
Entrevista
ENTREVISTA COM GUSTAVO RIOS
Por Sandro Ornellas
Gustavo Rios é autor do livro O amor é uma coisa é feia, publicado pela Coleção Rocinante da 7Letras. Dono de uma escrita rápida e violenta, engana-se quem pensa que este jovem deseja aderir a modismos, defender escolas ou acolher heranças paternalistas, sejam as de Rubem Fonseca ou as de Bukowski. Tampouco negá-las. São muitos os pais. E cada livro, um livro. A questão que margeia sua literatura é a urgência da vida, seu chamado.
Sandro Ornellas – Em quanto tempo os contos de O amor é uma coisa feia foram escritos? Eles passam a clara sensação de urgência.
Gustavo Rios – Foram escritos em mais ou menos dois anos. Com alguns intervalos. Mas são urgentes, sim. Não como um projeto de livro. Foram criados soltos, em diferentes situações. Uma coisa aqui, outra ali. O primeiro esboço de cada um deles foi apressado mesmo. Principalmente os confessionais – eu queria dizer aquilo pra quem quer que fosse e de qualquer maneira; e nem sempre funcionava. Então parti pra revisão. Fiz várias: gramática, pontuação, palavras repetidas etc.
SO – Quando falo em sensação de urgência, me vem à mente uma lista de
escritores com quem poderia te relacionar. A quem você mesmo se
relaciona, isto é, quem são seus modelos e suas referências
literárias?
GR – São muitos. Acredito que todo autor, quando escreve, leva consigo sua estante de livros. Tudo que li está lá. Não consigo te dizer um ou outro escritor que tenha me influenciado de forma decisiva. Sinceramente.
Não entenda isso como escapismo ordinário ou boçalidade. Eu apenas admito minha incapacidade de te esclarecer essa questão, na boa. Acho que isso fica critério de quem lê. Prefiro assim.
SO – Como o fato de viver na Bahia entra, se é que entra, na sua literatura?
GR – A Bahia entra, sim. Não como influência literária. Desconheço a obra de Jorge Amado, por exemplo. Nem me interesso. E falo isso sem querer entrar numas de ser polêmico: simplesmente não me interesso em conhecer. A Bahia – e Salvador, em especial – entra como algo mais importante. É aqui que vivo de forma mais ou menos intensa. Dentro de minhas possibilidades. Foi aqui que vivenciei alguns momentos mostrados no livro.
Quando cito o apartamento do conto "Lúcia gostava de flores", por exemplo, descrevo um local que conheci e freqüentei. Quando escrevi "Passeio Público" me referi ao mesmo lugar que de fato existe, nas proximidades do Campo Grande. Ou seja, é mais que referência. Extrapola a simples e fodida condição de estereótipo. Esse lance de coqueiros, praias e Dorival Caymmi. Eu não vivo nessa Bahia, nunca vi essa cidade. Ela é muito mais que cenário. Ou pano de fundo. É fundamental na minha literatura. Assim como seria Buenos Aires, São Paulo, Sergipe, Bangladesh ou qualquer outro lugar do mundo, caso eu morasse num desses lugares.
SO – Li você falando muito na sinceridade da escrita literária. Como ela
se encaixa em um livro que parece passear com desenvoltura entre o
lirismo e o cinismo? E onde começa a invenção literária do que
escreve?
GR – Mesmo que um escritor fantasie o tempo todo, sua obrigação é ser sincero. Com ele mesmo e com seu trabalho. Ao contrário, não passará de um Sofista vagabundo. Onde você vê lirismo, eu estava sendo de fato um sujeito lírico, estava sentindo aquilo. Onde você enxerga cinismo, eu era o cara mais cínico do mundo. Tudo é genuíno ali. No livro tem meus pontos de vista. Minha visão de mundo. Minhas observações em momentos confusos, doloridos, alegres ou sossegados. Os momentos em que eu enxerguei muito mais do que estava sendo mostrado. Agora, não posso delimitar onde começa uma coisa e termina outra. Aliás, quem poderia?
SO – Os contos falam de amores perdidos, rompidos, desesperados, cruéis e grotescos, às vezes de forma muito lírica, às vezes de forma muito
cínica. Qual a razão que te levou a tratar quase obsessivamente de um
tema tão arriscado, pois é o grande clichê da literatura?
GR – Para te dar a resposta, vou usar um outro puta clichê: não escolhi o tema, mas ele me escolheu. Lembra que te falei que não havia projeto algum? Pois é, não tinha mesmo. Um dia escutei a música que deu origem ao título do livro. Aquela letra era fantástica, sem frescuras. Eu escutava: "Só uma única servidão voluntária, só uma única servidão voluntária...". Acabei me identificando com a música. Então fui reler muita coisa que tinha escrito. E, entre tantos outros textos, lá estavam esses. Que falavam do amor daquele jeito. Foi aí que eu resolvi juntar tudo e mandar pras editoras.
SO – Seus contos me pareceram ultracontemporâneos: pequenos, rápidos,
fragmentados, violentos, líricos, etc. Há alguma preocupação sua em
querer ser identificado como um escritor contemporâneo? Se não há, o
que acha de quem escreve com esse intuito?
GR – Não me preocupo em ser identificado como um escritor contemporâneo. Mas como um escritor talentoso. É como um disco do Led Zepellin. Ou do Piazzola: duram toda uma vida, se impõem. Meu estilo é conseqüência das influências e do jeito de pensar mesmo. Escrevendo textos curtos consigo manter o fôlego e não ser chato. As idéias surgem desse jeito em minha cabeça. Ainda não sou capaz de longas sentenças, como as do Miller – que, mesmo enormes, mantém o vigor e o fôlego. Queria poder escrever como ele.
Se alguém escreve com o intuito de ser classificado, creio que está num caminho ruim. Marcando bobeira. Como te disse, gosto da sinceridade. E de gente talentosa. Escrever de forma rápida só pra tirar onda – porque no fundo é isso que está valendo pro sujeito: ele quer tirar onda – é falso. Melhor parar. Literatura necessita da verdade. Por mais confusa, inadequada e louca que ela seja. É o meu ideal de escrita, minha busca. Que só tá começando.
SO – O que você acha das relações de amor nesse começo de século XXI?
Pergunto isso porque seu livro – apesar da presença de formas várias
de violência – às vezes me soou também otimista (talvez devido ao
lirismo, não sei).
GR – Eu acho que tudo está uma grande confusão. Como sempre esteve. Independente da época ou do século. Mas não sou capaz de especular de forma brilhante sobre o assunto, na boa. Pode soar pretensioso e vazio. O que posso te responder é que o amor nunca foi o que sempre nos foi mostrado. Observe as novelas, os filmes. Agora compare com a vida. Dos seus vizinhos, de seus pais, talvez. A sua; analise os seus relacionamentos e pondere. Veja quantas vezes você foi magoado não pelo fato de ser um otário ou um crédulo. Mas pelo simples fato de que tudo era diferente do que lhe ensinaram de alguma forma.
O amor é confuso. Difícil, tumultuado, desordenado. Não é o que nos ensinaram esse tempo todo. Um bibelozinho, uma frescura. Amar exige demais da gente. Paciência, grana, disposição, crença. Amor cansa. E não parece com nada que a gente vê nas novelas do Manoel Carlos.
SO – Ao mesmo tempo em que você tem a habilidade do microconto, tive às
vezes a impressão de estar lendo um único texto, um romance dividido
em várias e assimétricas partes. Estaria correto quanto a esse lado
romanesco do livro?
GR – Essa impressão é interessante. E soa como elogio, já que meu sonho é escrever um longo romance. Porém digo que ela vem de um fato mais simples: muitos textos foram escritos para determinadas pessoas. Então, você acaba enxergando coisas em comum. Locais, frases, confissões. Às vezes tem mais de um conto destinado a uma mesma pessoa. Era como escrever uma carta com algum estilo. Creio que são elementos em comum, nada mais.
Em outros, usei o mesmo personagem pra mais de um texto. Ou o mesmo princípio, como nos contos "Uma nova forma de amar I " e "Uma nova forma de amar II ". Apenas uma boa idéia que poderia render mais.
SO – Como tem sido a recepção do livro?
GR – Muito boa. De vez em quando recebo algum e-mail. Ou me surpreendo com uma resenha. Tudo muito sincero e inteligente. Porém, a gente sabe que é complicada uma divulgação maior. Ainda que a editora, que distribui o livro em todo o país, esteja se esforçando pra divulgar o livro, a gente sabe que morar fora do tal eixo dificulta um pouco. Mas isso não impede de continuar metendo as caras.
SO – O que anda escrevendo, além do Cozinha do cão? Aliás, manter um
blog ajuda realmente a criar e se divulgar, atrapalha ou nem uma nem
outra coisa?
GR – Escrevo para uns blogs. Coisa de amigos mesmo, nada profissional. Tenho um monte de contos e poemas aqui guardados. Volta e meia eu reviso. Escuto uma música, fumo um cigarro e mudo uma coisa ou outra. Acabo de reunir um monte deles pra fazer o tal registro na Biblioteca Nacional. Nada novo. De novidade, apenas umas receitas de saladas prum trabalho que estou fazendo. Sou cozinheiro, não podemos nos esquecer disso.
E o blog ajuda a divulgar, sim. É uma grande forma de mostrar seus textos, trocar idéias e, muito de vez em quando, tirar uma onda. Afinal ninguém é santo. Muito menos o cidadão aqui.
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