verbo21
créditoscontato
seções
selva studio webdesign

Colunas: VÉRTEBRA
Ela não tem trocado
por Rã Cinza

 

Num sábado ordinário, criança e mãe foram passear na praça. Ao chegarem, estavam o menino e a mãe de mãos dadas, passeando, ela percebeu que esquecera de levar o filho ao banheiro antes de saírem de casa. São tantas coisas que exigem atenção ativa, o mundo das filigranas é pra lá de vasto. E as atenções multiplicam-se para os que cuidam das crianças. Ao se lembrar, quis encontrar um banheiro. Apesar da resistência de quem fora com a vontade única de brincar, lá foram ao encontro do banheiro. As cabines químicas são terríveis, é questão de hábito em que o não uso orienta sua rejeição. Por haver várias cabines químicas vizinhas uma da outra, a mãe arriscou, foi o tempo de abrir, sentir o misto de cheiros, preocupar-se com a probabilidade do filho encostar-se em alguma parte do cubículo fétido para logo em seguida fechar a porta. Porque nem a criança, acostumada a um outro padrão de limpeza, se dispôs a usar a casinha verde. Foram, sempre de mãos dadas, procurar uma alternativa, viram um restaurante, seu interior era quente com um forte cheiro de comida exalando de uma bancada, lá se encontravam (estavam?) dispostos os pratos a ser servidos. Orientados pela indicação da funcionária, caminharam tomados pelo calor para o fundo do lugar. Numa porta, indicando o banheiro masculino, estava um papel afixado, no qual estava escrito: Banheiro 0,50 centavos. Na porta do banheiro das mulheres não havia a mesma indicação. Ela pensou na capacidade econômica do estabelecimento, interessantes sabedorias sintéticas. Dentro do banheiro, a quentura era a pior experimentada até então. O garoto suava, ao abaixar o calção e a cueca, a mãe percebeu o desconforto do filho que foi peremptório ao dizer: – Não vou fazer nada, não tem xixi. A mulher sentiu-se um pouco raivosa e instantaneamente apalermada, tanto trabalho, calor, e nada de xixi? Mas, como o evento era ter o sábado para divertirem-se... Ela mesma usou a casinha, talvez empurrada por uma íntima conduta utilitária. Ao saírem, ofereceu um suco ou água à criança. De maneira geral, criança quer tudo e lá saíram com água e suco de caixinha. Voltaram à praça. Foram onde outros meninos brincavam, estava cheio deles, dava a impressão de ter pousado naquele espaço uma revoada de passarinhos barulhentos, correria e gritinhos, o dia começara a ir embora e ficava difícil acompanhar a sua avezinha que corria como as outras, de um lado pro outro. Até que ele encontrou uma cama elástica, quis entrar, e lá foi. É impressionante a vitalidade, a disposição e a resistência que têm as crianças para brincarem. Enquanto a mãe pensava sobre a possibilidade de ter uma cama como aquelas, utilíssimas para que suas pernas ficassem pra lá de fortes, via o menino pular, pular e rir, saltitando por um tempo que aos olhos da mãe era infindo. Chegou perto dela uma moça, ela também deixava uma criança no brinquedo e ambas se olharam querendo conversa. A mãe perguntou: – É seu filho? A moça riu e disse despachada: – Imagina, eu tenho cara de velha, mas tenho só 15 anos. A mãe olhou mais detidamente e percebeu que aquela que estava à sua frente com toda sua altura, por volta de 1,75, forte, não gorda, nem gordinha, mas massuda, era uma bonita menina negra, viu pelo seu sorriso largo, um rosto todo liso, guardando ainda os arredondamentos de traços infantis. De repente a noite se iluminou em cores natalinas. As árvores da praça pareciam estar vestidas com vários tomara-que-caia resplandecentes, eram vestidos verdes, azuis, vermelhos; amarelos que, por serem compostos por fios repletos de pequenas luzes, lembravam dourados. Outras luzes da praça, suportadas por globos brancos, compunham o efeito brilhante e multicolorido. Ao saírem da cama elástica, a mãe chamou seu pequeno para irem comer alguma coisa, andaram pelas tendas dos doces, dos salgados, das comidas típicas do lugar, chegaram à barraca do beiju. Como o suco fora consumido, nalgum momento anterior sobrava o copo de água, ela pensou rápido nos inchaços causados pela TPM e preferiu ficar com a leve água como o acompanhamento líquido do beiju, ao invés de tomar um refrigerante. Sentaram-se numa das sucessões de degraus que formavam uma espécie de plano e base, embaixo da estátua do índio. Enquanto a mãe comia, dava-se uma outra sessão de atividades do pequeno ginasta, seu macaquinho virava de cabeça pra baixo, pendurado numa espécie de cerca decorada que separava outras construções formadoras de planos, num crescente arquitetônico, que culminavam na estátua. Ao terminarem o lanche breve, foram assistir à apresentação teatral, era sobre o carnaval, músicas de há décadas, misturadas com outras mais recentes, enchiam a atmosfera com outros coloridos sonoros. O menino foi sentar-se no chão, ao lado de outras crianças espectadoras. Em dada hora, o espaço foi animado pela interatividade do menino e das outras crianças do gargarejo, dançaram, participaram da peça conversando e inquirindo os artistas que, não abalados com as interferências, conseguiram ir até o fim com a encenação, celebrada com uma pequena e acolhedora mostra do carnaval baiano. Foi confete, serpentina, atores, crianças, passantes e pais, brincando de dançar as canções. Os meninos já haviam ganhado o palco e, animados pela música, viam tudo de cima. Depois, mãe e filho, andando pela praça, depararam-se com o namorado da mãe. Na verdade, o menino foi quem primeiro avistou o homem conhecido, passearam, tiraram fotos e viram conhecidos do menino e do namorado. Um pequeno grupo formou-se, as crianças corriam enquanto os pais trocavam conversas rápidas. O menino foi saindo do grupo e se aproximou do chafariz, voltou um pouco molhado e dizendo alegre: – Uma nuvem colorida me molhou. A mãe, que pretendia levá-lo para tomar banho na casa do namorado, compreendeu a impossibilidade do intento, pois o menino não teria roupas para trocar, além do mais, as vestes estavam um tanto molhadas. Ela reclamou um pouco e disse que eles teriam de ir para não deixar o filho resfriar-se. Ao chegarem no carro, despediram-se do namorado, andaram alguns metros e tiveram de parar no semáforo, logo chegou um guardador pedindo o seu dinheiro. A mãe que, ao estacionar na chegada, não havia visto nenhum guardador, não quis dar o trocado, dizendo não ter trocado. Juntou-se ao guardador outro homem, o primeiro, impaciente, fazia um sinal de não estar entendendo e o segundo auxiliava na pressão. Por causa do sinal fechado, o guardador tinha possibilidade de alongar a tensão. O filho percebeu a irritação da mãe, tomou a frente, abriu sua janela e gritou para o homem: – Ela não tem trocado. Os dois homens se entreolharam e o guardador respondeu: – Continue assim garoto, você é educado. O sinal abriu e o carro seguiu seu curso.

          
           


topo | página inicial

 


tribuna
entrevista
ensaios
opinião

colunas

crônicas havaianas
dagerreótipos
eros+errante
kaos kapital

verde
vértebra

 

artista do mês

Rembrandt Harmenszoon van Rijn é geralmente considerado um dos maiores pintores e gravadores da história da arte européia.




O QUE ROLOU ANTES

verbo21 vintage

 

LINKS

A Garganta da Serpente
Alexandre Marino
Állex Leilla
Antonio Cicero
Ateliê Editorial
Bagatelas
Bestiário
Bigorna.net
Cadernos da Bélgica
Carlos Barbosa
Carlos Ribeiro
Ciberarte
Cidade Devolvida
Correio das Artes
Cronópios
Desconcertos
Editora Círculo de Brasília
Entre Aspas
eraOdito
Fernando Pigeard
Glauco Mattoso
João Filho
Jornal Vaia
Madame K
Mayrant Gallo
Nacocó
Página da Cultura
Régis Bonvicino
Sandro Ornelas
Santiago Nazarian
Sebo Diadorim
Simulador de Vôo
Snowbros
UBE
Verdes Trigos

 

PARCEIROS

selva