
Colunas: VERDE
Localizando a globalização
por Cláudia Conceição Cunha
“O debate atual do Brasil é esse: não dá para dar as costas à globalização,
só que ela está sendo descrita de maneira incorreta” -
Milton Santos
Muito temos ouvido falar em “globalização”, especialmente ligada a assuntos econômicos e de mercado, tornando expressões como “os efeitos da globalização”, “mundo globalizado”, parte de nosso cotidiano quando nos referimos a facilidades de comunicação ou de oferta de mercadorias. No entanto, na maior parte das vezes falamos dessa globalização sem nos aperceber de suas conseqüências, de suas causas, ou sem nos questionar se ela realmente existe, onde e em que dimensões.
Nestes últimos tempos, revisitei a questão ao assistir o filme “Encontro com Milton Santos ou O mundo global visto do lado de cá”, do cineasta Sílvio Tendler. Portanto, qualquer semelhança com as discussões traçadas neste excelente documentário, não será mera coincidência. Procuro trazer aqui algumas reflexões sobre o que estamos falando da globalização, o quanto (se) ela nos afeta e, principalmente o que não estamos falando da globalização. E uma das coisas que não estamos falando diz respeito às conseqüências ambientais dessa globalização. Fugindo de uma dicotomia sociedade/natureza, político/ambiental não podemos analisar as questões ambientais dissociados do contexto político no qual se inserem.
Primeiro cabe destacar que acredito que o processo de globalização existe, mas o que vemos é apenas uma face desse processo, a face que se mostra através dos produtos “made in China”, através dos filmes que parecem circular nos cinco continentes, etc. No entanto, não vemos a globalização da miséria e especialmente os diferentes lugares que ocupamos nesse processo. No mercado globalizado, todos lucram da mesma forma? No mercado globalizado todos que fazem a mesma coisa ganham os mesmos salários e trabalham nas mesmas condições? Nesse mundo globalizado, dito sem fronteiras, as fronteiras institucionais também caíram? Nesse mundo globalizado, os diferentes países e as diferentes pessoas nesses países se apropriam da mesma forma e para a mesma finalidade dos bens naturais? Se o mundo é globalizado, o “onde” é importante? De que lugar nós estamos nessa história? Do lado de lá? Do lado de cá? Temos um lado? São apenas algumas questões que não responderei nesta conversa, mas que podem animar algumas rodas de discussão, onde estivermos.
A globalização é entendida na maioria das vezes como um mundo sem fronteiras, em que os negócios são feitos livremente entre os diferentes países, em que os trabalhadores migram entre eles, e, nessa lógica, em que as empresas podem usufruir matérias primas de diferentes lugares para a elaboração de determinadas mercadorias. Pois bem, uma primeira reflexão diz respeito à real inexistência dessas fronteiras: TODOS nós podemos realmente circular livremente? Parece-me que não. Inicialmente existem, sim, barreiras legais à livre circulação de mercadorias e pessoas (também o somos?); afinal, o direito de ir e vir está intimamente relacionado à possibilidade de ir e vir. Se não podemos nos deslocar por falta de condições reais para isso (financeiras, de conhecimento), a liberdade antes posta, na verdade não existe, haja vista as limitações colocadas pelos países ricos à imigração, com leis cada vez mais rígidas no sentido de “proteger” seus trabalhadores da invasão de mão de obra de outros países onde as condições não são, digamos, favoráveis. No entanto, essas mesmas empresas (multinacionais) não hesitam em se instalar nesses países para aproveitar a mão de obra barata oferecida, ou utilizar-se dos imigrantes ilegais em seus próprios países para a realização de trabalhos em péssimas condições. Ou seja: as barreiras funcionam melhor para as pessoas do que para as empresas que têm uma maior mobilidade, com menor (ou nenhum) comprometimento com os interesses locais, e cujo centro de decisão é desterritorializado em relação ao local onde se estabelecem. Como alerta o sociólogo polonês Zigmunt Bauman, o fato das pessoas que investem não estarem arraigadas em um local, faz com que não tenham responsabilidade com os outros entes do processo.
No quesito comunicação, a globalização é marcada pela “era da Internet” que circula as informações “livremente” fazendo a questão “tempo” parecer ter outra conotação. Qual o tempo necessário para uma informação atravessar o mundo? Depende. Depende de quem emite a informação, para quem ela deve chegar e qual veículo utiliza. Essa dependência não é carregada de neutralidade, mas fortemente ligada ao poder econômico dos envolvidos. Portanto, o sol nasce para todos, mas de lugar e em intensidades e horários diferentes! Afinal, em um mundo em que a concentração de riqueza cresce assustadoramente, é difícil falar em quebra de fronteiras e igualdade de condições. A maior possibilidade é ocorrer uma polarização entre os que possuem Internet e os que não possuem. Dentre aqueles, os que possuem “acesso discado” e os que têm “banda larga”. Ou seja, são vários estratos sociais diretamente ligados a sua localização na escala social. Poderíamos também falar de quais informações nós realmente temos acesso e quem (o que) as controla.
Bem representativo desse processo é a fala de um dos sujeitos entrevistados no filme do Sílvio Tendler, morador/diretor em uma favela, ele relata que sua arte teve início “na indignação de não se ver representado na tela de cinema e televisão”. Ou seja, as informações que nos chegam são filtradas pela realidade social onde ela está inserida, ou que deseja construir, e nem tudo passa por esse “filtro”. Isso nos leva a lembrar do Brasil rural e o Brasil urbano, das diferentes regiões do País, da representação que se faz de América...O que está representado na tela? O que a Globalização homogeneíza e o que ela esconde? Somos um mesmo País? É claro que não!
A diversidade de interesses e de culturas não pode ficar acobertada por um modelo escolhido e “globalizado”. Quando Milton Santos fala da globalização “vista do lado de cá”, ele deixa claro que existem lados, sim. Lado dos que exploram e dos que são explorados, lado dos que expropriam e dos que são expropriados, lado dos que impactam e dos que são impactados. Mas isso tudo não é simples, pois as relações são complexas e se entrelaçam. Não podemos dizer que somos todos iguais e podemos da mesma forma, e que temos a mesma capacidade de interferir nos processos que ora ocorrem.
Deste ponto chegamos à questão ambiental. No mundo globalizado, os bens naturais são diferentemente apropriados e obedecem a uma lógica de lucro, de acumulação, em detrimento à lógica de uso ligado a necessidades locais. Os bens são produzidos em um local e consumidos em outro, não necessariamente interligados que não seja por relações de dominação e exploração. Afinal, dizer que não temos fronteiras significa dizer que os minerais de um País podem ser “pilhados” por outro País, desde que no livre comércio as regras estabelecidas (que não necessariamente são justas) sejam cumpridas (ou não). Justifica-se a privatização dos recursos naturais por empresas multinacionais que se estabelecem nos países terceiro mundistas apropriando-se das quantidades necessárias/utilizadas para a sobrevivência das comunidades ali residentes. Afinal, a insustentabilidade do modelo em que vivemos pode ser encoberta por mais tempo se pudermos mundializar a exploração. As matérias primas não precisam mais sair “in natura” de seus países, a mobilidade experimentada pelas corporações, que se instalam e utilizam essas matérias primas, permitem a continuidade de um modelo de exploração baseado e ancorado em uma diversidade (de poderes) disfarçada de homogeneidade (de condições).
Cabe-nos discutir este modelo e suas implicações, considerando não apenas a limitação do mundo em que vivemos, mas também a distribuição assimétrica de riquezas em que nele se inscrevem. Precisa cair o véu. Não podemos pensar em mundialização do mercado sem questionar as relações do homem com a natureza, e portanto, entre eles mesmos. A globalização, precisa ser pensada em suas diferentes localizações.
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| Maiesse Gramacho é jornalista, nasceu e mora em Brasília e colabora com a Verbi21. Visite seu portfólio fotográfico. |
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