
Ensaio
Diário de uma Guerra Suja
Por Ademir Luiz*
Sou culpado, confesso. Estou dentre os milhares, ou milhões, de brasileiros que assistiram a uma das famigeradas cópias “caseiras” do filme Tropa de Elite, disponibilizadas pela internet. De acordo com os rígidos critérios do capitão Nascimento, protagonista e narrador do filme, sou um dos responsáveis pelo fomento da indústria da pirataria brasileira. O que me torna passível de ser torturado, asfixiado com um saco plástico na cabeça, ou, quem sabe, levar um balaço. Tropa de Elite não é um filme de sutilezas. Tudo nele é explicito e levado às últimas conseqüências. Essa é sua grande qualidade.
A cópia pirata não é o corte final do filme. O que significa que ele pode melhorar. Até então, esteticamente, Tropa de Elite não é grande cinema. É uma produção caprichada, possui um roteiro bem resolvido e algumas ótimas interpretações, mas não resiste, por exemplo, a uma comparação com Cidade de Deus, por mais que o parentesco entre as duas obras tenha sido alardeado na imprensa. Da mesma forma, querer nivelá-lo tecnicamente com os filmes de ação hollywoodianos, como alguns tem feito, é exagero. A tão falada participação de Phil Nielson, coordenador de dublês de Falcão Negro em Perigo, deu-se apenas durante metade das filmagens e não ocorreu em condições ideais de trabalho. O fato é que a opção inteligente pela edição acelerada valorizou sua estética de documentário à moda Supremacia Bourne.
Tropa de Elite é, sim, um exemplar acima da média do bom cinema de entretenimento à brasileira. Por isso tem feito sucesso com o grande público, geralmente avesso aos chamados filmes de arte, filmes com mensagem, filmes reflexivos etc. Mal comparando, Tropa de Elite pertence à tradição de longas como Matrix, Coração Valente, Máquina Mortífera e O Pacto dos Lobos. Trazem lá suas sutilezas, mas encantam mesmo pelo que apresentam de mais superficial: violência crua, gratuita, bem orquestrada e, sobretudo, convincentemente justificada no roteiro. O tipo de filme que agrada gregos e troianos: tanto o público médio, ávido por sangue, quanto o público intelectualizado, capaz de enxergar mil metáforas sociológicas na cor vermelha do sangue. Se fosse mais sutil, com violência apenas sugerida, Tropa de Elite passaria despercebido fora do circuito alternativo.
Obviamente, a violência faz parte do universo abordado pela obra. Alimentá-a, justifica suas pretensões à polêmica. Neste sentido, a opção do diretor José Padilha em fugir dos estereótipos de mocinho e bandido se revela não necessariamente um mérito, mas o caminho natural nestes tempos de patrulha ideológica pelo politicamente correto. Mostrar tanto traficantes quanto policiais humanizados, com defeitos e qualidades, medos e dúvidas, é apenas o ABC das cartilhas do cinema contemporâneo, pós-11 de setembro. Em Tropa de Elite funciona muito bem. Todos são culpados e, paradoxalmente, todos são inocentes. Não no sentido criminal do termo, mas no sentido de acreditarem que estão fazendo o que é certo. Mesmo sem saberem exatamente as razões. A certeza visceral basta. Os traficantes, indivíduos sem possibilidade de inserção social, também são pais de família e, naturalmente, defendem seus territórios. Os policiais corruptos, atolados em um sistema viciado, naturalmente só seguem a maré. Os jovens bem-nascidos, com “consciência social”, fumando baseados nas sedes de suas ONGs, naturalmente, seguem o que aprenderam nos livros (Foucault é personagem da mais fina ironia do filme). Os “incorruptíveis” policiais do Bope, fazendo guerra de guerrilha, combatendo inimigos dispostos a tudo, naturalmente, seguem a Lei de Talião - olho por olho dente por dente. Todos carregam sua parcela de razão, o que implica constatar que ninguém está certo.
Considero a melhor parte do filme a cena em que se discute Foucault em uma universidade. Estranhamente essa é, talvez, a seqüência mais desleixada. Foi filmada como se fosse teatro amador, com os atores quase constrangidos. Ou seja, captou o tom exato do formalismo depressivo dos seminários acadêmicos. Ficou ótima, ultra-realista. Justamente nesta cena fica explícito que ninguém sabe do que está falando, que a realidade é muito mais complexa do que podemos supor, que é muito fácil defendermos equívocos
Talvez tenha sido justamente a complexidade inalcançável da realidade que acabou levando Padilha a, consciente ou inconscientemente, transformar a matéria-prima real de seu filme em uma super-realidade. O trio de policiais do Bope que conduzem o enredo são facilmente identificáveis com arquétipos da cultura pop. Nascimento, Neto e Matias estão distantes do homem comum, não são policiais por acaso, como poderiam ser vendedores de carros usados ou açougueiros. Não, para eles o trabalho policial não é apenas um trabalho, é um destino inescapável. Um destino que os define, fazendo-os se destacarem na tropa. Suas trajetórias possuem certo tom épico superficial, típico das histórias em quadrinhos para adultos. A rigor, em suas roupas pretas e posturas de vigilantes, são tão tridimensionais quanto o formato bidimensional dos quadrinhos permite. Nascimento é Batman, Neto é Robin e Matias é o Homem-Aranha.
O capitão Nascimento, na ótima interpretação de Wagner Moura, é um psicopata depressivo e moralista, imbuído de um senso de justiça muito particular, que acredita exercer papel decisivo em uma guerra urbana. Batman. O quartel-general do Bope lembra a bat-caverna, no que tem de sombrio, futurista e repleto de aparelhos de ginástica. Não por acaso, a seqüência do treinamento dos candidatos ao Bope é uma mistura de Batman Begins com A Força do Destino e Nascido Para Matar. Sua narração em off é típica de heróis atormentados. Clichê em diversas mídias, desde que Frank Miller escreveu e desenhou o genial O Cavaleiro das Trevas, nos anos de 1980.
Significativamente, Nascimento é a figura paterna para Neto, interpretado por Caio Junqueira. Talentoso com uma arma nas mãos, Neto é recrutado para combater do lado do “bem”, na condição de herdeiro natural do capuz de seu mentor. Adota a Caveira, emblema do Bope, como se adotasse o símbolo do morcego. Acaba pagando o preço por seu entusiasmo juvenil. Morre nas mãos do “vilão” maior da história. Robin. O clímax do filme ocorre justamente quando a vingança se realiza.
André Matias, interpretado com dedicação pelo estreante André Ramiro, é o personagem mais complexo dentre os três. É inteligente e sabe que o caminho para o sucesso está nos estudos. Quer ter uma vida comum, tranqüila. De origem humilde, entra para a polícia como forma de conseguir ascensão social, como um degrau para alcançar seus verdadeiros objetivos. Porém, uma vez dentro do Bope descobre que “grandes poderes geram grandes responsabilidades”. A revelação de sua “identidade secreta” coincide com a perda de uma pessoa querida, em uma tragédia da qual foi o culpado indireto. Matias vê-se diante de um dilema. Acaba por abdicar de seus desejos, sacrifica sua vida particular em prol de um bem maior: o combate ao crime. Homem-Aranha. A cena em que interrompe uma passeata pela paz nas ruas do Rio de Janeiro, para espancar um manifestante que lhe deve satisfações, é um dos pontos altos do filme.
Muitos apostam em Tropa de Elite como candidato fortíssimo ao Oscar do próximo ano. Tudo é possível, mas não estou tão certo. O Oscar de Filme Estrangeiro é a única categoria em que o cinema de arte é prestigiado pelos membros da Academia de Hollywood. Tropa de Elite não se encaixa neste perfil. Comunica algo maior apenas para nós brasileiros, na medida em que reconhecemos seus cenários. Diferentemente de Cidade de Deus, com toda sua sofisticação antropológica, para o espectador estrangeiro, a crueza de Tropa de Elite não difere muito da de centenas de outras aventuras policiais. Falta humor ao filme. Refiro-me a humor crítico, não a alívio cômico. Talvez um elemento irônico ajudasse a definir melhor sua posição. Com essa edição, Tropa de Elite dificilmente pode ser descrito como um filme denúncia. Pelo contrário, é quase uma apologia.
Tende a transformar-se em bandeira. Esse é o maior perigo. Muitos policiais se identificaram com os super-heróis de Tropa de Elite. Vibram com seus atos violentos porque, afinal, os fins justificam os meios. Enxergam neles defensores da ordem, contra o caos da criminalidade. Neste ponto suas naturezas de arquétipos revelam todo seu poder de convencimento. Fazem o espectador esquecer que mesmo em uma guerra existem leis (a Convenção de Genebra existe). Tal entusiasmo encontra eco na classe média, encantada com a violência gráfica, tipo vídeo clipe, do filme. Ironicamente, a mesma classe média cujos filhos escutam entusiasmados as músicas de denúncia social dos Racionais e congêneres.
O que levá-nos de volta à cena do debate foucaultiano na sala de aula da universidade. Impossível opinar com pleno conhecimento de causa. De lado a lado. Por isso, Tropa de Elite não faz perguntas nem apresenta respostas. E um espetáculo cinematográfico que impressiona os sentidos e nocauteia o cérebro. Como o primeiro Rambo. Mas quem disse que Rambo não foi um filme sério?
*Ademir Luiz é professor da UEG e ficcionista. Autor do romance Hirudo Medicinallis.
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