
Colunas: CRÔNICAS HAVAIANAS
Mínimas, e natalinas
por Eliana Mara
Não poderia ser diferente a escrita da última crônica havaiana do ano: entre uma compra e outra, no meio de tantas atividades, nem úteis nem racionais. Vejamos: uma crônica sobre a época das festas só pode ser um paradoxo, um erro de essência. Chamar de “época das festas” esta época de transtornos múltiplos é já o início de um erro de base. O que piora as coisas é que este é um tema batido. Poderia até ser um bom título para uma antologia: as melhores crônicas sobre as piores épocas de festas.
Partindo do princípio de que aquilo que me incomoda pode ser o incômodo de mais alguns milhares de pessoas, decidi declarar aqui minha completa ojeriza e pânico a estes dias felizes.
Começo por dizer que sempre prometo a mim mesma que não, não participarei desta fraude. E sempre me traio, sempre caio nas armadilhas de minha mãe, minha filha e de alguns amigos e parentes afastados. Neste ano, meu maio desafio é não comprar presentes. Para ninguém. Sem exceção. Ano passado o desafio era não comer peru.
Ontem vi um par de sapatos que havia prometido para minha mãe. Vocês já sabem que amo mesmo minha mãe. Mas ela é uma pessoa estranha ao receber presentes. Sabem aquele tipo que desfaz o pacote, olha para o presente com um olhar indefinido. E você, ali esperando,ávido, uma resposta afirmativa, uma manifestação do seu acerto. E ela diz, ah, minha filha, não precisava. E passa a comentar sobre os últimos presentes da Bete, minha irmã mai s velha, que é filha preferida. Moro num condomínio com vários funcionários e porteiros. A maioria não merece nem que eu cumprimente, mas para meu azar, no saldo geral do ano, me vem a lembrança de cenas em que um ou dois foram excepcionalmente gentis e cuidadosos. Começo a pensar em dar a eles um presente, e entro em pecado. O pecado das lembrancinhas. Para as pessoas pouco importantes na sua vida, mas que por algum motivo precisam saber que você lembrou delas, você vai dar a famigerada lembrancinha. Que vai ser, infalivelmente, um presente inútil e equivocado. Um par de meias, uma caneta barata, uma agenda de brinde que você ganhou de alguma empresa. A lista de gafes com relação a presentes de Natal é infinita. Sem falar no caso da Cidra Cerezer ou da síndrome dos pobres de querer imitar os ricos, principalmente no Natal.
Tenho uma máxima: se algo pode dar errado numa relação, pode ter certeza que isso vai acontecer no Natal. A namorada que sua família não suporta, vai parecer mais insuportável. A sogra vai lembrar ao genro desempregado que ele está há seis anos desempregado. O ex-marido vai mandar um pijama de ursinhos para o filho que já está cursando o último ano de Direito. As mulheres vão cozinhar até a exaustão e passarão toda a noite reclamando dos homens, que não ajudaram na cozinha. Imagino que cada um de vocês tenha um arquivo de lembranças das gafes e das brigas de Natal. Natal é a época mais previsível do mundo.
Eu me irrito profundamente com a insistência no Papai Noel. Um amigo meu, Ismar Barreto, grande compositor sergipano, que estando morto ficou livre da chatice natalina, dizia que Papai Noel é gay. Não dá para acreditar naquelas renas e anõezinhos sempre atrás dele e com certeza, essa roupinha vermelha cheia de bolinhas, não dá margem para erros. As lojas contratam os desempregados e desiludidos para fingirem que são Papai Noel. Muitas vezes, o cara é magro como um palito, porque está desempregado há muito tempo e come mal. Então, usam alguns truques baratos para que o sujeito fique com aparência saudável e feliz de Papai Noel. Aquela roupa quente, inadequada. Nós, em pleno verão, olhando para aquele homem, mal vestido e desanimado e temos coragem de levar nossas crianças para o seu colo. E ainda mais com os casos de pedofilia. Eu não levaria meu netinho para sentar no colo de nenhum Papai Noel. Muito menos, deixar ele falando certas coisas no ouvido de minhas sobrinhas.
Natal e Ano Novo vêm junto com os carnês e cartões de crédito que vão perseguir as pessoas por vários meses. Todas as bobagens feitas neste período duram pelo ano todo.
Esta época das festas dá assunto para várias crônicas. Mas estou numa lista do outro horror do período: os amigos secretos. Isto daria um capítulo a parte, juntamente com as confraternizações com o pessoal do trabalho, mais aquela lista que fazemos para nossos planos para o ano vindouro.
Quero aproveitar este espaço para agradecer, de coração, aos leitores que acompanharam não só as crônicas havaianas, mas toda a Verbo 21. Foi minha primeira experiência como cronista, em coluna mensal. Aprendi muito. Agradeço especialmente a Lima Trindade, meu amado editor, e ao trabalho luxuoso de Ernesto Diniz, na formatação e visual todo da revista.
Ano que vem, se meu contrato for renovado, estou pensando em manter uma coluna nova, intitulada crônicas híbridas. Aguardem surpresas. Da lista de desejos de Ano Novo, declaro um: que o espírito natalino seja substituído pelo espírito do Aloha. Se tudo funcionasse como as Havaianas, que não deformam nem soltam as tiras, isto aqui, ao invés de ser uma terra de doidos, seria o paraíso.
Hasta la vista, baby
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