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Depoimento
DEPOIMENTO: PAULO LINS
“A maior parte do tempo, eu não faço nada”
Por Maiesse Gramacho

Foto: Divulgação/Editora Planeta

Um dos mais importantes nomes da literatura brasileira contemporânea encerrou o projeto Laboratório do Escritor, realizado no Centro Cultura Banco do Brasil (CCBB) de Brasília ao longo de todo o ano de 2007. No último dia 27 de novembro, o “carioquíssimo” Paulo Lins brindou os brasilienses com suas simpatia, revelações e opiniões.

Descontraído, o autor do consagrado Cidade de Deus falou sobre a atividade de escritor e de roteirista, das influências sofridas, comentou a relação com a crítica e contou como funciona seu processo criativo. “Tem que estar aquele silêncio...”. Lins arriscou, inclusive, uma receita para “consertar” o Brasil: “Todo mundo sabe que o que vai mudar o país são políticas públicas e distribuição de renda”.

Como era de se esperar, boa parte da conferência foi dedicada a Cidade de Deus, considerado por estudiosos a obra inaugural do que se poderia chamar “literatura da periferia”. O livro – tido como a obra-prima de Paulo Lins – se tornou um clássico das letras brasileiras. Seus personagens – ao mesmo tempo vítimas e algozes do “sistema” – revelam aquilo que deveria ficar debaixo do tapete, ou melhor, no alto do morro...
Em sua breve passagem pela capital federal, Paulo Lins falou, ainda, de seu novo livro, Desde que o samba é samba é assim, em que entrelaça a história do samba com a do cantor e compositor Ismael Silva. Atualmente, ele também trabalha no roteiro de Faroeste Caboclo, filme inspirado na letra da canção de Renato Russo.

Confira, a seguir, os principais trechos da apresentação do escritor.

Prosa X Poesia
Eu digo que eu sou poeta, faço poesia desde sempre... Mas dá muito trabalho publicar poesia... É horrível para vender. Faço por prazer.

“Nascimento” do Cidade de Deus
Eu entrei para um projeto da [antropóloga] Alba Zaluar. Ela queria entrevistar moradores da Cidade de Deus que estavam envolvidos na criminalidade, e era difícil ter acesso a essas pessoas. Então, como eu vivia lá, ela me chamou para ajudar. Eu fui, mas por um motivo específico, não por causa do projeto...  O motivo era que a Alba tinha uma assistente linda... Aí eu decidi participar... (risos) Acabei casando com essa mulher e tive uma filha com ela.
Fiquei dez anos com a Alba Zaluar, e um dia ela me pediu para fazer uns relatórios. Eu disse a ela que não sabia escrever na linguagem exigida, mas que poderia fazer um poema. Aí fiz o poema. Ela mostrou para o Roberto Schwarcz, que gostou e acabou me chamando para escrever o romance. O romance surgiu por causa desse poema.

Influências
A influência de José Lins do Rego foi muito forte na elaboração do Cidade de Deus. Eu acho que ele me influenciou na linguagem e na estrutura do livro, mas tem coisas que a gente vai pegar em Aristóteles, em Rimbaud... Eu decoro os livros que gosto, sabe? O Zé Pequeno tem coisas que tirei de Nietzsche. Só faço uma adaptação.

“Jeitinho” brasileiro
Eu vou enrolando... Quando falta uma semana para entregar o roteiro, eu vou lá, escrevo e mando. Meu editor, que agora fica em Madri, às vezes me pergunta: “E aí, Paulo, está escrevendo? Eu queria que você mandasse pelo menos umas 50 páginas...”. Então eu escrevo as 50 páginas que ele quer e mando. Deixo para a última hora, como todo brasileiro... (risos) A maior parte do tempo, eu não faço nada!
O Marçal [Aquino] também fica me perturbando: “Ah, Paulo, você não lança livro!”. Mas o Marçal lança livrinho fininho assim... Cem páginas! Pô, assim é mole! Meu livro fica em pé na estante! (risos) O que estou escrevendo já tem 250 páginas e no final deverá ter umas 400!

Pesquisa
Para este livro que estou escrevendo agora [Desde que o samba é samba é assim], fui ao Arquivo Nacional umas quatro vezes... Só uso a pesquisa naquilo que não posso inventar, criar em cima.

Roteiro
Roteiro é chato, pô! Tem ator, produtor... Todo mundo quer se meter: diretor, ator, até o assistente de direção! Ator é chato pra caramba! Tem frescura... E aí o roteiro vai mudando...  Eu não vou nem para o set. Eu entrego o roteiro e pronto. Mas aqui em Brasília [para Faroeste Caboclo] eu venho. Eu quero fazer esse filme... Foram quatro pessoas que me chamaram para fazer o Faroeste. Mas ninguém conseguia fazer, porque não conseguiam comprar os direitos autorais da família do Renato Russo. Passou um ano e o René [Sampaio] me ligou: “Paulo, comprei os direitos!”. Ele me chamou para fazer o filme e eu topei. Lógico, né?!

Roteiro pode virar conto ou romance?
Não, não.  Branco é branco, preto é preto. (risos) No roteiro é tudo muito técnico, são os diálogos que têm poesia. A descrição da cena pode se tornar poética, mas a feitura do texto não é poética. Isso me incomoda muito. Eu seria roteirista sem ser escritor.

Encomenda
Roteiro, só se me chamar para fazer. Eu não vou escrever um roteiro e ficar oferecendo: “Olha, quer comprar?”. Aqui no Brasil funciona assim: todo mundo que faz roteiro trabalha por encomenda. Nos Estados Unidos, não. Lá tem banco de roteiros.
Cidade de Deus foi encomendado. Esse [Desde que o samba é samba é assim], não. Só me pediram um romance, mas fui eu que escolhi sobre o que iria escrever.

Personagens
Ás vezes as coisas fica séria, porque você tem que sentir as emoções dos personagens... Eu fiquei com uma raiva danada do Zé Pequeno quando descobri que ele tinha nascido em setembro. (risos) Agora, quando estou escrevendo sobre o Ismael Silva eu fico contente, porque é só alegria. Já o João do Santo Cristo, de Faroeste Caboclo...

Processo criativo
Eu falo sozinho como um louco! Tudo que eu escrevo eu falo antes. E tem que estar aquele silêncio... Escrever é muito doído, é muito difícil. Para concentrar é difícil. Não pode ter ninguém, tem que estar um silêncio absoluto; não pode ser de dia... De dia só se eu estiver isolado. Eu não tenho celular, não tenho TV a cabo, só vejo e-mail. Por telefone ninguém me acha. De dia eu leio.

Leituras
Romance, poesia e filosofia. Leio bastante.

O “branco”
Eu encho a cara. (risos) Vou para rua tomar cerveja... Ou então ligo para outro escritor, e falo, falo... Ligo para o Marcelo Yuka, que é uma pessoa com quem tenho muita afinidade, ligo para a Heloisa Buarque de Holanda, para o Roberto Schwarcz... Mas nunca tive um branco de uma semana. Tenho branco de uma noite, só.

Crítica
Se não tiver crítica, acabou, né? O problema é quando não tem crítica e ninguém fala nada. Geralmente, quando você não gosta de um crítico, ele fala bem de você. E quando você gosta, ele fala mal.

Inclusão
A inclusão do negro se dá através da cultura, e esse livro que estou escrevendo – Desde que o samba é samba é assim – mostra isso.

Lê o próprio trabalho?
Não li Cidade de Deus depois de publicado. Eu tenho pavor de ler coisas minhas que já foram publicadas. Tenho medo de achar alguma coisa que poderia ter mudado ou que deveria ter escrito...

Brasil
Todo mundo sabe que o que vai mudar o Brasil são políticas públicas e distribuição de renda.

Criminalidade
O processo para entrar na criminalidade é lento, é vagaroso. O sujeito entra com dez anos, vai fazendo uma coisa aqui, outra ali... Com 17 anos, ninguém mais vira bandido. Isso é uma coisa que qualquer sociólogo sabe. Pegar numa arma e apertar o gatilho não é para qualquer um! Se fosse fácil... Até o sujeito sair para assaltar, é um processo gradativo... Dentro da favela, você já sabe quem é que vai e quem não vai virar bandido. Os mais pobres entre os pobres é que são pinçados pelo tráfico.

Preconceito
Na favela sempre tem gente que gosta de teatro, que lê... Tem gente que acha impossível que na favela tenha alguém que leia Balzac. Esse é um pensamento de classe média que não vai aceitar nunca que um cara em Ceilândia esteja lendo Mallarmé.

Política
Eu era de esquerda, agora não sou mais não, viu! (risos) Quando eu estava escrevendo o livro [Cidade de Deus], eu achava que ia mudar a sociedade brasileira: “Esse livro vai trazer à tona uma coisa que o pessoal vai pensar, vai mostrar que não é com tiros que vamos mudar a realidade dos morros, das favelas...”. Eu achei que isso fosse acontecer. E quando eu vi, estava era todo mundo torcendo para que o filme ganhasse o Oscar! Eu pensei: “Não era isso que eu queria, eu pretendia uma discussão, um debate...”. Fiquei desiludido.

Desde que o samba é samba é assim
Com esse novo livro, eu quero é pôr todo mundo para cima, todo mundo sambando! (risos)

 

O projeto
O Laboratório do Escritor levou a Brasília, entre abril a novembro de 2007, escritores consagrados. Além de Paulo Lins, participaram Marçal Aquino, Luiz Vilela, Luiz Ruffato, Milton Hatoum e Lya Luft. Nas conferências, cada autor teve a oportunidade de compartilhar com o público o seu processo criativo, detalhando a forma como concebem idéias e as transformam em livros. (MG)

 

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