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Colunas: KAOS KAPITAL
Mahler, Cojorian e o Espírito do Natal
por Alex Cojorian

 

Nunca pensei que eu pudesse ver meu nome bem ao lado do Mahler. Por outro lado, literalmente, menos ainda do Espírito do Natal. Mas veja como são as coisas, elas vão acontecendo e basta estar vivo para estar exposto às intempéries dos eventos e dos dias. Nada mais impressionante do que sair do temporal – sim, porque já aconteceu aquela súbita mudança, de oito de secura pra oitenta, noventa, cem por cento de umidade relativa! –, do temporal reluzente de nuvens beligerantes no infinito céu brasiliense, entremeado o cinza borrascoso e as luzes do fim de tarde – advindas do horário nazista de verão – que furam as nuvens e atravessam as gotas que descem do céu, em plena luta, bem no centro da cidade, contra o Espírito do Natal de 2007, erguido em monumentais luzinhas, árvores de natal, mil dourados laços de fitas e muito branco e vermelho coca-cola, nada mais impressionante do que sair desse embate dos elementos para entrar no Teatro Nacional e deparar, lá dentro, com essa outra tempestade, conjurada na intimidade acarpetada do anfiteatro pelo Mahler, pelo maestro Ira Levin e pela Orquestra Sinfônica: a Quinta Sinfonia começa fúnebre e mortuária, e segue com seus trotes de banda militar e estrondos e relâmpagos e faíscas e... a gente, como num barco furando a água arrepiada, no meio do vendaval, eu fico só lembrando que lá fora há árvores de natal e papais noel gigantes soçobrando ao vento e chuva tropical, e eu fico torcendo pra que caia logo um raio sobre um desses ícones ridículos que a cristandade ainda erige em prol de um obscuro sentimento de fraternidade – bem oposto, aliás, ao que prega o papado de Bento em seu apostolado germânico no tocante às culturas ameríndias, muçulmanos, e tudo quanto não seja católico apostólico romano – e que todo mundo, desejando sublimar os recalques, pragmaticamente substitui por bens, compras, compras, compras, e deixemos as culpas e o aborrecido e falastrão divã do analista em troca dessas bugigangas novinhas e reluzentes, mas também as ínfimas moedinhas a seu menino guardador de vaga, e infinitos pedintes variados, jovens, ou muito velhos, por vezes depauperados em sua forma física, e não menos tortos de espírito do que qualquer um de nós que vagamos em roupas limpas pelas alas fluorescentes em busca do Espírito do Natal, e sabemos que um pouquinho dessa coisa deve, certamente deve estar nos presentes que serão ofertados em câmbio de todas as ausências, no fundo só mesmo os recalques de cada um de nós – quem é que está preocupado com o próximo? – é que conta: felizmente a Sinfônica, com seus setenta e mais membros, faz estrondar, a passo firme e coração seguro, o espírito beligerante e prussiano da peça – na verdade uma peça de artilharia alemã! – de Mahler, sob a condução contida, veemente, do  maestro Levin, e as massas de tempestade e solavancos levantam-se ora à esquerda, violinos, harpa e trompas, à direita, violoncelos, violas, mais ao fundo os cinco contrabaixos, cerrando filas ao centro melodias militares com fagotes, oboés, clarinetas, trombones, tuba, trompetes e ao fundo a percussão: tímpanos, metalofones e outras peças, fazem seguir a marcha, em sua hora e quinze minutos, esta que ao final que se reinicia suave, a emoção subindo até o triunfo apoteótico, eu imagino a cena, enquanto a chuva de aplausos recai incessantemente, mais de quinze minutos, sobre os músicos-soldados, sobre o maestro-general, que recebem silenciosamente, sem palavras, os “bravo” “bravíssimo”, assovios, e hurras da platéia conduzida a bom porto pela mão segura de seu condutor, eu imagino se lá fora, quando sairmos para o ar molhado da noite, esse maldito Espírito do Natal já terá descido junto com a lama da enxurrada que desceu do céu em aluvião por uma dessas bocas de lobo que sorvem tudo o que se lhes aproxima e levam a um breu absolutamente desconhecido, negro e profundo, esse que deve equivaler ao que um dia em Roma foi a Cloaca Maxima, quem sabe Bento já não desceu por ela, e os viventes estão todos acachapados sob a chuva, insolitamente atônitos perguntando-se o que fazer com esses presentes todos – “nunc est bibendum”, teria dito algum romano antigo e cínico em qualquer situação, vitória ou derrota.

 


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