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Ensaio
Um conto de Luiz Carlos Amorim
                                                                                                      

MEU PÉ DE JACATIRÃO E AS BORBOLETAS DE QUINTANA


É manhã de domingo e o dia está triste, cinzento. O sol não saiu. Abro a janela e vejo meu pé de jacatirão com suas flores vermelhas, brancas e dessas duas cores misturadas, muito vivo. Nos dias de sol vou aguá-lo, pois o calor faz as pétalas de suas flores murcharem. E me vejo fazendo a mesma coisa hoje, carinho desnecessário, pois o sol não veio. E as borboletas também não virão, penso.

Então me lembro de um poema de Quintana, o menino Quintana, nosso menino Quintana, sempre ele: “Pedro pintou, um dia, em alguma parte do mundo o retrato de uma borboleta. / As cores, as de seu desejo. / Pintou, ainda, sobre o papel, flores para a borboleta se esconder e galhos para descansar. / ... / Nesse dia, ele viu o vôo de uma borboleta / (vôo de borboleta pode transformar qualquer dia em domingo).”

Então me dou conta de que meu dia triste já se iluminou com as cores do jacatirão, me dou conta de que posso pegar as cores das pétalas da minha amiga árvore, mais todas as cores do sol que não veio e pintar borboletas esvoaçantes dentro dos meus olhos e dentro do meu coração.

E deixo minhas borboletas alçarem vôo para fora do meu olhar e pousarem em meu pé de jacatirão. Percebi, então, que aquele não era um dia qualquer: era uma manhã de domingo, iluminada e feliz, com as minhas flores de jacatirão e as borboletas de Quintana.

Só ele, o “passarinho” Quintana, o nosso poeta menino, para me devolver minha manhã de domingo. Como sempre, ele tinha razão do alto dos seus cem anos de poesia neste mundo de Deus e no outro mundo de Deus, para onde ele foi fazer poesia para os anjos. Nada como um vôo de borboleta para transformar qualquer dia em domingo, mesmo que esse dia seja mesmo domingo e mesmo que essas borboletas sejam pintadas com as cores do sol e das flores de jacatirão, dentro dos olhos de um poeta triste, para alegrar o seu coração.

 

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Maiesse Gramacho é jornalista, nasceu e mora em Brasília e colabora com a Verbi21. Visite seu portfólio fotográfico.


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