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Ensaio
A Viúva Performática
Por Aline Miklos & Ademir Luiz*

                                                                                                      

Um dos objetivos iniciais deste artigo era produzir uma crítica à exposição Yoko Ono – Uma Retrospectiva, sem citar o nome de John Lennon. Considerávamos um clichê insistir na relação. Pretendíamos tentar mostrar que a arte de Yoko Ono existe independentemente do beatle. Porém, nossa ingênua tentativa de originalidade revelou-se um fiasco. A tarefa mostrou-se impossível e foi abandonada. Implícita ou explicitamente, a própria Yoko Ono alimenta a projeção da imagem de um sobre a imagem do outro. Citações à Lennon estão por todos os lados: dos óculos redondos manchadas de vermelho da série Objetos de Sangue até o vídeo Sorriso, de longos cinqüenta e um minutos, mostrando apenas uma foto de Lennon. O fato é que se um dia sua produção artística foi independente do marido, há quase trinta anos que já não é mais. Por uma opção consciente.

Isto não significa que Yoko Ono seja uma outra María Kodama, a viúva nipo-argentina do velho Borges. Absolutamente. Lennon admirava seu talento e, por mais que negasse, se submetia a sua fortíssima personalidade. No Olimpo da arte popular, sem mais nada para conquistar, acreditava que ela poderia ser seu passaporte para entrar no mundo da grande arte pós-moderna. Qualquer pessoa que leia as entrevistas que concederam juntos percebe que era a “Mulher-dragão”, apelido de Yoko, que mandava. O que por si só já é uma grande “performance”. Ademais, todo artista tem o direito de traduzir artisticamente suas experiências pessoais. Não cabe ao público julgar moralmente tal opção. Cabe, sim, julgar esteticamente o resultado.

O grande equívoco dos admiradores de Yoko Ono, movidos por um curioso recalque, é tentar forçar a improvável tese de sua superioridade artística sobre Lennon. Procuram reproduzir artificialmente o triunfo de Frida Khalo em cima de seu marido, Diego Rivera. Na verdade, a proporção se assemelha mais àquela existente entre Rodin e Camille Claudel. Lennon foi um gênio da música popular, líder da maior banda de todos os tempos. Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band é um monumento que impressionou até mesmo Stockhausen, o papa da vanguarda musical do século XX. Yoko Ono, por outro lado, é uma criadora respeitável, mas está longe de ter a estatura de um Duchamp, Andy Warhol ou Pollock. Pertence ao segundo time dos artistas contemporâneos. A rigor, até mesmo Peggy Guggenhein, em sua posição de mecenas, foi mais influente do que ela.

De todo modo, a comparação não é das mais coerentes, já que atuavam em áreas distintas.

Mas, independente de tudo, a exposição Yoko Ono – Uma Retrospectiva, que acontece no Centro Cultural Banco do Brasil de São Paulo, de 10 de novembro de 2007 a 03 de fevereiro de 2008, é um evento importante. É provável que a maior parte dos espectadores compareçam motivados pela curiosidade de ver o que afinal de contas faz a viúva Lennon, além de controlar com mãos de ferro o espólio do falecido. Muitos destes desavisados se surpreenderão positivamente. Apesar de algumas ausências, como seu trabalho musical e experimental com Lennon, Yoko Ono trouxe parte representativa de sua trajetória, reproduziu algumas peças especialmente para São Paulo e ainda abriu espaço para convidados como Enzo Mari e Jeff Koons.

Há obras que remetem à participação de Yoko Ono no grupo Fluxus, o movimento vanguardista dos anos de 1960 que mesclava várias artes em busca de uma antiarte, até peças mais recentes, onde é explorada a fórmula da negação do objeto artístico, expondo apenas instruções conceituais de como ele deve ser. Ganham destaque as lendárias instalações que marcaram os primeiros encontros entre John e Yoko: a escada branca com lupa e a tábua dos pregos. Ambas, é claro, apesar de serem, em tese, obras interativas, estão fisicamente inacessíveis ao público. Ninguém mais sobe na escada branca de John Lennon. O “yes” tornou-se “não, não pode”.  Não pode porque, hoje, a escada deixou de pertencer a uma arte propositora para se tornar um objeto sacralizado e de alto valor econômico, o que chega a contrariar um pensamento comum entre os artistas que aderiram ao movimento da arte conceitual.

Negação que não combina com o caráter eminentemente “positivo” e libertário da obra da Mulher-dragão. Por exemplo, logo na entrada da exposição somos convidados a participar das obras mais interativas: primeiro escrevemos em um papel nossos desejos e penduramos na chamada “Árvore da Paz”. Depois, o visitante é convocado a percorrer e, ao mesmo tempo, construir seu próprio “caminho das pedras”, feito da matéria-prima de nossas esperanças e medos. Ainda na entrada, no “Jogo de Xadrez Branco”, Yoko Ono pede a cada jogador que “deixe a confiança tomar conta”, para tornar possível a disputa em um tabuleiro monocromático com peças monocromáticas (Aline Miklos 1 x 0 Ademir Luiz).

Boa parte da exposição é formada pela série conceitual de instruções, que procuram mostrar a efemeridade do objeto artístico, promovendo sua dessacralização. Baseiam-se em frases que propõem ao expectador novas atitudes em relação à vida e ao mundo. Infelizmente, apesar de ter uma imaginação visual bastante rica, escrever é o ponto fraco de Yoko Ono. Seu texto é pobre e ingênuo. As palavras “paz” e “amor” são repetidas continuamente, sem maiores problematizações, tanto em peças antigas quanto nas mais recentes. Em se tratado de um discurso artístico, que se propõe também político, a falta de profundidade é patente. Se os termos “paz” e “amor” falavam por si só nos anos 60, no contexto dos cínicos anos 90 soam perigosamente pollyana. Um exemplo deste tom meio politicamente correto meio auto-ajuda pode ser encontrado na Peça Para Limpeza III, de 1996, onde Yoko Ono dá a seguinte fórmula: “Tente não dizer nada de negativo para ninguém. A – durante 3 dias. B – durante 45 dias, C – durante meses. Veja o que acontece em sua vida”.

Se por um lado, a frouxidão verbal denúncia certa preguiça intelectual por parte de Yoko Ono, por outro lado, marca sua coerência. Há quarenta anos seu discurso é o mesmo. Isso pode ser interpretado de forma positiva ou negativa, dependendo de quem vê. Mas o fato é que, entre clichês como Objetos de Sangue (1993) ou trabalhos interessantes, como o Memória Vertical, ela segue produzindo. Não com o mesmo vigor de décadas atrás, mas continua uma artista produtiva, ousada e polêmica. Sempre no olho do furacão, sendo acusada pelo que fez e pelo que não fez, a Mulher-dragão resiste a tudo. Sobreviveu ao fim dos Beatles (culpada ou inocente? Pouco importa!), ao assassinato brutal de seu marido, ao peso da própria fama e má fama e, sobretudo, ao canibalismo fanático de seus admiradores. Pelo menos para os felizes visitantes da exposição, Yoko Ono talvez não seja mais, como dizia John Lennon, a artista mais famosa e menos conhecida do mundo.

 


* Aline Miklos é mestranda em História da Arte na Ècole des Hautes Études, Paris.
* Ademir Luiz é ficcionista, doutorando em História na Universidade Federal de Goiás e professora da Universidade Estadual de Goiás.

 


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