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Ensaio
Um conto de Diogo Costa
                                                                                                      

TRABALHO DE BOCA

 

No meu trabalho caminho descalço onde urubu anda de bota. Aprendi essa chalaça no trabalho; ela é pra ser dita assim, afrouxando o cinto e estalando um tapa na barriga. A frase é legal, mas é dura. Tenho gasto minha vida num trabalho visceral. Para fazê-lo, deveria ter espírito de coveiro ou de vigia de cemitério; bruto e tímido. Eu falo pouco e por isso me chamam de Boca; pura chicana dos colegas. Sou tímido, sim, mas, tenho uma sensibilidade incompatível. Não é fácil ter alguém sobre você todas as noites. E no final, nunca se goza. É trabalho de puto.

Identifico-me com Travis Bickle, em Táxi Driver, que diz que “toda noite precisa limpar a porra que fica no banco detrás” e que “às vezes, limpa sangue também”; revejo várias vezes quando chove. Então falo pouco e penso: o Ser Humano é bi-polarizado entre estômago e sexo. Quando não é por fome, é por adultério. Somos animaizinhos que bebem sexta e sábado numa esbórnia, e o resultado disso me dá muito trabalho. Quando chove, os animais se escondem e as estatísticas diminuem. É estranho. É como se a chuva lavasse as ruas. Todos esperam a chuva passar; para beber, brigar. É engraçado esse medo; como se fosse permitido matar, mas, chuva, não; eles têm medo.

Parece que lembram de Deus, pois a água vem do céu aos borbotões, e quando precedem trovões, pedem clemência e se abrigam. Porra-nenhuma de Deus! Na verdade, é a herança animal, primitiva, aquela que retira os filhotes das tocas antes que os ninhos inundem. Os esgotos transbordarão e ninguém quer se sujar. É muito engraçado: é admissível até matar, mas lama no sapato faz-se um absurdo. Na última vez que choveu, fiquei em casa; tirei a camisa pólo preta e a calça cargo. A bota ficou na porta, pesada e fedida, cheia de ferraduras de lama; deixei lá, de raiva, por cansar minhas pernas com o peso excedente. Então deitei e aconteceu: estava sobre mim, fazendo-me de cavalo, grudada como lama em minhas botas.

Eu, de bruços, imóvel e encavalado, pedi alguns beijos só para constatar a suspeita. Um peso excedente sobre meu lombo. Senti lábios pequenos em minha nuca e ouvi estalos: três beijos como se para garantir que era verdade. Um, dois, três; pausados e frios. “É, hoje vai ter”. Estava acontecendo. Projetei cenas de alamedas de pêlos dourados no ventre; lembrei daqueles arcos e das bocetas que haviam me comido em toda a minha vida; queria ensaboar e fazer espuma, para escorregar gostoso. Depois lavar a pele fria, lamber como um leopardo, e cometer redundâncias; o Boca na boca, debaixo, chupando a vermelhidão crua, até ficar quente e sentir o gosto salgado. Ah! Consegui ver as mãos. Eram pequenas e com esmalte vermelho; “graças a Deus é uma mulher!”, pensei. Lindos dedinhos. Dizem que é assim, você fica preso entre duas realidades.

Eu estava preso na cama. Um cavalo montado; sensível e tímido. E você não consegue se mexer, falar. Apenas enxerga tudo em volta, enclausurado em sensações e pensamentos, enquanto lhe sugam num lugar mais estranho ainda: no períneo, precisamente “entre o ânus e a bolsa escrotal”, pensei com minha linguagem afetada.   

Amiúde: entre o cú e o saco; é como se existisse uma boca-ventosa, vampírica, bem ali, sugando toda a sua energia. É como se existisse não, ela está ali, avassaladora e sem pressa, amaciando os poros da pele com a saliva, preparando-se para beber o fluído animal. Parou de chover e ela conseguiu. Furou a pele com a língua e sugou tudo. Juro: nesse instante você diz um puta-merda com hífen e não sente prazer algum e inicia uma oração católica; roga aos anjos guardiões que ela pare de rir no seu ouvido. Mas não pára. Ela continua com um riso raiado, abafado por sua carne; até que alguém permita que você veja o rosto dela.  

Não consigo. A minha cabeça está lá, enfiada no travesseiro e rezando; mas,  de alguma forma, outra realidade se desdobra e você consegue ver. Como se saísse do corpo, você gira o pescoço como coruja e assiste um rosto feminino desmanchar para o nada. O rosto derrete-se em óleo de cozinha fervente e murcha como uva passa. É uma cena passional, envolvendo materiais domésticos. É um rosto derretido como peixe empanado em molho agridoce do china in box. E ela te olha satisfeita com um dos olhos que está sobre a bochecha, caído e pendurado, mas fixo em você. Então você acorda e telefona para a mãe prometendo que largará o emprego de perito criminal. É assim. Esse trabalho de Boca é bi-polar, duro, e com rima fraca. Não goza no final.

 

* Moro em Salvador-BA, e sou autor, entre outros: Gol de Dedão (Antologia de Contos Prêmio Waly Salomão, 2006), Espírito de Porco (Antologia de Contos da Univap, 2005), e em bytes: Hotel Califórnia no “Verbo21”, O Tender é Pinhead, no “Overmundo”, e Mastigando Línguas, no “Cronópios”. E escrevo no blog.

 

 

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Maiesse Gramacho é jornalista, nasceu e mora em Brasília e colabora com a Verbi21. Visite seu portfólio fotográfico.

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