligeiro passo lateral saí do seu raio de ação e com o ombro dei-lhe um encontrão bem encaixado. Seu desequilíbrio e queda foram feios. Ao cair dentro do tanque seco, seu corpo fez um barulho parecido com o dos desenhos animados, com o mesmo silvo agudo descrescente denunciando um corpo que cai num despenhadeiro. Faltou a fumacinha no final. Pulei dentro do tanque aproveitando a minha desvantagem recém revertida. Pisei com bastante força no seu pescoço. A queda havia inutilizado toda sua robustez. Ele perdeu ainda mais viço ao ser privado de ar; resmungou algo incompreensível. Com uma pá improvisada joguei bastante terra no tanque-túmulo. Eu tinha pressa, logo os outros apareceriam. Com muita dificuldade coloquei a enorme tampa no encaixe. Alívio e preocupação de ser delatado. Precisava sair logo dali. Eu não ia mais conseguir escutar reggae.
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| Maiesse Gramacho é jornalista, nasceu e mora em Brasília e colabora com a Verbi21. Visite seu portfólio fotográfico. |
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