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Ensaio
Três poemas de Flávio Otávio Ferreira
                                                                                                      

Homem industrial

Jardins metálicos
estruturas industriais
que se espalham
na verde mata.
Homens que somam,
que se somam
na escuridão da noite
no clarão da aurora.
Corpos que vão
e vêm.
Passos trôpegos
passos cansados
passos apressados.
Homens que são homens
caminhando nas matas
entre máquinas
e flores natimortas.
Os olhares se cruzam,
se reconhecem,
num mesmo mundo,
numa mesma vida
vivida a só,
somente um
entre todos
e, nada além de um.

Os jardins florescem na primavera
e já é outono nestes nossos tempos.
As cinza dos dias nos vêm às mãos!

 

 

Insônia

Eu vou levando a vida
até a última gota
até o último gole
dessa cachaça amarga.

Vou a desagrado
aos sonhos de outrem
aos meus próprios
moldando-me nesta amálgama.

Vou transbordando incoerência
fadiga e insônia
em conflitos tão meus!
Não canto nenhum canto
que encante quem ouve,
embora grite bem alto
para que as estruturas metálicas
percam a frialdade
e não mais me envolvam
de poeira e pó e fuligens.

Vou entediado e sem remédio
para elevar o ânimo;
para descobrir caminhos,
para transformar espinhos em sonhos.

Vou pequeno quando grande
sou maior que o mundo
e menor que o coração palpitante
de um recém-nascido;
vou prosseguindo em minhas algemas,
desconstruindo e destransformando.
Sou singular e assim prossigo
numa pluralidade descontente;
só preciso de uma nota musical
para definir minha canção.

 

 

Progresso

constelações cintilam
rente ao chão
longe do céu

inferno urbano

imensas estruturas
se erguem
verticalmente
sufocando
o grande batalhão
de gente

caminham
em todas as direções
num ritmo
alucinado
dividindo espaço
com carros
onibus
out doors
placas luminosas

no meio deles
algum ser solitário
caminha
buscando horizontes
inatingíveis
alcança-o
no verso que escreve
ali sentado
a beira do meio-fio
do outro lado
da cidade
casas se aglomeram
encosta acima
pincelando
uma nova cor
na metrópole

que se desfaz
num tom acinzentado
entorpecido
pela fumaça
industrial

o progresso é obtuso.

 

Flávio Otávio Ferreira nasceu em 20 de outubro de 1980, belavistense nato, apesar de ter nascido em João Monlevade, Minas Gerais. É Acadêmico do Curso de Letras pelo Centro Universitário de Araxá, possui poesias publicadas em vários livros-antologias
Em 2005 lançou seu livro de estréia, “Cata-ventos, o destino de uma Poesia”, na Bienal do Livro do Rio de Janeiro. Livro publicado pelo selo Kroart/Litteris Editora do Rio de Janeiro. Em Agosto de 2007, foi contemplado com a segunda colocação no “I Prêmio Solar de Literatura – João Monlevade 43 Anos” com o texto: “Poema Insano”.

 

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