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Colunas: KAOS KAPITAL
Notícias da sucursal
por Alex Cojorian

 

Avisem lá que em Brasília o calor está de rachar, a seca não tem dado trégua, apesar de umas chuvinhas sem-vergonhas que insistiram em desafiar o estio, e, enfim, tudo vai nos conformes aqui na repartição. Neste outubro inclemente o sol tem chegado pelos janelões da tarde sem piedade e, mesmo com o vidro fechado e o ar condicionado ligado, não dá pra esquecer que a gente funciona numa sucursal. Dizem que no Piauí é pior. Vai ver, deve ser mais perto da matriz, mas eu mesmo não digo nada não, nunca estive por lá.

E se tem coisa que não deixa ninguém esquecer o local onde dá expediente é a cotidiana cizânia, a maledicência, a inveja e o ciúme sobre os atos e os objetos mais banais: “essa cadeira é minha”, “esse grampeador sou eu quem usa”, “não ponha lixo encima da ‘minha’ mesa”, “cadê o sicrano, ainda não chegou?”, “o chefe sabe disso?”, são as frases corriqueiras que atestam que qualquer bobagem pode ser uma (mefistofélica) forma de poder, uma extensão dos microfisiologismos que esfuracam o serviço público – ia dizer “brasileiro”, mas vale em toda parte, principalmente no centro universal desse formigueiro, que eu, pessoalmente, nunca me interessei em saber onde fica.

Certamente que o inferno são os outros, e nem o diabo e nem deus nunca virão, mas o inferno não são só os outros, o inferno é também um sistema integrado, cheio de meandros e canais subterrâneos, um formigueiro fumegante e modorrento, sempre transmitindo aos infernizados a morrinha acachapante do convívio, do calor, da inépcia e dos maus bofes dos nossos pares.

Enfim, avisem pros que funcionam aí na matriz que aqui encima o negócio vai bem a contento, já que a CPMF está quase permanente e os capachos governamentais – qualquer forma de poder já é algum poder, não vos esqueçais, levianos! – começam a demandar pelo terceiro mandato do Lulinha Paz & Amor – já decifrara George Orwell que guerra é paz, e, portanto, concluo eu que amor só pode ser guerra (de taxas e impostos, ora!)...
A única coisa que eu, microescravo dos micropoderes, terrenais ou infernais, peço venia e faço reparo é nessa sacudida da ordem estabelecida. Ainda que bem reconheça e só possa elogiar a infalível e onipresente mão do big boss – a julgar pelo bafão da tarde, deve estar apontando na estrada para a visita anual –, é preciso reivindicar ao chefão um alívio qualquer, porque não há mortal que esteja suportando essa ruindade novidadeira que se chama Beirute Norte: lá nunca sobra mesa, e na matriz só deixaram garçom novo que não consegue intermediar as nossas mínimas volições – para ficar na expressão do Kapeta, nobre garçom-filósofo. E sem cervejinha gelada, ó grande Peste, não há servidor público que resista a tanto inferno!

Se continuar assim, vai sair indicativo de greve! Ah, se vai!
Avisem lá!

 


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Maiesse Gramacho é jornalista, nasceu e mora em Brasília e colabora com a Verbi21. Visite seu portfólio fotográfico.



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