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Colunas: VERDE
A necessidade do movimento
por Cláudia Conceição Cunha

 

Que tempos são esses, em que falar de árvores é quase um crime
 pois implica silenciar sobre tantas barbaridades?
- B. Brecht


Estamos chegando ao fim de mais um ano. E como acontece desde que resolvemos “fatiar” o tempo, decidindo que ele começa e termina em determinados períodos, este é um momento de balanço. De pensarmos “o que deu certo?”, “o que deu errado?”, para nos ajudar, no início do próximo ano, a pensar em “o que vou fazer?”, “o que deixarei de fazer?”. E assim caminha a humanidade. Nem sempre dá certo, é verdade. Algumas vezes erramos na nossa previsão, deixamos de considerar algumas conjunturas, damos excessivo valor para outras, e assim vai. Mas algo é inevitável: já sabemos que teremos dia das mães, dia dos pais, dia das crianças, natal, etc, etc, etc. Da mesma forma, neste ano saímos, todos nós que trabalhamos com a questão ambiental, com uma certeza: o meio ambiente esteve constantemente na pauta. Mas só uma coisinha: quem definiu a pauta?

Em tempos de biocombustíveis, “descoberta” do aquecimento global, Plano de Aceleração do Crescimento, licenciamento das obras do Rio Madeira, divisão do Ibama, (re) descoberta de reservas de petróleo, combate ao desmatamento da Amazônia, grilagem de terra na Amazônia, urso Knut, revitalização da transposição do Rio São Francisco e do “Projeto nuclear” brasileiro, “responsabilidade” socioambiental das empresas, manifesto de artista da globo pela Amazônia, minissérie sobre o Acre, conflitos pelo direito á terra, prêmio Nobel da paz para ex-vice presidente dos Estados Unidos... Tudo isso me faz questionar se as pessoas estão enxergando a questão ambiental que se nos apresenta ou (re) descobrindo um novo filão de investimentos e de marketing, integrado ao mercado e absorvido pelos fios que tecem a intrincada teia capitalista. Aliás, a capacidade de absorção que tem o capital é inquestionável. O que diria Che Guevara ao ver sua imagem em camisetas, bottons, bonés, faixas, cadernos ou os mais diversos e inusitados veículos de consumo? O que diria o revolucionário comunista ao se ver absorvido pelo mercado? São essas e outras incoerências que cometemos no dia a dia, pois não pensamos com radicalidade (no sentido de raiz, de origem) de vários problemas que são tratados.
Somos atacados com propagandas de produtos ambientalmente corretos, sustentáveis, ou simplesmente somos chamados a participar de campanhas para proteção da Amazônia, da mata atlântica, da economia da água, da diminuição de emissão de CO2 na atmosfera e coisas do tipo. Soluções individuais para problemas globais. Resolvem? Acredito que não.  Talvez apenas aliviem a nossa consciência, uma vez que dizem que a responsabilidade é “nossa”. Resta a pergunta: “nós quem, cara pálida?”.  Você lucra e eu pago, é isso?
Porque não nos chamam para decidir se vale à pena investir no biodiesel, qual a melhor matriz energética que devemos usar, qual o investimento que deve ser feito, e outras questões dessa natureza? Porque a nossa esfera de atuação deve se resumir aos aspectos não estruturantes do modelo econômico que é o causador desses problemas? Porque isso não é abordado, não está na pauta? Isto nos faz pensar (ou deveria): o que está em pauta? 

Vivemos a ilusão de que mudanças tecnológicas serão a salvação, de que podemos continuar consumindo como sempre, gastando como sempre, explorando como sempre, pois certamente surgirão medidas tecnológicas e comportamentais que aumentarão a capacidade de carga do Planeta. Esta opção fica clara nas notícias que chegam da Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas que acontece em Bali, até o dia 14 de dezembro. A discussão gira principalmente em torno de transferência e financiamento de tecnologias limpas, deixando de lado mudanças no padrão de produção e consumo que diminuam a emissão de gases. Isso por quê? Porque contraria os interesses dos países ricos que não querem assumir a conta do aquecimento global. Mas também contraria os interesses dos Países em “crescimento” cuja visão ainda é atingir o modelo norte americano de produção.

Vocês acham que estou sendo pessimista? Enganam-se. Estou muito otimista. Não é possível que agüentemos muito tempo sem uma guinada. O capitalismo está sugando o planeta em sua capacidade de manutenção, fazendo com que a vida na Terra torne-se realmente insustentável. Água, terra e ar são requisitos necessários para manutenção da vida e estão sendo utilizados (de maneira irresponsável) e destruídos. Portanto, a base material de sustentação da vida está sendo atacada. Não será possível resistirmos por mais tempo sem uma atitude coletiva que nos dê outros rumos. Por isso acredito que tomaremos nas mãos as rédeas de nosso futuro rumo à transformação. Cansados de sermos mercadorias e de vermos o ambiente que nos cerca ser transformado em uma prateleira onde uns se apropriam dos recursos deixando a grande maioria em processo de racionamento, reivindicaremos a participação na reconstrução do público, na retomada do projeto democrático que só tem sentido com o real significado do “demos”. É isso que o movimento social, a exemplo do Movimento dos Trabalhadores sem Terra vem fazendo.
Outro dia, em uma conversa, falei que o meu objetivo era apenas “transformar o mundo”. E é verdade. Porque não me agrada o mundo do jeito que ele é, porque acredito que podemos fazer mais. Sei que não estou sozinha. Que muitas pessoas se incomodam com o que estamos vivendo (desigualdade social, degradação socioambiental, etc.). Precisamos de ações coordenadas que nos permitam fazer frente a este modelo predatório que segue avançando em várias partes do mundo. Mas antes precisamos nos perguntar: todas as alternativas estão aí apresentadas? Precisamos desfazer as maquiagens, desacobertar os interesses e ir à arena de lutas (o espaço público), trazendo para ele o privado que se maqueia como público. Desconfiar sempre, agir permanentemente. Assim termino este ano: recomeçando sempre, na certeza de que estou partindo de um ponto já iniciado, em um processo constante de valorização da relação homem-natureza, como uma relação da natureza com ela mesma. Sem dualismos, sem dicotomias, mas com clareza de que falamos de uma unidade na diversidade.

 

 

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