| O Homem Que Não Fazia Chover |
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| Dom, 23 de Maio de 2010 19:23 | |
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“O best-seller do momento / é um livro agourento / Que ninguém entende nada / mas todo mundo quer ler / Ler pra ter cultura, / mas como acabaram com a censura / a mídia agora é nosso aiatolá”. Raul Seixas / Marcelo Nova
A imagem mais nítida que tenho de Paulo Coelho vêm de uma entrevista que, no início dos anos 90, ele concedeu a Bruna Lombardi, em seu programa Gente de Expressão. Indagado sobre quais seriam seus tão falados poderes ocultos, Paulo Coelho declarou que entre outras coisas sabia fazer chover. Para sua surpresa a entrevistadora desafiou-o a realizar o fenômeno ali mesmo, diante das câmaras. Visivelmente constrangido o “mago” desconversou, dizendo que não exibiria seus dons daquela forma. Bruna Lombardi insistiu, mas ele se manteve firme em não provar em atos o que garantia por palavras. Mudaram de assunto. Minutos depois afirmou que era capaz de ficar invisível. Desta vez Bruna apenas sorriu. Por estas e outras falar mal, ridicularizar, desdenhar, Paulo Coelho é fácil. O próprio fornece farta munição para seus detratores. É mesmo um personagem controvertido: um católico fervoroso que diz praticante de magia, o que até onde se sabe é condenado pela Igreja. Um cristão que se declara simpatizante do budismo, uma religião ateísta. Um escritor que se recusa a corrigir os erros ortográficos que comete, alegando que eles fazem parte do espírito da obra. Um adulto que acredita em anjos da guarda e até sustenta que já viu o braço do seu anjo particular (Xuxa viu duendes, ora!). Um milionário que vende a imagem de refinado, mas que vive como novo-rico, exibindo suas mansões na revista Caras. Um negociante implacável que hesita em lançar um novo livro em certa data porque uma suposta vidente francesa previu má sorte. Um intelectual de cultura mediana que volta e meia equivoca-se quando se aventura a discutir assuntos complexos ou nem tanto. Um ficcionista de parcos recursos que se arvora a criticar James Joyce. Um homem que, enfim, raspa a cabeça e usa rabo-de-cavalo ao mesmo tempo. Mais do que um escritor entre muitos, Paulo Coelho é um tipo folclórico do confuso cenário cultural brasileiro. É a prova viva de que perseverança, bons contatos e faro para marketing pessoal são muito mais importantes do que talento e erudição na complexa fórmula que define um ficcionista bem-sucedido. Se o valor estético de sua obra é questionável, no quesito controle da carreira seus méritos são inegáveis. Na alquimia dos números de vendas, temperados por um impressionante prestígio internacional, conseguiu o grande feito de transformar chumbo em ouro. Em fardão bordado de ouro para ser mais exato. Passou de saco-de-pancada da crítica à imortal adulado. Highlander, com espada e tudo, dono da cadeira 21 da Academia Brasileira de Letras. Estranhamente eleito no lugar do respeitável cientista político Hélio Jaguaribe. Por tudo isto ainda mais fácil do que falar mal de Paulo Coelho é ser considerado um mero invejoso ao fazê-lo. Em nosso país de iletrados, com seu parco mercado editorial, a melhor defesa que um escritor pode apresentar em seu favor é ter feito fama e fortuna produzindo o mais intelectual dos objetos: o livro. No fundo não é um argumento dos mais convincentes. Na história da literatura raras vezes refinamento artístico e vastas tiragens foram denominadores comuns. Exceção feita aos livros totêmicos. Provavelmente os milhões de “consumidores” que adquirem os livros de Paulo Coelho são os mesmos que rechearam as paredes de Sandy e Júnior de discos de diamantes. Ou seja: cresceram, mas não amadureceram e não primam pelo bom gosto. Em essência Paulo Coelho pouco difere de um Sydney Sheldon ou de um Harold Robbins. Para o grande público leitor seus deméritos são suas melhores qualidades. A diferença entre o brasileiro e os dois produtores de best-sellers norte-americanos é que enquanto eles assumem com digno orgulho a natureza escapista de suas criações, o “mago” acredita, e habilmente faz seus leitores também acreditarem, que seus fúteis livros de auto-ajuda transmitem de maneira simples mensagens profundas e complexas. Mensagens que de outro modo somente seriam acessíveis a iniciados em ciências ocultas, magia branca, alquimia etc. Com uma vantagem (ou desvantagem, dependendo do ponto de vista): ao contrário de, por exemplo, Zibia Gasparetto seus “ensinamentos transcendentes” não estão restritos ao gueto espírita, são tendencialmente universais. Paulo Coelho se considera um grande escritor. Já declarou isto em diversas ocasiões. Qualquer leitor mediano percebe que não é. Sendo generoso, é de razoável para baixo. Ao mesmo tempo seu sucesso é tão duradouro e inegavelmente cristalizado que se torna quase surreal. Não foi uma moda de verão, como talvez a maioria imaginasse que se tornaria. Na posição em que está Paulo Coelho adquiriu o direito de rir na cara de qualquer pobretão (como eu) que ainda insisti em criticá-lo diante da multidão surda de seus admiradores. Nem sempre foi assim. No início da carreira, nos distantes anos 80, as críticas negativas ainda representavam um problema relevante. Na época o principal álibi de defesa para seu questionado talento era sua antiga parceria com o genial Raul Seixas. Músicas para justificar livros. A primeira vista parece fazer algum sentido. Assinaram juntos clássicos como Eu Nasci Há Dez Mil Anos Atrás, Gîtâ, Medo da Chuva, Sociedade Alternativa e Tente Outra Vez. Uma lista de respeito. O que me parece estranho é que depois que desfizeram a parceria o auge da carreira musical de Paulo Coelho foi à baladinha brega em que Lílian, da dupla da Jovem Guarda Leno & Lílian, entoava tristonha “sou rebelde porque o mundo quis assim / Porque nunca me trataram com amor”. Não creio que, na condição de executivo de gravadora, ter ajudado a “inventar” artisticamente Sidney Magal, escrevendo inclusive o roteiro de seu filme Amante Latino, de 1979, possa ser considerado um triunfo. Raul Seixas, por outro lado, continuou desovando uma obra-prima atrás da outra por mais dez anos. Esta observação talvez baste para jogar alguma luz sobre quem seria o verdadeiro alquimista naquelas composições. Mas, claro, hoje em dia, o passado na indústria fonográfica de Paulo Coelho converteu-se em episódio irrelevante. É apenas mais um passo no caminho de sua “lenda pessoal”. O discurso mudou. Não se fala mais em fazer chover ou invisibilidade. Fala-se em números, recordes e prêmios. Hoje a fama do brasileiro é internacional e inquestionável. Traduções e mais traduções, em uma infinidade de línguas, em dezenas de países. Diversas celebridades são seus fãs assumidos. Claro que se por um lado Madonna e Fernando Collor não parecem ser exatamente leitores modelo, gente como Umberto Eco e Antonio Skármeta não são nomes fáceis de serem desdenhados. Por conta disto fico imaginando o quanto os tradutores de Paulo Coelho ao redor do mundo são bons. Este verdadeiro exército de aliados ajudou-o a ganhar o Prêmio Bambi de Personalidade Cultural do Ano na Alemanha, o Prêmio Fregene na Itália, o Título de Oficial das Artes e das Letras e a Legião de Honra na França. Ajudou-o a torná-lo figurinha carimbada no Fórum Econômico Mundial em Davos, na Suíça, e conselheiro especial da Unesco para “diálogos interculturais e convergências religiosas”, seja lá o que isto signifique. No Brasil ganhou a Ordem do Rio Branco. É tamanho o prestígio que, depois de conquistar a ABL, não duvido nada que o “mago” se torne um candidato natural ao Nobel de Literatura, representando a língua portuguesa. Os erráticos suecos podem chegar a premiá-lo acreditando que laureiam o novo Hermam Hesse. A despeito de tudo isto é amplamente reconhecido que a maior parte das pessoas que criticam Paulo Coelho não leu Paulo Coelho. O exemplo capital é o da escritora Raquel de Queiroz, sua confrade de Academia, que declarou em entrevista a revista Veja que não conseguiu passar das primeiras páginas de um de seus romances. Mesmo José Miguel Wisnik, professor de literatura da USP, famoso por sua extrema afabilidade, afirmou, em recente palestra-show ministrada na 1º Bienal do Livro de Goiás, que seu limite foram duas laudas. Não é o meu caso. Li boa (boa?!) parte da “imorrivel” obra coelhiana. Passei muito constrangimento carregando seus livros debaixo do braço. Agora, no contexto do lançamento de O Zahir, seu segundo trabalho depois de imortalizado, convêm fazer um breve resumo de minhas impressões acerca das milhares de páginas que me obriguei a ler para ter a honra de ser um dos poucos felizardos possuidores do direito de falar mal com conhecimento de causa. O que, aliás, não é uma verdade absoluta, pois, por incrível que possa parecer, existem alguns bons achados. Senão vejamos, livro por livro: Manual do Vampirismo (sic). Paulo Coelho sempre dá a entender que sua estréia aconteceu com O Diário de um Mago. Não é exato. Sua primeira publicação foi este estranho manual. Não o li. Poucos leram. O autor recolheu a obra, argumentando que não estava satisfeito com sua qualidade. Não sei de nada, mas só posso imaginar uma coisa: O Horror! O horror! O Diário de um Mago. O romance que fez a fama de Coelho é também o seu trabalho mais bem-acabado. Apesar disto, como não poderia deixar de ser, contêm uma coleção de conselhos idiotas. Aqui o “mago” aconselha enterrar a unha do dedo médio debaixo da unha do dedo polegar, até virar carne viva, sempre que sentirmos medo ou tivermos dúvidas. Aqui o “mago” aconselha andar em câmara lenta (igual o Baturê?) para aprendermos a apreciar melhor as paisagens. Aqui o “mago” aconselha fingirmos que somos sementes brotando da terra, como fazem professores de teatro amador, para termos uma noção melhor de nosso corpo. E por aí vai. Mas O Diário de um Mago têm lá seus méritos. É autobiográfico, trás personagens minimamente consistentes e parte de uma situação dramática interessante: a busca por um objeto simbólica (uma espada) no Caminho de Santiago de Campostela. A melhor cena que Paulo Coelho já produziu na vida está aqui: o protagonista, sozinho, tentando levantar com as mãos nuas uma imensa cruz de madeira. O Alquimista. O livro mais vendido de Paulo Coelho é na verdade uma, digamos, recriação estendido de um conto que Jorge Luis Borges publicou em História Universal da Infâmia. Chama-se História dos Dois Que Sonharam, que por sua vez é inspirado em uma das narrativas das Mil e Uma Noites (noite 351). É, talvez, a mais mística de suas obras e com certeza a mais movimentada. Por isto mesmo existe um projeto de adaptação cinematográfica rodando em Hollywood há tempos, capitaneado pelo ator Laurence Fishburne. A primeira edição de O Alquimista tem uma belíssima capa. Reproduz um quadro, se não me engano de Caravaggio, mostrando Narciso admirando seu reflexo em um lago. O Dom Supremo. Paulo Coelho não escreveu este livro, adaptou-o de um guru estrangeiro. É uma espécie de tratado sobre a dimensão espiritual do homem. Muito monótono e cheio de clichês esotéricos mais do que gastos. Brida. Novelão.
Nas Margens do Rio Piedra Eu Sentei e Chorei. Narrativa que não se justifica. Parece que o autor só tinha um assunto geral, o culto mariano, mas não uma estória para contar. Como resultado seus personagens ficam apenas vagando sem direção durante centenas de páginas, em um verdadeiro desperdício de árvores. A falta do que fazer é tão grande que este livro conta com a participação especial de Brida. Nem mesmo ela mostra há que veio. Só chorando mesmo. Maktub. Malba Tahan é autor de uma obra com o mesmo título e acredito que de alguma forma inspirou este livro. Em árabe a palavra maktub significa “estava escrito”. Este volume é uma coletânea de pequenos textinhos publicados na imprensa: breves contos, frases, conselhos etc. Os ensinamentos de Paulo Coelho raramente ultrapassam a condição de obvio ululante. Fiquei tão indignado com o vazio destes textos que na época em que li, por volta de 1995, meu primeiro ano de faculdade, criei o personagem de quadrinhos Paul Rabbit, uma caricatura do “mago”. O meu Paul Rabbit, que se apresentava dizendo que era “um homem de letras”, escreveu o Sabtud: coleção de paródias da filosofia coelhiana. Uma coisa eu garanto: o Sabtud era muito mais divertido do que o Maktub. O Monte Cinco. Li este livro em janeiro de 2002, na Biblioteca Nacional de Lisboa, nos intervalos da pesquisa bibliográfica para feitura de minha dissertação de mestrado em História Medieval. Coincidência. O Monte Cinco é uma grosseira falsificação da história. Anacrônico até a última vírgula. Se o grande profeta Elias foi realmente o tobó que Paulo Coelho descreveu, fica fácil entender os motivos de Deus para permitir que seu Povo Eleito sofresse o Holocausto. Manual do Guerreiro da Luz. Espécie de continuação de Maktub. Outra coletânea de textinhos publicados na imprensa, desta vez destacando o código de ética do que chama de Guerreiros da Luz: pessoas que se iniciam nos mistérios ocultos do lado da magia branca. Paul Rabbit não ficou atrás, com seu Manual do Guerreiro Vaga-lume. O Demônio e a Srta. Prym. Mais uma pífia tentativa de ridicularizar a figura do Demônio, moda tão em voga ultimamente (como procurei demonstrar em minha crítica ao filme Constantine, publicada no Opção Cultural de 3 a 9 de abril). Com este romance Paulo Coelho pretendia entrar no seleto clube de autores que fez grande arte com a tradição ocidental acerca do Príncipe das Trevas: Goethe, Mann, Rosa, Marlowe, Emerson etc. Não conseguiu. O Demônio é a Srta. Prym, apesar de partir de uma boa premissa, é uma narrativa frouxa que se recusa a chegar as ultimas conseqüências em nome do politicamente correto. Histórias Para Pais, Filhos e Netos: Não li. Cartas de Amor de um Profeta: Não li. Verônika Decide Morrer. Não li. Onze Minutos. Não li. Como se pode notar nos últimos anos desisti de Paulo Coelho. Sobretudo porque ao invés de melhorar ele piorou com o tempo. O Demônio e a Srta. Prym foi uma espécie de gota d’água. A despeito disto confesso que as últimas reportagens sobre Paulo Coelho, nas quais se aponta para o fenômeno dele estar lentamente abandonando a auto-ajuda e se arriscando na literatura séria, me chamaram a atenção. Segundo este critério Verônika Decide Morrer seria uma reflexão sobre o que é a loucura e Onze Minutos uma investigação sobre sexo. Temas escorregadios. Será?! Por que não? Até Machado de Assis não havia feito nada muito digno de nota antes de O Alienista, e já era um escritor experiente. Assim sendo, mesmo não tendo uma personalidade dada ao otimismo, e acreditando não ser masoquista, decidi aventurar-me na leitura do recém saído do forno O Zahir. Adianto que as coisas não mudaram muito. Aliás, não mudaram nada. Mas o que é O Zahir? Antes de mais nada é um fenômeno cultural. Foi capa das três principais revistas do país na semana do lançamento: Veja, Isto É e Época. Falta de assunto? Não creio. Recentemente algo parecido aconteceu com o Código Da Vinci, do norte-americano Dan Brown. As semelhanças se acumulam: Best-sellers de nascença, com temas ligados ao místico, escritos por autores menores elevados à condição de gurus esotéricos pós-modernos new age. A imprensa sabe o que faz. E qual o significado deste estranho título? Como maktub, trata-se de outra palavra de origem árabe. Foi inspirado em um belíssimo conto de Borges, incluso em O Aleph, de 1949. O cético mestre argentino é uma influência evidente para o “mago”. A terceira epigrafe do livro de Paulo Coelho (ele adora somar epigrafes) é um verbete extraído de certa Enciclopédia do Fantástico. Eis seu texto: “Segundo o escritor Jorge Luis Borges, a idéia do Zahir vem da tradição islâmica e estima-se que surgiu em torno do século XVIII. Zahir, em árabe, quer dizer visível, presente, incapaz de passar despercebido. Algo ou alguém que, uma vez que entramos em contacto, termina por ir ocupando pouco a pouco nosso pensamento, até não conseguirmos nos concentrar em mais nada. Isso pode ser considerado santidade ou loucura”. Partindo disto os prospectos editoriais vendem o livro como uma narrativa sobre o amor, a redescoberta do amor. Neste caso o zahir é uma mulher: Esther, jornalista, correspondente de guerra, esposa do Protagonista. O Protagonista por sinal, que nunca têm o nome revelado, é quase o próprio Paulo Coelho. Quase. A biografia é praticamente igual, mas, segundo consta, a aventura na qual se mete não. Aliás, ao contrário de O Diário de um Mago e As Valkírias que seriam histórias reais. Seja como for, um dia Esther desaparece sem deixar vestígios ou explicações e o Protagonista cada vez mais se afunda na obsessão de encontrá-la. Inicialmente ele acredita que Esther fugiu com Mikhail, chamado na verdade Oleg, um jovem originário do Cazaquistão (Paulo Coelho escreve Casaquistão) que trabalhou com ela durante uma reportagem de guerra. Mikhail anda com um pedaço de pano manchado de sangue seco no bolso e acredita piamente que recebeu de uma menina voadora (uma das Meninas Super-poderosas?) a missão de salvar o mundo espalhando a Energia do Amor que Devora (pensava que esta missão fosse do Roberto Carlos). Para isto participa de um grupo performático de auto-ajuda que organiza em Paris reuniões onde, num ambiente entre teatral e cerimonial, conta uma história de amor como forma de encorajar a platéia a contar histórias de desamor. Para completar Mikhail ouve vozes do além. Volta e meia sofre aparentes ataques epiléticos, que ele garante ser a incorporação de espíritos superiores. Figura mais exótica impossível, nem os personagens de Almodóvar! Passam-se dois anos. Neste meio tempo o Protagonista, na tentativa de exorcizar o problema, escreve um livro com um título que remete a uma passagem do Eclesiastes, mas que lembra mesmo uma daquelas pérolas ao estilo do folclórico J. M. Simmel1: Tempo de Rasgar, Tempo de Costurar. Durante uma tarde de autógrafos em uma livraria parisiense, Mikhail o procura para lhe dizer com ares misteriosos que: “eu queria que soubesse que ela está bem”. Ao invés de quebrar a cara do safado ou humilhá-lo publicamente com uma tirada ao mesmo tempo cínica e sádica, como qualquer homem decente faria, o Protagonista o convida para jantar. Encarnando o popular corno-manso, ele se esmera em agradá-lo na esperança de obter alguma pista da fujona. O relacionamento entre os dois homens, os dois amantes de Esther, constitui o principal núcleo dramático do romance. Desvendar lentamente os verdadeiros motivos da jornalista para abandonar o marido, os amigos e a carreira forma a base da pedagogia moral do livro. O final, como era de se esperar, é feliz. Mas não termina sem antes revelar uma pequena surpresa que mostra o quanto Esther se divertiu de forma irresponsável durante seu retiro espiritual. Eis uma breve síntese de O Zahir. Um livro simples, mas não muito ágil. Sua narrativa é tipicamente coelhiano: prolixo, repleto de tempos mortos, repetições e digressões. Mas, fique claro, não o condeno por isto. É quase sempre equivocada a colocação de um resenhista quando escreve que “o livro poderia ser menor”. O que responder diante disto. Talvez fazer como Mozart, em Amadeus, quando o rei José II afirmou que uma de suas óperas era boa, mas que tinha notas demais e que deveria cortar algumas. “Quais notas?”, perguntou o genial e desaforado compositor. O mesmo vale para livros. Quais páginas? É fácil exigir isto de autores tidos como menores, mas este critério deveria ser universal. Senão vejamos: talvez A Montanha Mágica seja longo demais e deva ser editado. Quem se atreveria a dizer a Thomas Mann quais passagens deveriam ser tesouradas? Ou melhor, Os Irmãos Karamazov ficaria mais atraente para o público com 300 páginas a menos. Vamos cortar? Quais? E Em Busca do Tempo Perdido, então: quanta coisa inútil! Para quê tantos flashbacks? Vamos poupar o tempo do leitor contando, cortando e cortando. Bobagem. O tempo da palavra escrita é um tempo diferente. Exige paciência e disponibilidade. Uma das coisas que mais contribuem para a asfixia da literatura contemporânea é justamente esta cobrança de urgência. Escrever frases monossilábicas virou sinônimo de qualidade, agilidade, concisão. Nem sempre. Nem todos podem ser Hemingway uma vez que Hemingway já foi Hemingway. Um romance não é um filme que quando for lançado em DVD poderão ser incluídas nos extras as cenas que ficaram de fora. Defendo que o autor deve ter o direito de errar neste sentido. Se for o caso, que pague o preço. Apesar destes excessos e maneirismos, creio que a premissa básica de O Zahir não é desprovida de potencial. Há exemplo de outros livros de Paulo Coelho este também parte de uma sinopse interessante que, sim, poderia render uma boa peça literária nas mãos de um artesão mais habilidoso. Não tenho dúvidas que desenvolvido por um Milan Kundera esta mesma história sobre dois rivais amorosos que se vêem obrigados a conviver resultaria em uma narrativa tragicômica sutil e inteligente. Ainda mais tendo Paris como cenário. Infelizmente O Zahir, mais uma vez, ficou no campo das possibilidades. O leitor, ao longo das 316 páginas do romance, acompanha um desfile de idiossincrasias pessoais de Paulo Coelho. Elas, muito mais do que o enredo, indicam a natureza do livro; feito a imagem e semelhança de seu autor.
Não descartando que Paulo Coelho tem consciência de que descobriu uma fórmula de grande apelo popular e a segue deste então, ao mesmo tempo tenho certeza que seu estilo é de fato seu estilo. Não há nada de artificial nele. Artificial no sentido de que seria manipulado, de certo modo “piorado”, para atender a expectativa prévia dos leitores. Prova disto é que desde O Diário de um Mago, um romance que não era necessariamente “esperado”, sua forma de narrar não mudou. Segundo Paulo Coelho a escolha de seus temas obedece a um critério único. Suas aspirações pessoais. O Protagonista de O Zahir, encarnando mais do que nunca uma máscara para o autor, afirma que “se o assunto for interessante, se estiver em minha alma, se o barco chamado Palavra me levar até esta ilha, talvez eu escreva”. Ademais, Paulo Coelho faz questão de sublinhar o quanto se dedica a seu ofício. De forma surpreendente para quem acredita em sinais e mensagens angélicas ele admite a ascendência da transpiração sobre a inspiração. Afirma que pesquisa muito os temas que aborda e que revisa diversas vezes seus livros. Se ele realiza bem ou mal estas tarefas “braçais” do labor literário é uma outra questão. O fato é que diz fazê-las. Neste sentido não é diferente de muitos autores respeitáveis. Claro que pode ser bem grande a distância entre o que um artista acha que é ou faz parecer ser do que realmente é. Isto precisa ser levado em consideração. Ainda assim creio que na análise de seu próprio discurso poderão ser encontradas pistas importantes para discutir a questão. Pode ser que ele esteja fazendo tipo. Não sei e tampouco vou julgar. Mas, como apontei acima, Paulo Coelho se considera um escritor sério e deseja ser tratado como tal. Acredita que o maior obstáculo para isto é seu sucesso. O Protagonista d’O Zahir cita o desdém da crítica diversas vezes e por fim ironiza que “se você não é nada, se seu trabalho não tem repercussão, então ele merecer ser elogiado. Mas quem sair da mediocridade, fizer sucesso, está desafiando a lei, merece ser punido”. Em outra passagem completa o raciocínio defendendo que os críticos “são democráticos quando falam de política, mas são fascistas quando falam de cultura. Acham que o povo sabe escolher seus governantes, mas não sabe escolher filmes, livros, música”. Não são palavras de quem se julga um mero promotor de entretenimento. Mais ainda: por vias tortas estas passagens deixam explicito seu desejo de receber elogios. Ao mesmo tempo ele é consciente de que a crítica não é um problema real para Paulo Coelho, mas que Paulo Coelho é um gigantesco problema para a crítica. Se por um lado sua vaidade intelectual é ferida, por outro o “mago” sabe que dinheiro não trás felicidade: manda buscar. E ostenta. Em O Zahir chega a ser obsceno a quantidade de passagens em que o Protagonista escreve sobre o fato de que possui muito, muito, muito, muito dinheiro. O esnobismo novo-rico começa já nas primeiras laudas. Na página 27 lemos que: “saboreio a idéia de minha nova condição: solteiro e milionário”. Na lauda 29 sai-se com “tenho dinheiro, tenho contatos”. A ladainha segue nas páginas 39 e 46. Da um salto para a 110 e alcança o auge na 219: “Digo e repito que já consegui o que quase nenhum escritor conseguiu: ser publicado em quase todas as línguas”. Continua na 228 e na 230. Na 237 trata seu rival, usando a voz de outro personagem, como alguém “menos famoso, menos rico, menos conectado com os donos do poder”. Segue na página 273 e na 275 dá números: “Se lanço um novo livro, pode ser que (ganho) algo em torno de cinco milhões de dólares naquele ano. Se não lanço nada, fica em torno de dois milhões de direitos remanescentes dos títulos publicados”. E por aí vai na 276 e 277. Fecha a fatura na 306. Paulo Coelho / O Protagonista, em suas palavras, escreve para “ser amado”. E exige amor. Acha, e afirma isto textualmente, que quem não o conhece é um ignorante. Pior, quem não o reconhece “são extremamente inseguros, não sabem direito o que está acontecendo”. Apoiado nesta certeza de estar acima do bem e do mal se dedica a cuspir no prato em que comeu, sabendo que em caso de polêmica sempre vai poder esfregar seu sucesso na cara de seu interlocutor. Em O Zahir, desdenha a futilidade do mundo das celebridades como se fosse mais digno e puro de coração do que os tipos sorridentes que aparecem sorrindo a seu lado nas revistas de fofoca. Desdenha as festas nas quais é obrigado a ir por questões sociais. Desdenha os jornalistas que, segundo ele, fazem sempre as mesmas perguntas: qual o tema de seu lançamento? De onde vem sua inspiração? Se está trabalhando em um novo projeto? Responde a todas no piloto automático. Embalando no ritmo, destila as mais esdrúxulas opiniões. Afirma que não pretende vender os direitos de seus livros para o cinema porque acredita na velha ladainha de que “o livro sempre é melhor que o filme”, e, além disto, “cada pessoa, ao ler o livro, cria seu próprio filme na cabeça, dá rosto aos personagens, constrói os cenários, escuta a voz, sente os cheiros”. Curioso que tenha vendido Brida para a TV fazer uma novela. Por fim acrescenta que quando vai ao cinema evita “adaptações literárias, claro, e sempre procurando filmes que fossem escritos especialmente para as telas”. Se os discípulos do mestre Coelho derem crédito a este ensinamento vão ficar sem ver, só para citar alguns poucos, ...E o Vento Levou, Laranja Mecânica, Blade Runner, O Poderoso Chefão, O Leopardo, Ligações Perigosas, O Morro dos Ventos Uivantes, A Fantástica Fábrica de Chocolates, Branca de Neve e os Sete Anões e também a série Harry Potter, onde poderiam aprender muito. Serão feiticeiros ignorantes cinematograficamente. Não se envergonha nem mesmo de escrever máximas que não ficariam mal na boca de um personagem da Malhação, dado o tom adolescente: “Os verdadeiros amigos são aqueles que estão a nosso lado quando as coisas boas acontecem. Eles torcem pela gente e se alegra com nossas vitórias. Os falsos amigos são os que só aparecem nos momentos difíceis, com aquela cara triste de ‘solidariedade’”. Puxa, e eu que sempre pensei que fosse o contrário! Paulo Coelho mudou minha vida. É mesmo um sábio! “Santo Subito”! Outras passagens primam pelo amontoado de clichês chorosos: “Não me arrependo dos momentos que sofri, carrego as cicatrizes como se fossem medalhas, sei que a liberdade tem um preço alto, tão alto quanto o preço da escravidão”. Diante de tamanha sabedoria, melhor calar. Apesar de tudo, e do que pode parecer, a leitura de O Zahir foi uma experiência indolor. Não muito diferente de assistir um filme trash na televisão de madrugada só para pegar no sono. Terminei-o com uma certeza redobrada: existe realmente uma forma de Paulo Coelho fazer chover. Basta escrever um bom livro. Neste dia vai cair um dilúvio.
1 Entre as obras de J. M. Simmel figuram Ninguém é uma ilha, Nem só de caviar vive o homem, Amor é só uma palavra, Deus protege os que amam, Só o vento tem a resposta, Até o mais amargo fim, Ainda estamos vivos e Ainda resta uma esperança, dentre outros.
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Comentários
Se existe alguma serventia no mundo para tal criatura, seria esta de muro de apedrajamento. Juro que tentei, logo que saiu a primeira edição do Mago, lê-lo na integra...cometi uma gafe ecológica: na época comprei na rodoviária Tietê, estava indo para Trancoso sul da Bahia e resolvi conhecer a peça. Comprei o livrinho e joguei pela janela lá pela página 24. O FDP é muito ruim. Parabéns Ademir, da próxima vez pode até me chamar que ajudo segurar o tio e vc bate.....
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