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Colunas: DAGUERREÓTIPOS
Resenha de uma Manhã Ordinária
por Tom Correia

 

Olhei para cima e não vi o eclipse. Tanto fazia, não via graça nele. Andava obcecado, avaliando o que as minhas escolhas me proporcionaram. Percebi que estou em falta com muita gente, tantas pessoas, coitadas, que reagem em silêncio às minhas atitudes de afastamento. Em falta com a amiga de muitos anos para quem não ligo mais em dia de aniversário; em falta com o irmão que me relatou suas aventuras no seu trabalho de coveiro. A sua mesma conversa de sempre me enfarou ao ouvir suas façanhas necrofílicas com uma garota de 16 anos. Calado, rompi os elos que ainda nos mantinham presos. Deixei de procurá-lo e hoje estou com remorsos, detestando o meu moralismo enviesado.

Na estação rodoviária um redemoinho. Gosto das estações, principalmente aquelas de cidades pequenas, que se resumem a uma mera parada. Uma troca de motoristas, o fiscal que entra com sua canetinha bic sem bocal e roída na ponta, a conferir com zelo as passagens coloridas de cada um. Noto com atenção os que tomam conta dos banheiros acanhados e que recebem as moedas dos viajantes "apertados". A estação da capital é até bem cuidada, gosto de lá, principalmente de ficar zanzando na sua livraria de cheiro particular.

Andando aqui e ali, reparo que poderia fotografar a escadaria que dá acesso ao salão principal. Uma escadaria curta, desembocada de um subsolo. Estava sem movimento e vi um par de canelas brancas subir lentamente pelos degraus. Deduzo que se tratava de senhora reumática, talvez evangélica. Senti falta de uma câmera, até digital mesmo serviria. Atrasei meus passos para observar a visão resumida apenas a pés que iam e vinham, pelos degraus. Cada par de pés com sua história, com sua viagem marcada, passos ligeiros para aguardar alguém que chega. Um tio doente, uma prima de pernas grossas. Um pai arrependido.

Com olhos acromatas, vejo as meninas interioranas facilmente reconhecidas pelas roupas e pela timidez; a atendente rígida e sem sorrisos da farmácia onde certa vez aconteceu um seqüestro. Perambulo como um passageiro deslocado no tempo. Vago aqui e ali e finalmente resolvo comprar o primeiro livro de Dalton Trevisan. Eu, sempre defasado. Sempre.

No meio do trânsito fiquei me indagando o porquê de não pertencer a lugar nenhum, a pessoa alguma. Eu, símbolo de não pertence; não estou contido: conjunto vazio de mim mesmo. Aguardo o ônibus, lendo o vampiro , quando um redemoinho surge no meio da rua. O passeio éolico dura alguns minutos e ficamos todos olhando seu trajeto. Os corrupios que levantavam a poeira que se dispersaria em ciscos no olho, arremessando longe os copos plásticos tocados por bocas de variados graus de promiscuidade, transformando em pipas deformadas os sacos que já haviam sido de compras...

Vejo as meninas fornidas que passam, todas em direção ao ônibus do subúrbio. Seus corpos são bem feitos; os cabelos, nem tanto. A condução demora e, ao olhar para trás, vejo uma lotérica. Nunca acreditei nelas. O trânsito, as escadas da estação, o redemoinho... tudo ali, ordinariamente provocando em mim outras inquietações. Surtaria?

Terei também remorsos num dia futuro, ao lembrar da mão queimada de minha mãe me oferecendo uma maçã.

"Somos aquilo que perdemos". 

 

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