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Colunas: CINEMA RISCADO
Madeleine Minganô
por Renato Cunha

 

Não é de agora que estou convencido de que o cinema deveria tomar o caminho alternativo que a música tomou. Mas mercado cultural é negócio, e todo negócio tem suas artimanhas.

Exemplo. Vinha ouvindo Madeleine Peyroux e a achando o supra-sumo do jazz retrô contemporâneo. Ela veio a Brasília, cobrou o que quis e eu paguei. Um show morno, que em nada correspondeu à sonoridade de seus discos. Ainda por cima foi realizado no auditório do Centro de Convenções, com cerca de 3 mil lugares e acústica péssima. Mas 3 mil ingressos são 3 mil ingressos! Outra coisa: essa história de compará-la a Billie Holiday, diva de verdade, é puro marketing.

Nem fiquei pro bis. Já no trajeto pro carro, fui pensando que a indústria fonográfica e a cinematográfica muito se assemelham. Hollywood injeta rios de dinheiro num filme qualquer, cheio de efeitos, imagens plásticas, atores da moda e isso e aquilo. Atrelada às empresas distribuidoras, engendra divulgação que ultrapassa o potencial do filme, que, mundo afora, é colocado em salas e mais salas de cinema e, na primeira semana, acaba dando renda para que similares entrem na linha de montagem. Sem contar que, com ele, são empurrados um tanto de enlatados, todos fracassados lá nos Isteites. Lógica capital: se por aqui derem uma bilheteria razoável, já é lucro de se mostrar os dentes.

Eis a tripartição do poder cinematográfico: produção, distribuição, exibição. Quando falo em caminho alternativo para o cinema é pensando — talvez utopicamente — na quebra dessa corrente, que funciona como uma espécie de censura, regulando pela via econômica o que pode ser mostrado.

No caso da música, a coisa andou, mas nem tanto. Levarei adiante o exemplo. A gravadora de Madeleine Peyroux, a Rounder Records, selo independente, para crescer e se tornar uma das grandes, precisou assinar contrato de distribuição com a Mercury Records, atual Universal Music. A mandíbula do sistema é enorme!

Apesar de tudo, vejo que a distribuição informal tem conseguido dar um suor nas gigantes fonográficas. RCA, WEA, EMI e cia., todas da Associação Americana da Indústria Fonográfica, mesmo sem deixar de processar os internautas do planeta, têm sofrido para continuar amarrando o consumidor. Carregadores de iPod em espaço público e tampinhas de refrigerante com código de músicas para serem baixadas na web são algumas das tentativas para não jogar a toalha tão cedo.

Já a indústria cinematográfica (também dominantemente americana) permanece garantida. É claro que a produção, hoje, não é mais um mistério. Com o aparato digital, alguns amigos tecnólogos e pouco dinheiro, se têm feito curtas e longas-metragens de alto nível. Contudo, o problema está em conseguir quem os distribua e os exiba.

Notem a diferença. Uma coisa é baixar músicas na internet, com qualidade razoável, e botar para tocar em casa ou no carro. Outra é baixar filmes e assisti-los num monitor qualquer. A comodidade do lar, até mesmo a daqueles que já contam com os mais modernos televisores, não faz frente ao ambiente das salas de cinema. Seja qual for o suporte, cinema é projeção no escuro, em telão, longe de controle remoto, geladeira ou coisa que os valha.

Uma saída seria a criação de uma rede virtual de distribuição de filmes independentes brasileiros (e por que não do mundo todo?), vinculada a uma campanha para que o governo — em vez de bancar o mecenas de empresas como a Globo Filmes, sem retorno algum — invista na construção de salas de cinema populares, com ingressos taxados em 1 real e administradas por escolas, associações de bairro, sindicatos, oenegês, bares-do-seu-manel e por aí vai. Qualquer rua, esquina, quintal poderá ter uma. Tudo isso incrementado com a promoção de debates e exibição de filmes que já caíram em domínio público. Nada de novo: cineclubismo neles!

Diga lá. Daqui a alguns anos ninguém mais estará ligando para as superproduções hollywoodianas. Os netos de seus netos nem saberão que em shoppings existiam cinemas, assim como não saberão que, por breve período, existiu um disquinho de sei lá o quê chamado CD, a não ser que lhes caia certo livro nas mãos — esses não deixarão de existir nunca.

Estão rindo? Tudo bem! Sei que esse papo é choro de quem não agüenta mais — só pra usar outra palavrinha importada — o mainstream. E, vá lá, até que a mocinha canta direitinho. Me engana, Madeleine! me engana que eu gosto!


 

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