João Silvério Trevisan PDF Imprimir E-mail
Ter, 25 de Agosto de 2009 05:52

JOÃO SILVÉRIO TREVISAN é nada mais, nada menos, um dos nossos mais importantes escritores em atividade. Dono de uma obra vasta, assina uma diversidade de contos, crônicas, romances e ensaios. Seu Devassos no Paraíso se constitui em uma leitura obrigatória da historia da homossexualidade no Brasil. Vários de seus livros, como Ana em Veneza e Troços e Destroços, receberam prêmios Jabuti e APCA, sendo também traduzidos em inglês, alemão, espanhol, italiano e polonês. Após 12 anos sem publicar ficção, acaba de lançar REI DO CHEIRO, romance onde investiga o surgimento de uma nova elite paulista. É também dramaturgo, roteirista de cinema e coordenador de oficinas de criação literária.

 

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LIMA TRINDADE - Antes de escrever “Rei do Cheiro” você estava envolvido com outro projeto de romance, o que o levou a tomar esse desvio, essa mudança de rota?

JOÃO SILVÉRIO TREVISAN – Foi a sensação de que a realidade estava ameaçando me passar a perna, em 2005, com a crise do mensalão e, em seguida, os ataques do PCC em 2006. À minha frente, eu via desfilar os personagens de REI DO CHEIRO, perfeitamente inseridos na problemática que meu projeto abordava. Daí, decidi deixar de lado o que vinha escrevendo e retomei esse projeto no qual eu já vinha trabalhando há quase 20 anos, sobre o surgimento de uma nova elite paulista, a partir da década de 70. 

LT – Há nele alguma espécie de paralelo ou apropriação temática de “O Rei da Vela”, de Oswald de Andrade? No que se assemelham e se diferenciam Abelardo e Ruan Carlos?

JST – Além do título e do personagem empresário, não creio que haja uma ilação especial entre REI DA VELA e REI DO CHEIRO. Mesmo porque minha abordagem se diferencia do escracho de Oswald de Andrade. Apesar de ter adoração pela obra oswaldiana, adotei um outro viés. Meu personagem, cujo sonho é montar uma grande empresa de perfumaria, é um cara disposto a vencer na vida a qualquer custo, num Brasil hiper-capitalista que não permite vacilo. A crueldade do personagem de Oswald de Andrade está num outro contexto, um passado que permitia a crueldade do sarcasmo. Agora a coisa é pra valer: uma crueldade sem coloridos. É um salve-se quem puder.

LT – Falar de São Paulo, que é o maior símbolo do poder político e econômico do Brasil contemporâneo, sob o ponto de vista de Ruan Carlos, um empresário macunaímaco, também não se torna um modo para se examinar a maneira como se dão as relações entre os poderes públicos e privados?

JST – O romance se detém longamente na promiscuidade entre os dois poderes. As maneiras como isso ocorre são detalhadas na trajetória ascendente do empresário Ruan Coronado, meu protagonista. Mas também se pode verificar na segunda parte, quando o cenário da narrativa se torna uma espécie de aquário buñuelesco para observar a elite do romance. A falta de caráter é tão disseminada que já não há espaço para um único herói.

LT – Você se baseia em figuras ou fatos reais de nossa realidade para construir o relato de “Rei do Cheiro”?

JST – Frequentemente sim, mesmo porque sempre pensei nesse romance como uma espécie de testemunha ocular do meu tempo. Mas seria inadequado falar de roman à clef, pois estive longe de copiar personagens reais. Apesar de ter me inspirado em muitos deles, em geral misturei elementos de vários num só e mesclei dados de pura ficção. Mas não posso esconder, por exemplo, que o CROC do meu romance é de fato o PCC. Mesmo no final, os ataques do crime organizado em São Paulo são baseados quase ao pé da letra nos eventos ocorridos em São Paulo, no primeiro semestre de 2006.

LT – No plano formal, a escolha de trabalhar extratos culturais como base para a narrativa, o uso da elipse e a velocidade com que é montada a ação se ajustam ironicamente a um modelo discursivo próprio do mundo capitalista de hoje?

JST – Se houvesse outro mundo possível, eu certamente iria buscá-lo. Trabalho em cima do mundo real, este aqui, chato, mas palpável. Sinto esse mundo como o meu jardim, onde colho minha maneira de ser e de escrever. É ele que me oferece os recursos. Em         REI DO CHEIRO, usei elementos das produções da cultura de massas – trechos de anúncios radiofônicos ou televisivos, letras de músicas, citações de novelas de rádio, de televisão e filmes – que costurei na narrativa e no próprio texto.  Assim acontece também com as elipses narrativas, que têm certo tom de videoclipe. Trabalhei com o pé no breque, ao contrário das minhas outras incursões na literatura ficcional. Mas não importa. Escrever pra mim é assim mesmo, ter que reinventar minha literatura a cada nova obra. Não é fácil, nem deixa de propor riscos. Mas é fascinante. 

LT – Ainda assim há um narrador em primeira pessoa. Por que razão você afirma que o recurso do narrador em terceira pessoa se esgotou?

JST – O narrador em primeira pessoa é um dos tantos recursos narrativos que usei: criei até mesmo uma espécie de narrador-interlocutor. Eu não digo que narrador em terceira pessoa se esgotou. Apenas constato que, após as vanguardas estéticas do começo do século 20, a história é cada vez menos apta a ser contada no modo onisciente e abstrato do narrador em terceira pessoa, numa voz única e dominadora, para não dizer autoritária. De lá pra cá, o mundo se fragmentou tanto à nossa volta que não nos resta senão buscar as vozes dos inumeráveis sujeitos que nos rodeiam. Não adianta tentar verbalizá-los vicariamente, ainda que se procure o modo mais neutro possível. No caso, vivemos um paradoxo: quanto mais neutra e supostamente verdadeira, mais a voz narrativa irá trair e distorcer a realidade que ela pretende verter.

 

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LT – O que pensa do momento literário no Brasil e no exterior? Existe espaço para uma literatura de invenção?

JST - Nos nossos dias, a insistência da voz neutra é mais uma evidência do conformismo, que não é exclusivo da ficção literária nem das artes. Remete à atual perplexidade na política, por exemplo. Nossa voz política tem sido cassada de modo cada vez mais cínico. E a mediocridade parece uma tentação onipresente. Se não existe espaço, uma literatura de invenção o encontrará. A História humana é uma história de invenção contínua. E a arte tem como condição básica uma expressão inusitada. Clarice Lispector já dizia que essa necessidade de inventar é que torna a arte, por si mesma, algo “de vanguarda”.   

LT – Como avalia a crítica e o jornalismo literário atuais?

JST – O tempora, o mores. Quanto lobby de editora se impondo no jornalismo literário. Quanta porcaria travestida em sensação. Quanta premiação vagabunda. Quanta mesmice, não é?

LT – Após escrever uma obra com mais de uma dezena de livros publicados, ganhar vários prêmios nacionais e ser traduzido e publicado no exterior, você consegue viver somente da literatura? Considera-se um autor devidamente reconhecido?

JST – Não sou devidamente reconhecido nem remunerado. O máximo de prêmio que ganhei na vida foram R$ 300,00, que empreguei na obra completa em espanhol de Sigmund Freud (quando isso era possível, no começo do real). O que recebo em direitos autorais é constrangedor demais para ser mencionado, mas digamos que está bastante longe de ser meio salário mínimo por mês. A edição de ANA EM VENEZA na Alemanha foi uma exceção, apesar do livro ter resultado um fiasco do ponto de vista comercial.

LT – O fato de ter militado pela causa gay e pela liberdade de expressão sexual interferiu de maneira negativa na recepção da sua obra?

JST – Sim. Em muitas áreas sou considerado apenas o “viado de plantão”. Quer dizer, quando é preciso ouvir uma opinião “abalizada” de viado, me telefonam. De resto, não me parece que sou levado muito a sério. Digo isso com o coração tranquilo, apesar de não gostar nada. Mesmo porque a vida costuma fazer as suas surpresas. Basta a gente se exercitar em olhar as coisas de camarote.

LT – Ao conduzir oficinas de criação literária, você foi um dos pioneiros no uso da internet como ferramenta de trabalho. Conte como foi essa experiência. O espaço virtual é mais ou menos libertário que o físico?

JST – A experiência que tive na internet, entre 1999 e 2005, foi maravilhosa, coordenando oficinas literárias e salas de discussões. Atingiu de norte a sul do país, e até o exterior. A internet é um espaço de grande alcance e potencialidade para encontros e debates. Acho que funcionei como um fermento. Mas não tenho idéia do que aconteceu com os/as participantes dessas atividades literárias tão intensas, algumas abertas ao público em geral. Foi uma atividade que o SESC-SP (seu responsável) interrompeu bruscamente, e morreu ali. Era o embrião para o meu velho projeto de uma Escola de Criação Literária, que nunca deu em nada.

LT – Você pretende retomar o romance interrompido antes do “Rei do Cheiro”? Do que se tratava especificamente?

JST – Trata-se de um projeto de romance chamado “Quarto Escuro”. Nele, quero abordar histórias da vida guei ao meu redor. Acho que já está na hora de “acertar as contas” – digamos assim – com o meio homossexual, no qual vivi imerso em boa parte da minha vida. Será uma visão impiedosa dos nossos paradoxos. Mas, pra variar, a espinha dorsal será uma história de amor. Bastante ácida, entre um master (um dominador, sexualmente falando) e um jovem HIV positivo, que um dia foi dono de grande beleza, portanto, muito arrogante – e que agora está aprendendo a se submeter à vida. É no quarto escuro que se revelam as grandes verdades do amor e do coração humano.

LT – Tem novos projetos, sejam eles de cinema ou teatro?

JST – São muitos. Voltei a trabalhar com roteiros cinematográficos, com grande alegria. Nos últimos 9 meses, elaborei 5 projetos para cinema, entre longas-metragens e séries para TV. Mas tenho outros projetos também em literatura e teatro. No primeiro semestre deste ano, comecei um romance de formato pequeno, “Dias e noites de Jacinta” – história de uma velhinha tentando manter-se viva. Além dos projetos ficcionais, tenho dois projetos memorialísticos, nos quais já trabalho há muitos anos.  Estou tentando retomar um deles, chamado “Antropofágico amor”, sobre o fim de um relacionamento dilacerante que vivi, muitos anos atrás. Em teatro, iniciei um projeto de peça, “A iluminação”, inspirado no final da vida de um grande amigo que faleceu no ano passado. No momento, venho tentando voltar à cena com minha peça HOJE É DIA DO AMOR, que ficou apenas 3 meses em cartaz, inserida num projeto específico que acabou. E continuo com vontade enorme de fazer dramaturgia para rádio – mas isso é quase impossível, por não haver mais interesse nesse gênero. Você sabe, como estou longe de ser um milionário, tudo isso fica sujeito às disponibilidades financeiras e aos eventuais financiamentos.

LT – E “Orgia”, quando poderemos vê-lo em DVD?

JST – Deveria sair neste semestre, dentro de uma coleção de cinema marginal paulista, parceria entre a Heco Produções, de São Paulo, e a distribuidora Lume, do Maranhão. Mas, além dos necessários restauros, estou me defrontando com problemas burocráticos complicados. Por isso, acho que o lançamento em DVD de ORGIA OU O HOMEM QUE DEU CRIA deve atrasar um pouco. Eu gostaria muito que o título saísse em DVD, considerando que o filme nunca teve lançamento comercial e, desde a década de 70, é conhecido apenas em rodas muito restritas.

LT – Num documentário sobre o Piva, você diz que acredita na Poesia como forma de salvação. Você se refere ao processo de invenção ou ao gênero literário? Nunca pensou em publicar versos?

JST – Eu me refiro ao conceito estético, não necessariamente ao gênero literário. Essa minha reflexão tem a ver com a desesperança e faz parte de um esforço em encontrar uma tábua de salvação. Mas não é justo dar à Poesia essa função tão ingrata. Quanto aos versos, tenho sim uma coleção de poemas. Mas serão, quem sabe, para publicação póstuma.

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capa do livro

 

 

 

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